Corrida ao ouro avança por estrada Brasil-Peru e atrai índios

Barracas à beira da Interoceânica. | Foto: João Fellet/BBC Brasil Direito de imagem Joao Fellet
Image caption Garimpo atraiu mineradores informais para terras indígenas, causando conflitos

A recém-inaugurada estrada Interoceânica, que liga o Brasil ao Peru, tem abrigado em suas margens precários acampamentos de garimpeiros, que desbravam a Amazônia atrás de ouro. Nessa busca, eles se somam a indígenas da região, que dizem recorrer à mineração para compensar a falta de atenção governamental.

Estimulados pela alta de 100% no preço do metal desde 2008, auge da crise econômica mundial, índios e garimpeiros peruanos integram uma nova corrida ao ouro que se espalha pela América do Sul e tem no Peru, maior produtor do minério do continente, um de seus principais palcos.

Concluída em 2011 e financiada pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), a Interoceânica foi construída para facilitar o trânsito de mercadorias entre o noroeste do Brasil e portos peruanos no Pacífico.

Moradores de cidades peruanas cortadas pela estrada dizem que aos poucos ela cumpre seu objetivo, mas, por ora, o impacto mais visível da construção foi o surgimento de "cidades de lona" às suas margens no departamento (Estado) de Madre de Dios.

Migrantes do Altiplano Andino se instalaram em barracas para explorar o ouro nas margens do rio Madre de Deus e de seus afluentes. A BBC Brasil esteve em alguns desses acampamentos, que se estendem na rodovia por pelo menos 50 quilômetros e começam a surgir a cerca de 250 quilômetros da fronteira com o Brasil.

Prostituição

Durante o dia, quando os mineradores estão no garimpo, os acampamentos ficam às moscas. Mesmo assim, bares sustentados por pedaços de pau e cobertos por lona tentam atrair clientes com prostitutas à entrada e música no máximo volume – geralmente reggaeton, ritmo popular nos países hispano-americanos. Como não há rede elétrica, a energia é provida por geradores a óleo diesel.

"Não é um lugar bonito, mas estou aqui pela grana", afirma uma jovem prostituta que não quis ser identificada. Nascida há 25 anos em Pucallpa, cidade com 270 mil habitantes ao norte de Madre de Dios, ela se mudou para o garimpo em 2009, a convite de uma prima. Com os programas, diz ganhar o equivalente a US$ 300 (R$ 602) por semana.

Embora se diga satisfeita com a vida no acampamento, a jovem afirma que muitas colegas vivem sob constante ameaça dos patrões, que retêm seus rendimentos e impedem que elas voltem a suas cidades.

Segundo a polícia peruana, há cerca de 400 bordéis clandestinos à beira da Interoceânica, onde ao menos mil menores de idade atuam como prostitutas.

De acordo com a polícia, algumas são oferecidas aos clientes numa espécie de promoção, em que a compra de uma garrafa de uísque lhes dá o direito de ter relações com as jovens em minúsculos quartos de plástico.

Embates

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Image caption Margens da Interoceânica tem acampamentos e prostíbulos

Para combater a mineração informal, o governo peruano aprovou no início do ano um decreto que torna a atividade crime, com pena de até dez anos de prisão. Simultaneamente, passou a explodir dragas encontradas nos garimpos.

Em resposta, no dia 14 de março, cerca de 15 mil mineradores, segundo estimativa da imprensa local, foram protestar em Puerto Maldonado, capital de Madre de Dios. O grupo rapidamente bloqueou a ponte estaiada à entrada da cidade e rumou para o aeroporto, com o intuito de tomá-lo.

No entanto, os 15 mil se depararam com 700 policiais no caminho, que abriram fogo para dispersar a multidão. Os confrontos deixaram três mineradores mortos e ao menos 38 feridos. Entre os policiais, 17 ficaram feridos.

Os protestos foram engrossados por comunidades indígenas de Madre de Dios, que reivindicam o direito de explorar ouro em seus territórios.

Presidente da Fenamad (Federação Nativa do rio Madre de Dios e Afluentes), principal organização indígena do departamento, Jaime Corisepa disse à BBC Brasil que os índios da região começaram a extrair ouro artesanalmente por volta do ano 2000, à medida que passaram a ter mais contato com o mundo exterior.

Com a alta dos preços nos últimos quatro anos, afirma Corisepa, a atividade se intensificou e fez com que mineradores de outras regiões invadissem terras indígenas.

"Ao ver que nossos territórios estavam sendo devastados e depredados por outros, pleiteamos ao governo que, como donos da floresta, pudéssemos aproveitar os recursos minerais por nossa conta".

Segundo ele, a exploração de ouro pelos índios visa compensar o descaso do governo com as comunidades tradicionais. "O Estado nunca investiu e nunca vai investir na nossa saúde, na educação dos nossos filhos, então temos que ganhar dinheiro para investir."

Ele admite que a mineração informal causa impactos ambientais, mas diz que os prejuízos serão ainda maiores caso as grandes mineradoras passem a controlar as minas, uma vez que atuam com máquinas pesadas.

O governo peruano, porém, tem demonstrado a intenção de manter a linha dura com a mineração informal. Ao se referir à atividade em entrevista em março, o presidente Ollanta Humala disse que o governo "está agarrando o touro pelos chifres".

Ele afirmou, no entanto, que sua gestão dará aos pequenos mineradores a chance de se formalizar, desde que se submetam a normas ambientais e trabalhistas.

Para Corisepa, porém, a postura do governo tem como real intenção "abrir a porta para as multinacionais, para que venham roubar a riqueza de nossas terras".

"Jamais aceitaremos essa política", ele diz.

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