Ivan Lessa: Canção verde e amarela do Adeus

Cá estou de novo no cais. Os aeroportos andam apinhados de gente indo ou voltando, eu ficaria exposto como um batedor de carteiras com meu lenço branco na mão cantarolando o Cinco Letras que Choram, do Silvino Neto, na pior imitação possível de Chico Viola, O Rei da Voz.

Fico, pois, no cais, todo de preto feito futura viúva de pescador português em Nazaré, a me despedir.

Despedir de quem? Dos brasileiros que, após estada razoavelmente frutífera em terras britânicas, conseguiram escapar das balas policiais, do rapa e das autoridades que zelam pela legitimidade dos benefícios sociais.

Londres, principalmente, foi sacudida pelo estrondo do vazio deixado pelos brasileiros que retornam ao solo pátrio, muito pimpões, esperançosos como um parágrafo de Stefan Zweig, nada avexados da experiência europeia que não deu certo.

Eu não enturmava nem frequentava suas bibocas multicores nos bairros que escolheram para armar suas ubíquas bandeiras, mas nunca deixei de estar presente ao guaraná legítimo e à magra fantasia de picanha com que fizerem seu nome.

Deixam um legado histórico: a caipirinha. Dois, aliás, se contarmos a caipiroska, assim mesmo com K, como estava na Tendinha Brasil, no verde e amarelo bairro de Stockwell.

É duro para nós que ficamos, com nossos enfisemas e cônjuges à doença semelhantes, mas a verdade está publicada em todos os meios de comunicação. Os brasileiros estão voltando para o Brasil.

Parabéns, Brasil! Aguentai a parada Londres e arredores! Vai ser duro, mas assim é a vida: um dia se vem, outro se vai.

Melhor coisa é não se afeiçoar muito de ninguém nem nada que pinte a cara de verde e amarelo e desfralde bandeira com frases positivistas em dias de concerto de roquiendirôl.

São gente que, com sua presença alegre, desinibida, marota como um banana goal, feito eles chamam, alegram com sua presença qualquer vendinha ou limpeza de cinzeiro em restaurante argentino.

Mais uma vez, embargado, ensaio o Neruda que não canso de citar, olhos marejados: amo el amor de los marineros que besan y se van, gente boa, longe de mim mas tão perto do coração. Ficarei um pouco mais sozinho do que já o sou.

Adeus, adeus, adeus, Sejam felizes na terrinha que os viu partir chorosa e agora vai recebê-los como um hotel cinco estrelas recebe um governador carioca e comitiva: com bons modos, fazendo paredinha para os outros hóspedes não verem e, mais tarde, contando os talheres.

Aos fatos que só os fatos não lacrimejam feito este palerma que vos digita estas mal tecladas: há perto de 50 mil brasileiros sediados no Reino Unido.

Muitos atestam ser 4 vezes esse número. Pode não ser, mas é como se o fosse, tamanho o fuzuê que fazem.

O Brasil ultrapassou a Grã-Bretanha em matéria de tutu dando sopa e, agora, é a sexta maior economia do mundo.

Economia é ponto que não acaba mais na bizantina equação da "saudade", esse mal que nos aflige e ao que parece não tem solução a mão ser voltar e ser Classe C (ou B+ e coisa parecida, uma dessas invenções econômicas que fica bem de frente e de perfil no papel) na terra natal.

A recessão pelas bandas de cá cai pelas tabelas como nossos velhos bêbados e crescerá, neste ano olímpico, apenas 0,8%, ao passo de valsa dos 3% que nos credita o FMI, aquele do DMK, o que corre atrás de arrumadeira.

Que importa que o preço das coisas verde e amarelas no verde e amarelo país nosso estejam disparando? Lá, com aquele solzão, nosso futebol e mocinha bunduda depilada, isso não conta ponto.

O negócio – o melhor negócio – é voltar e fazer de conta (como temos samba para todas as ocasiões!) que de lá, como Antonio Maria e Dolores Duran, nunca saímos.

Vozes possantes e bramantes garantem que o Brasil é um estado de espírito.

Se assim for, nunca o deixamos, apenas o espalhamos nos 4 cantos da Terra. Até os japoneses, povo danado de decidido, leio eu que estão voltando com um sorriso amarelo e desse tamanho para o Brazucão, que já foi um dia, mas nunca mais o será, Bananão. Boa viagem, boa gente!