Queda de juros dá fôlego à economia, mas não garante expectativa do PIB

Linha de montagem | Foto: BBC
Image caption Queda dos juros pode ajudar indústria, mas terá pouco impacto no PIB, dizem analistas.

A nova rodada de redução dos juros, a sétima consecutiva, anunciada nesta quarta-feira pelo Banco Central, confere dinamismo à economia brasileira, mas dificilmente garantirá um crescimento do PIB acima de 3% neste ano, segundo especialistas.

Por unanimidade, o presidente e os seis diretores do BC decidiram diminuir os juros dos atuais 9% ao ano para 8,5%, o menor patamar da história.

Foi também a primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desde a criação do órgão em 1996 em que o resultado dos votos foi divulgado nominalmente, seguindo a promulgação da Lei de Acesso à Informação.

De acordo com especialistas ouvidos pela BBC Brasil, a decisão do BC dará em um novo impulso à economia brasileira, uma vez que juros menores propiciam empréstimos a custos mais baixos, incentivando o setor produtivo e o consumo das famílias.

Na semana passada, o governo recorreu a um novo pacote de medidas, entre elas a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis, como forma de retomar a atividade econômica do país.

"Nos últimos meses, a economia brasileira tem sido afetada negativamente tanto pelo mau desempenho da indústria nacional quanto por um cenário externo desfavorável, com a crise na zona do euro e a desaceleração da China e dos Estados Unidos. Além disso, não há, por ora, risco inflacionário", disse Felipe Queiroz, economista da agência classificadora de risco Austin Rating.

Segundo dados da pesquisa Sondagem Industrial, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a produção industrial registrou queda em abril. Com exceção de março, houve retração da produção no setor desde agosto do ano passado.

Crescimento

Como resultado do fraco desempenho da indústria e da redução das exportações, provocado especialmente pela desaceleração da demanda global por commodities, o crescimento da economia brasileira tem sido revisado para baixo neste ano.

Segundo o último boletim Focus, divulgado pelo BC, o PIB deve crescer 2,99% em 2012, abaixo da previsão do governo, que espera alta entre 3 e 4%.

Mas os analistas afirmam que ainda que a queda da Selic traga novo fôlego, a economia brasileira não deve crescer além dos 3% neste ano, situando-se num patamar semelhante ao do ano passado, quando o PIB subiu 2,7%.

"Nos três primeiros meses de 2012, o PIB deve crescer menos de 0,5%, podendo, inclusive, chegar a zero", disse Rogério Mori, professor de economia da FGV-EESP.

O mercado aguarda os dados sobre o crescimento econômico no primeiro trimestre deste ano, que serão divulgados na próxima sexta-feira pelo IBGE.

Direito de imagem
Image caption BC pode fazer mais uma rodada de redução dos juros

"Entramos num patamar até então inexplorado dos juros, mas dificilmente essa redução da Selic permitirá um crescimento acima de 3% neste ano", acrescentou Mori.

Inflação

A queda dos juros não deve, por ora, ter um efeito nocivo sobre a inflação, que subiu 0,64% em abril, acumulando alta de 5,1% nos 12 meses anteriores, ainda acima, portanto, do centro da meta, de 4,5%, de acordo com os analistas.

"Não vejo pressão inflacionária neste momento, uma vez que a economia tem mostrado sinais de desaquecimento, com a produção doméstica em queda e uma capacidade ociosa da indústria acima da média", disse Queiroz.

Segundo as últimas previsões, a inflação deve terminar 2012 a 5,17%. Acima da meta, mas abaixo da taxa registrada em 2011, de 6,5%.

Os especialistas acreditam que, após a decisão desta quarta-feira, o BC ainda deve fazer uma última rodada de redução de juros, que terminariam este ano a um patamar de 8% ao ano, acima dos 7,5% desejados pelo governo.

Com os juros a 7,5%, o Brasil teria juros reais de 2%. Hoje, mesmo com a redução de 0,5 ponto percentual, o país ainda permanece no terceiro lugar com a maior taxa do mundo em termos reais, atrás da Rússia e da China, segundo um relatório da corretora Cruzeiro do Sul.

Notícias relacionadas