Qual o segredo do sucesso olímpico cubano?

Atletas mirins cubanas treinam descalças (Foto: Raquel Pérez) Direito de imagem Raquel Perez
Image caption Muitos atletas cubanos não têm equipamentos adequados para treinamento (Foto: Raquel Pérez)

Os resultados esportivos da ilha são notáveis. Os cubanos conseguiram manter um crescimento estável desde 1959 e o ponto alto de sua história olímpica aconteceu nos Jogos de Barcelona, em 1992, quando o país chegou ao quinto lugar no quadro de medalhas mundial.

Mas, com o fim da União Soviética, o principal parceiro comercial do país, teve início em Cuba uma profunda crise econômica com repercussão em todos os setores da sociedade.

O esporte do país também sofreu e, como reflexo, nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, o país caiu para o 28º lugar no quadro mundial de medalhas.

Em entrevista à BBC, as autoridades do Instituto Cubano de Esportes e Recreação (INDER, na sigla em espanhol) analisaram quais foram os motivos do sucesso e dos problemas dos últimos anos nos esportes cubanos e mostraram como o país tentará retomar sua tradição em Londres.

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Image caption Antonio Sánchez, medalhista cubano em Jogos Paraolímpicos, uma das amostras da diversificação

"Na relação de medalhas/títulos para milhões de habitantes, Cuba está em primeiro ou segundo lugar entre os países do mundo", afirmou Arnaldo Rivero, diretor nacional de Docência no instituto.

Mais professores

Rivero, que também é o presidente do setor de esportes da Unesco, braço da ONU para a cultura e a educação, afirmou ainda que logo depois do fim da revolução que levou Fidel Castro ao poder, Cuba contava com apenas 800 professores de educação física, que atendiam a 14.500 alunos.

"Desta realidade passamos a uma explosão educativa geral, dando (aulas de) educação física em todas as escolas, hoje temos 84 mil (professores) licenciados em cultura física. Houve uma efervescência muito grande nos esportes e uma grande massificação, este é um dos nossos segredos", disse.

Em 1961 ocorre a primeira edição dos Jogos Escolares, que, segundo Rivero, é onde são encontrados os novos talentos esportivos do país.

Para o diretor do instituto INDER, o esporte nas escolas é muito importante, já que "as maiores possibilidades de desenvolver uma criança ocorrem entre os seis e dez anos, pois, se não conseguirmos (desenvolver) qualidades e capacidades como a rapidez, flexibilidade, agilidade ou ritmo, é quase impossível conseguir depois".

Além dos jogos escolares, o governo cubano também criou escolas especiais nas quais os alunos recebem, além do conteúdo acadêmico, um forte treinamento esportivo.

Diversificação

Para Rivero, outro grande segredo dos esportes em Cuba é a diversificação.

"Conseguimos medalhas olímpicas e em mundiais (...) em 25 esportes", disse.

O diretor do instituto do INDER contou à BBC que, enquanto a "Alemanha concentrava todo orçamento e energia em oito esportes individuais, porque davam mais medalhas, nós diversificamos e começamos a ter resultados onde não tínhamos antes, como polo aquático, esportes com bola ou de combate".

Rivero acrescenta que a grande expansão e diversificação abriram as portas dos esportes para as camadas mais humildes da população, onde estavam os afrocubanos e, "hoje, a maioria de nossos atletas são negros, incluindo em esportes de maioria branca, como ginástica artística, esgrima ou natação".

Mas, segundo Rivero, todos os atletas do país também estudam.

"Nos preocupamos para que tenham também uma profissão. Muitos escolhem Educação Física, mas outros se formam médicos ou engenheiros", disse.

A crise

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Image caption Muitos atletas treinam em parques de Cuba devido à falta de instalações adequadas

Nos anos 90 o país começou a enfrentar a pior crise econômica desde a revolução. As escolas de esportes perderam a capacidade para abrigar os jovens atletas, houve redução nos treinamentos devido à falta de alimentação adequada e a indústria de equipamentos esportivos entrou em dificuldades graves.

Uma das formas encontradas para conseguir recursos foi a da venda de serviços.

"Nos dois últimos anos temos mais de 15 mil técnicos em 106 países", afirma Rivero. No entanto, devido à crise mundial, esta demanda também sofreu queda.

O vice-ministro dos Esportes e medalhista olímpico, Alberto Juantorena, afirma que a captação de recurso ainda não é suficiente.

Ele cita o exemplo do salto com vara, modalidade na qual "uma vara custa US$ 890 (cerca de R$ 1,8 mil), um conjunto de colchões para treinamento de salto com vara, US$ 52 mil (cerca de R$ 106 mil) e um conjunto de colchões para salto em altura, US$ 25 mil (cerca de R$ 51mil) e nós não temos este financiamento".

Apesar das dificuldades, Juantorena garante que o país não pensa em conseguir estas verbas "vendendo" atletas cubanos para outros países.

"A estratégia é economizar os recursos, estudar onde aplicá-los e depois usá-los da melhor forma possível."

O vice-ministro afirma que outra estratégia é pedir ao povo para ajudar a criar novas instalações, pois "não vamos ter instalações sofisticadas no curto prazo. Em um dos bairros onde começamos a trabalhar, junto com os vizinhos, convertemos um lixão em uma área de esportes".

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