Futuro do euro vira teste de união política na Europa

Moedas de euro. Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Alguns líderes defendem uma federação europeia para gerir a moeda única comum

A perspectiva de saída da Grécia da zona do euro e o aprofundamento da crise voltou a lançar dúvidas sobre o futuro da moeda única. Para líderes políticos e analistas, a sobrevivência do euro virou um grande teste de união política para a União Europeia.

"A crise deixa ao menos uma coisa óbvia. Precisamos mais da Europa, precisamos de união política já que essa é a única coisa que pode salvar a estabilidade do euro", disse Gerhard Schroeder, ex-chanceler (primeiro-ministro) alemão.

Na quarta-feira, muitos gregos correram aos bancos do país para retirar depósitos em euro, diante dos temores de que a crise no país se agrave.

Mais de uma semana após as eleições parlamentares e três tentativas fracassadas de diferentes forças políticas para formar um governo, a Grécia anunciou nesta quinta-feira uma administração interina enquanto são aguardadas novas eleições, já convocadas de forma antecipada.

Nesta quinta-feira, o governo da Espanha, outro país fortemente atingido pela crise, negou uma corrida aos bancos, enquanto os juros pagos pelo país para emprestar dinheiro nos mercados internacionais aumentaram consideravelmente devido aos temores de que a economia espanhola se debilite ainda mais.

No total, o país levantou 2,5 bilhões de euros através de um número de diferentes títulos. Em papéis datados para janeiro de 2015, o país pagou juros de 4,373%, contra 2,89% pagos em abril.

Para as dívidas que vencem em abril de 2016, a Espanha pagou taxas de juros de 5,106%, contra 3,374% pagos em março.

Colapso?

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, emitiu um alerta para a zona do euro e disse que a união monetária encontra-se próxima do colapso caso os governos e instituições dos 17 países não se esforcem mais para apoiar as economias mais críticas, como a Grécia.

Espanha e Itália, os dois países com o pior cenário de recessão e desemprego depois da Grécia, são os que mais despertam preocupações. Para o líder britânico, a zona do euro precisa se transformar ou se preparar para o colapso.

A visão também é defendida por Robert Peston, analista de economia da BBC.

"Temos um enorme paradoxo: a grande decisão de apertar o botão para criar o euro foi uma tentativa francesa de conter o poder político e econômico de uma Alemanha em processo de unificação, mas teve a consequência perversa de reforçar o poder alemão dentro da zona do euro e da União Europeia", diz.

"Então, o que vai acontecer: a criação do super-Estado europeu e a sobrevivência do euro, ou uma desastrosa desintegração monetária e política?", acrescenta Peston.

'Federação europeia'

O agravamento da crise e a falta de um sistema de poder centralizado e ágil na zona do euro voltou a dar força à ideia de uma "federação europeia", com os países transferindo grande parte de sua soberania a Bruxelas.

A tese não é nova e já foi defendida por teóricos e políticos pró-Europa, embora tenha sido sistematicamente descartada como sendo utópica.

Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu durante os anos em que o euro estava em processo de criação e implementação, é um dos defensores da maior integração política como solução.

"Em um mercado unificado, com uma moeda única, me parece que a Europa poderia ir em frente e criar uma federação", ou seja, um super-Estado europeu.

Na visão de Helmut Schlesinger, outra figura experiente no sistema financeiro europeu que foi presidente do Bundesbank, o banco central alemão, em 1992, é difícil prever o sucesso ou insucesso do euro dentro de um cenário de criação de tal federação.

"Não posso fazer previsões de longo prazo neste sentido. Deve-se considerar que as uniões monetárias, ou mais precisamente, as moedas únicas, já sobreviveram por muito tempo, mas nunca por mais de três ou quatro décadas", diz.

"Eu diria que podemos ter os Estados Unidos da Europa, o que seria uma união política de fato, e aí essa união política tem sua própria moeda. Mas aí não estamos mais falando de uma união monetária, e sim da moeda de um novo Estado", acrescenta.

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