Nacionalização da YPF põe empresários em alerta na Argentina

Atualizado em  17 de abril, 2012 - 15:43 (Brasília) 18:43 GMT
Foto: AFP

Especialistas temem que Argentina decida nacionalizar outras empresas

A decisão da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, de "expropriar" a petrolífera Repsol-YPF, de capital espanhol e argentino, gerou forte desconfiança no setor privado, que teme iniciativas semelhantes do governo em outros setores da economia.

Em entrevista à BBC Brasil, o ex-secretário de Energia argentino, Daniel Montamat, disse que agora as empresas se perguntam sobre "quem poderá ser a próxima" a ser nacionalizada.

Segundo os analistas, o temor se justifica porque muitas empresas privadas que prestam serviços públicos (muitas das quais já foram estatais) têm feito poucos investimentos no país.

"O medo é que o governo use, então, o mesmo argumento, da falta de investimentos, como ocorreu com a YPF, para tomar a mesma iniciativa", disse Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados.

O baixo investimento seria consequência dos baixos lucros no país. Com as tarifas públicas congeladas (que muitos empresários dizem ser uma medida populista do governo), os preços e as margens de lucro acabam corroídos pela alta inflação.

Investimentos estrangeiros

Para o economista Marcelo Elizondo, da consultoria Desenvolvimento de Negócios Internacionais (DNI), a decisão de nacionalizar a Repsol-YPF é "equivocada" e "afetará a reputação da Argentina no exterior".

Elizondo afirma que a manobra poderá desestimular "ainda mais" o desembarque de investimentos estrangeiros no país.

"Provavelmente, a medida sobre a Repsol-YPF não afetará só a indústria do país, mas as relações comerciais da Argentina com outros países, especialmente da Europa", disse Elizondo.

Em discurso realizado segunda-feira, em rede nacional de rádio e de televisão, ao anunciar a "recuperação" da petrolífera, a presidente Cristina Kirchner disse que o governo não vai "tolerar" a falta de investimentos no país.

Cristina recordou que recentemente ocorreu um "apagão" telefônico, com celulares da empresa Telefônica, no país, e sugeriu que o governo está disposto a aumentar a presença na economia.

Para Elizondo, a maior presença do estado está ocorrendo gradualmente, desde o inicio da era kirchnerista, a partir do governo do ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007), antecessor de sua esposa e viúva, Cristina Kirchner.

Cartazes sobre a nacionalização da YPF. | Foto: AFP

Decisão governista teve apoio até mesmo de setores da oposição

"O governo já assumiu empresas estratégicas como Correo Argentino e Aerolíneas Argentinas, entre outras", recordou Elizondo.

O Estado argentino avança em diferentes setores. Em 2009, o governo nacionalizou os direitos de transmissão dos jogos da primeira divisão do campeonato de futebol, antes transmitido apenas por TVs a cabo. Os jogos, agora, são transmitidos pela TV aberta.

Apoio

Quase ao mesmo tempo em que a presidente anunciava a expropriação da petrolífera, os interventores do governo entraram no edifício da empresa, no bairro de Puerto Madero, em Buenos Aires.

Executivos argentinos e espanhóis contaram à imprensa local que tiveram "quinze minutos" para deixar suas salas e teriam perdido automaticamente, disseram, acesso aos seus e-mails.

"Saímos pela porta dos fundos como se fossemos fugitivos. Nunca vimos nada assim antes", disseram.

O projeto de lei da nacionalização começa a ser debatido nesta terça-feira no Congresso Nacional. Ao mesmo tempo, entrou em vigor na véspera o decreto da intervenção que durará trinta dias – prazo no qual o governo espera já ter aprovado o projeto no Congresso.

A medida teve apoio de sindicatos de trabalhadores do setor de petróleo e recebeu forte respaldo dos governistas. Os setores mais à esquerda da oposição, como o liderado pelo deputado Fernando 'Pino' Solanas, do Projecto Sur, também respaldaram a decisão.

Mas a expropriação também levantou críticas, como a do prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, uma das principais vozes da oposição. Segundo ele, a medida "só prejudica a imagem da Argentina no exterior".

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