Ivan Lessa: Coisas a não se dizer ao doente

Atualizado em  23 de abril, 2012 - 05:02 (Brasília) 08:02 GMT

Doença a gente tira de letra. Ou ela tira a gente. Passam a ser secundárias as duas opções. Duro mesmo são os votos feitos por diletos ou indiletos amigos enquanto continua a se espirrar neste vale de atchins.

Eles, bem intencionados, via e-mail, viva voz ou cartão postal acompanhando cesta de flores ou frutas nos desejam coisas. Sentem-se na obrigação de dizer qualquer coisa e sempre dá besteira. Dá besteira por que – bolas! – a gente está doente e a sensibilidade se aguça como um porco espinho.

Baseado, em estudos e ruminações, e algum plágio de tabloide canalha, enumero algumas ocasiões em que o bico deve ser mantido diante disso que acho que ponderei – que vivemos, ou sobrevivemos, de doença a doença, de mal-estar a mal-estar.

Exemplificando:

"Estimo as melhoras." Não há nada pior na face da terra do que o desgraçado do amigo, vizinho ou conhecido que encerra algo com esse refrão. Não estime nada a não ser este pobre indivíduo que o companheirinho veio visitar. Também não é pra ser "melhoras". É para ficar completamente bom. Novo em folha. "Melhoras" um "Melhoral", como o nome indica, resolve.

"Sinto muito por você." Mentira, improbabilidade. Ninguém sente nem quer sentir o que estamos sentindo ou pressentindo no ar. Apenas, como tudo que se segue, irresponsabilidades ditas sem pensar. Falta de sensibilidade.

"Pode deixar que essa você supera isso". Quer apostar quanto como não supera?, você deveria responder. Os doentes têm mais modos e contato com a realidade do que os que andaram ou, no domingo, correram a maratona.

"Você está está com bom aspecto". E suas devidas variações. Mesmo caindo aos pedaços, sem forças, essa exige reação. Cuspa em quem disse, se conseguir. Ou jogue em cima um cinzeiro ou um dos controles remotos do que sobrou de sua vida. Aí ele ou ela vai ver o que é bom aspecto.

"Qualquer coisinha que eu possa ajudar, estamos aí." Não. Não esteja aqui. Vai sua vida. Só o doente manja de doente. O doente prefere ficar sozinho à companhia de imbecis. Mande-se imediatamente. Nem cafezinho, nem suco e nem copo de água serão servidos.

"Tenho a certeza de que você está se preocupando sem razão." Esse só com a resposta: "Não foi isso o que a sua mãe disse". Da cadeira de rodas, com o tubo de oxigênio atochado no nariz, fique descansado. Esse tipo não é de bater em doente.

"Sabe que esse treco pode ser pissco-somático?"

Calma. Contenha-se. O coração disparar só vai piorar as coisas. Só de sacanagem fique melhor mais rápido para aí então bolar vinganças – com torturas medievais – terríveis. Vocês dois merecem.

"Então, como vai indo de quimioterapia?"

Babe nas costas de mão direita e procure acertar na cara do bruto. Ria muito dizendo aos brados que esse troço pega. Como quem falou é ignorante, capaz de acreditar. Ou então vai ver que pega mesmo. A doença, não o tratamento.

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