Leis de imigração fazem EUA 'ficar para trás em corrida por cérebros'

Atualizado em  22 de maio, 2012 - 17:27 (Brasília) 20:27 GMT
Claudio Carnino (Divulgação/Parceria para a Nova Economia Americana)

Burocracia das leis de imigração fez italiano Claudio Carnino desistir de abrir empresa de tecnologia nos EUA

Quando o italiano Claudio Carnino teve a ideia de abrir uma pequena empresa no setor de tecnologia, olhou primeiro para os Estados Unidos – a meca do empreendedorismo. Dois anos atrás, após abandonar a faculdade, ele e sua parceira Nicoletta Donadio conseguiram ter seu projeto aprovado poruma prestigiosa incubadora em Providence, Estado de Rhode Island.

Entretanto, depois de analisar a burocracia das leis de imigração americanas, e avaliar o risco de os donos um dia terem seus vistos negado para viver nos EUA, a incubadora voltou atrás.

"Eles nos disseram que queriam investir na empresa, mas que sempre haveria esse problema da imigração", disse Claudio, de 23 anos, à BBC Brasil. "Foi de romper o coração."

O italiano, que depois do episódio levou o seu projeto para o Chile, é apenas um exemplo dos talentos que os EUA estão desperdiçando com leis "incoerentes" de imigração, segundo um grupo apartidário de prefeitos e de grupos empresariais americanos, a Parceria para uma Nova Economia Americana.

Em um relatório inédito que compara a estratégia americana de imigração com a de outros países, a coalizão afirma que os EUA estão "ficando para trás na corrida global por talentos" e que correm o risco de ter escassez de mão-de-obra qualificada no futuro próximo, apesar do fluxo permanente de trabalhadores batendo às suas portas.

"Enquanto no passado a América já foi a primeira e única escolha para jovens sonhadores com a próxima grande ideia, os empreendedores ambiciosos agora olham para destinos como China, Índia, Brasil e Cingapura, e veem mercados e oportunidades enormes, ambientes de negócios receptivos e governos que os querem", critica o relatório.

"Um olhar sobre as estratégias dos outros países revela que o nosso fracasso em reconhecer o imperativo econômico da reforma de imigração – em forte contraste com muitos países competidores que veem a imigração como motor do crescimento econômico – virou uma ameaça para nossa prosperidade futura."

Lugar à sombra

Desencantados com os EUA, foi no Chile que Claudio e Nicoletta encontraram abrigo para a sua empresa, Challengein, que oferece a empresas criar jogos customizados para celular a fim divulgar suas marcas.

A iniciativa foi uma das 154 escolhidas no ano passado pelo programa Start Up Chile, que busca atrair empreendedores com o potencial de abrir seus negócios no Chile e fazer do país uma plataforma para o mundo.

O programa dá aos selecionados um capital inicial de US$ 40 mil, com a concessão de um visto de trabalho de um ano e acesso a uma rede social e de capital, para que os empreendedores desenvolvam seus projetos por seis meses. Como resultado, o programa trouxe 22 startups de 14 países só no ano de 2010, ano de sua criação.

"O Chile não tem essa cultura de startup, portanto a maneira de ser competitivo é comprando essa mentalidade", diz Claudio. "Na Europa, sabemos pouco do Chile: quando se chega aqui vemos que temos acesso a tudo e a vida é como em qualquer outro lugar da Europa ou EUA."

O programa chileno é exatamente o tipo de "estratégia agressiva de recrutamento" de imigrantes que outros países estão colocando em prática e que – para os autores do relatório "Not Coming to America" (Não Vindo para América), realizado pelas parceiras americana e nova-iorquina – estão transformando os EUA em um lugar menos atraente para a mão-de-obra, tanto qualificada quanto pouco qualificada.

Vistos especificamente para empresas startup também existem em diferentes modalidades na Grã-Bretanha, Nova Zelândia, Cingapura e Irlanda. Mas autorizações que contemplam diversos outros aspectos das necessidades econômicas dos países também são encontradas na Austrália, Canadá, China, Alemanha e Israel, países analisados pelo relatório.

Na Austrália e no Canadá, os vistos podem inclusive ser emitidos pelas províncias, variando de acordo com as necessidades econômicas de cada região dentro desses países. Alemanha e Israel, tradicionalmente fechados à imigração, também já facilitam suas políticas migratórias para trabalhadores qualificados e temporários.

Já a estratégia chinesa mostra que o tapete vermelho não é estendido apenas a estrangeiros, mas também a cidadãos nacionais que moram em outros países. O Plano de Desenvolvimento de Talento de Médio e Longo Prazo oferece generosos bônus, subsídios habitacionais, incentivos fiscais e prestígio para que a professores e pós-graduados chineses que vivem no exterior voltem para casa.

"Os países têm introduzido uma variedade de reformas, incluindo sistemas de concessão de vistos mais eficientes, maior facilidade de converter um visto temporário em visto permanente, programas customizados e benefícios para integrar os recém-chegados imigrantes à economia", compara o relatório.

"Nossas políticas (dos EUA) são irracionais e sem direção, em forte contraste com a abordagem estratégica e específica dos outros países."

Escassez

Para a coalizão, o risco mais evidente é o de que num futuro não muito distante os EUA, com tantos aspirantes a imigrantes batendo à sua porta, possa vivenciar uma escassez de mão-de-obra em setores cruciais para a inovação e a criação de empregos.

Em 2018, um estudo citado no relatório projeta que o país tenha cerca de 2,8 milhões de vagas abertas nos setores de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, sendo que 779 mil delas para profissionais com nível pelo menos de mestrado – e apenas 552 trabalhadores com a qualificação necessária para preenchê-las.

Muito pior, embora os EUA sejam um dos países que mais atraem estudantes qualificados, oferecem poucas chances para que eles permaneçam no país uma vez que terminem seus estudos.

"É crucial notar, porém, que não são apenas os imigrantes com diplomas avançados que contribubem para a economia americana. Em Nova York, por exemplo, um estudo recente indicou que enquanto os imigrantes são 36% da população, eles respondem por quase metade de todos os proprietários de pequenas empresas", diz o relatório.

Para os autores do estudo, a situação só pode ser revertida se as autoridades dos EUA fizerem leis de imigração "levando em conta as necessidades econômicas" do país.

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