Bob Marley era 'o pai mais legal', mas surpreendentemente 'rígido'

Cedella (à esq) e Karen Marley, filhas do cantor, em foto de 17 de abril Direito de imagem AFP
Image caption Cedella Marley (à esq., com a irmã Karen) diz que sentia orgulho quando o pai ia buscá-la na escola

Nascida em 1967, Cedella Marley é a filha biológica mais velha do cantor Bob Marley. No momento em que um documentário sobre a vida do artista estreia pelo mundo, ela relembra, em entrevista à BBC, que seu pai era "o mais legal possível", mas surpreendentemente rígido. Leia seu depoimento:

Ele era um pai legal, o mais legal possível. Nunca levantava a voz para nós. Acho que, porque passava tanto tempo na estrada, quando não estava viajando era algo como "temos quatro dias, o que vamos fazer? Vamos nos divertir".

Quando estava em casa, era ele quem nos buscava na escola e nos levava à praia. Íamos correr, nadar. Ele era competitivo, fanático por exercícios.

O estilo dos meus pais era: "Se estamos disputando uma corrida, não pense que vamos deixar você ganhar!". Era uma época divertida - assisti-lo enquanto ele nos via perdendo!

Não diria que ele era um pai meloso, mas era divertido. E engraçado - sempre tentava te fazer rir.

Escrevia canções ao nosso redor, e isso também era divertido de ver. Era algo meio casual - ficávamos assistindo TV e ele ali, com seu violão.

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Image caption Cantor era perfeccionista e rígido com a lição de casa dos filhos

(A canção) "Nice Time" era a minha canção de ninar, e ele a escreveu pra mim quando eu nasci.

A música foi algo importante em nossa infância. Não era algo que éramos obrigados a fazer. A atitude do meu pai era: "Se você quiser fazer música, pode, mas daí terá que fazer muito bem".

Ele era um perfeccionista - tudo tinha que ser perfeito.

E era muito rígido com a nossa lição de casa. Frequentávamos escolas católicas. Era engraçado porque as pessoas diziam: "Seu pai é tão rastafari". Eu respondia: "Pois é, e ele nos manda a escolas católicas!".

Sendo criado na Jamaica, culturalmente você desenvolve preconceitos religiosos. E, sendo filha de pais rastafaris, as pessoas queriam me fazer sentir "menos do que elas" por causa da religião. Acho que é por isso que, para o papai e mesmo para nós, os filhos, era importante se superar - sempre estávamos tentando romper barreiras, mudar as coisas e fazer algo diferente com as nossas vidas.

O papai queria que eu fosse uma médica ou advogada. Agora, olhando para trás e, pensando em todos os problemas legais que tivemos, provavelmente eu devesse ter cursado direito!

Meu pai tinha namoradas. Acho que fazia parte da vida - eu nunca me casaria com um músico. Mas sua relação com a minha mãe parecia amorosa. Sempre que eu os via, pareciam amorosos.

Minha mãe criou a maioria dos filhos do meu pai em algum momento. Todos vivemos na mesma casa em alguns momentos. E mesmo agora, na idade adulta, estamos a quarteirões de distância uns dos outros. Minha vida não seria a mesma sem eles.

Não me lembro de nenhuma vez que tenhamos chamado amigos para dormir em casa, porque seus pais não deixariam. Acho que (essas pessoas) tinham uma ideia errada da nossa casa.

Talvez pensassem que você chegaria na nossa casa e haveria maconha pelos cantos, mas era um lugar muito rígido - nossos pais não fumavam dentro de casa.

Meu pai era um pai sexy, musculoso e com dreadlocks. Eu tinha orgulho dele.

Sempre que ele nos buscava na escola, eu andava com o peito estufado e meu nariz para cima. Era como se dissesse: "Este é o meu pai". Ele era o pai mais sexy da escola.

Sua influência duradoura em mim? Ele disse algo com o qual eu não concordo 100 por cento: "Se a minha vida é só para mim, então não quero (viver)".

Mas eu entendo o que ele quis dizer. Se você não é capaz de fazer algo que provoque mudança, então para que está vivendo? Mesmo que o nosso tempo juntos tenha sido curto, ele era uma ótima pessoa para ter como pai.

Cedella Marley foi entrevistada pelo programa Outlook, do Serviço Mundial da BBC