Presença crescente de imigrantes africanos gera polêmica em Israel

Atualizado em  22 de maio, 2012 - 15:20 (Brasília) 18:20 GMT
Imigrantes africanos dormem ao relento em parque de Tel Aviv.

Imigrantes africanos dormem ao relento em parque de Tel Aviv (Foto: Guila Flint)

A presença de um grande contingente de imigrantes africanos tem gerado polêmica na maior cidade de Israel, Tel Aviv. Em busca de melhores condições de vida, mais de 60 mil cidadãos da Eritreia, Sudão e outros países do norte da África, já cruzaram irregularmente a fronteira entre Israel e Egito, caminhando através do deserto do Sinai.

O maior contingente se concentra em Tel Aviv, onde estima-se que já são 10% da população local de 400 mil habitantes. Para o governo israelense, tratam-se de imigrantes "ilegais em busca de trabalho".

Mas para a ONU e algumas ONGs de direitos humanos, muitos deveriam se caracterizar como "refugiados políticos".

Muitos dos imigrantes enfrentam estigmas. O próprio ministro do Interior israelense, Eli Ishai, acusou os africanos de serem "criminosos" e disse que todos deveriam ser "presos e expulsos" de Israel.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, também entrou na polêmica ao dizer que o grande número de imigrantes ilegais é "um perigo para a segurança e para o caráter judaico e democrático do Estado de Israel".

'Desamparo'

Imigrantes africanos já são maioria nos bairros mais pobres de Tel Aviv, como Neve Shaanan e Shapira.

Segundo organizações em defesa de direitos humanos, os imigrantes não têm recebido ajuda suficiente do governo. Sem moradia, muitos deles acabam dormindo ao relento em parques da cidade. ONGs, juntamente com a prefeitura da cidade tentam prestar alguma assistência aos imigrantes.

Gabriel Tekle, de 31 anos, é natural da Eritreia, onde estudava pedagogia na Universidade de Asmara, até a instituição ser fechada pelo regime militar do país.

Ele foi então preso e obrigado a servir o Exército, onde prestou trabalhos forçados. Em 2006 conseguiu fugir para o Egito e, de lá, atravessou a fronteira para Israel, onde chegou em 2007.

"Nenhum representante do Estado de Israel falou comigo desde que cheguei", disse Tekle à BBC Brasil. "Se ouvissem a minha história entenderiam que sou um refugiado politico e que fugi do meu país porque estava correndo risco de vida".

Não é essa a percepção, no entanto, entre muitos moradores de Tel Aviv. Para Benny Ben Shlomo, dono de uma casa de câmbio em Neve Shaanan, os imigrantes em situação irregular deveriam ser "imediatamente expulsos".

"Eles prejudicam os negócios no bairro, as pessoas têm medo de circular aqui por causa deles", acrescentou o comerciante.

Problema nacional

Gabriel Tekle

Gabriel Tekle era estudante de pedagogia na Eritreia.

O governo local de Tel Aviv também reclama da falta de uma reposta nacional consistente ao problema. O vice-prefeito de Tel Aviv, Assaf Zamir, acusa de "negligência" o governo central.

"Não é justo que o problema dos refugiados caia sobre as costas da prefeitura e dos bairros mais pobres de Tel Aviv", afirmou Zamir. "Trata-se de um problema que deve ser tratado em nível nacional e não apenas municipal".

Nas últimas semanas houve dois casos de estupro de mulheres israelenses, nos quais os suspeitos são imigrantes da Eritréia, acirrando a discussão na sociedade israelense sobre a presença dos refugiados no país.

Segundo o departamento de pesquisa do Parlamento israelense, no entanto, o índice médio de criminalidade entre o total de imigrantes em situação irregular é de 2,04%, enquanto o índice na população geral é de 4,99%.

O comandante da policia, Yohanan Danino, disse que, para conter o aumento da criminalidade entre os imigrantes africanos, o Estado deve permitir que eles trabalhem para se sustentar.

"Se não puderem trabalhar, o índice de roubos cometidos por eles vai certamente crescer", afirmou Danino.

"Queremos trabalhar", disse Gabriel Tekle, "somos pessoas dignas e não queremos favores de ninguém, só queremos sobreviver até que seja possivel retornar ao nosso país".

A presença dos imigrantes também conta com a aprovação de muitos cidadãos israelenses. Shimshon Djibo, dono de uma loja de roupas em Neve Shaanan, diz acreditar que os imigrantes "são pessoas boas, que não fazem mal a ninguém".

"Entre 60 mil há dois suspeitos de estupro, isso é razão para culpar todos eles?", perguntou Djibo.

Barreira

Israel é signatário da Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados e, segundo as leis internacionais, está impedido de repatriar os imigrantes vindos da Eritreia e do Sudão, pois estes correriam risco de vida ao regressar a seus países.

O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu anunciou um plano para enfrentar o problema, que inclui a construção de uma cerca na fronteira com o Egito, que impedirá a entrada irregular de imigrantes no território israelense. Segundo o premiê, a cerca ficará pronta até outubro deste ano.

O plano também inclui a construção de um campo de detenção para imigrantes em situação irregular, no sul de Israel, que poderá abrigar cerca de 12 mil pessoas.

O secretário do gabinete, Tzvi Hauzer, também disse que o governo está estudando a possibilidade de negociar a transferência desses imigrantes para outros países.

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