Rio+20 busca alternativa 'sustentável' para indicadores econômicos

Atualizado em  14 de junho, 2012 - 05:31 (Brasília) 08:31 GMT
Trabalhador leva cesto de carvão vegetal produzido a partir de madeira retirada ilegalmente da Floresta Amazônica (Foto: Getty Images)

O PIB não mede os custos dos danos ambientais gerados por determinadas atividades econômicas

Um tema em discussão já há bastante tempo por diversos economistas, o uso do PIB (Produto Interno Bruto) como principal indicador econômico estará no topo da agenda da Rio+20.

A qualquer aumento do PIB, por menor que seja, espera-se que todos comemorem – a economia está crescendo e tudo vai bem no mundo. Se ele cai, a economia está encolhendo, e os sinos da ruína começam a badalar.

Mas diversos economistas há muito questionam se o PIB mede algo significativo. E, em anos recentes, esses questionamentos foram ouvidos por um número suficiente de governos para que o assunto entrasse em pauta.

O texto base de um acordo – que poderá ser aprovado ou não, obviamente – diz: "Nós reconhecemos as limitações do PIB como uma medida de bem-estar e desenvolvimento sustentável".

"Como complemento do PIB, nós resolvemos desenvolver métodos rigorosos e com base científica para medir desenvolvimento sustentável, riqueza natural e bem-estar social, incluindo a identificação de indicadores apropriados para medir progresso (...) e usá-los de maneira eficaz nos nossos sistemas nacionais de tomada de decisões, para melhor informar sobre decisões e políticas."

Natureza

Mas o que há de errado com esse simples conceito cuja ascensão e queda veio a dominar nossas manchetes?

"O PIB é simplesmente uma medida de todo o dinheiro que nós gastamos em todas as coisas que nós compramos – cada transação financeira, tudo isso acrescenta crescimento", diz Andrew Simms, da New Economics Foundation, autor de vários livros sobre o tema.

E é na natureza indiscriminada do PIB que ele vê um problema.

"Digamos que você tenha uma onda de criminalidade, e todos se sintam inseguros e corram para comprar mais cadeados e trancas para suas portas e janelas. Isso apareceria como positivo no balanço, mas não contaria a história de que algo ruim está ocorrendo na sociedade."

No mundo do PIB, uma sociedade que dirige é mais rica do que uma que anda de bicicleta, já que gasta mais dinheiro.

Quanto mais rápido telefones celulares forem trocados por modelos mais novos, mais ricos nós somos. Derrubar uma floresta é um acréscimo para a economia nacional. Quanto mais álcool, cigarros e petróleo são vendidos, melhor nós estamos.

Críticas

Entre as críticas ao PIB, estão a de que mede as coisas "ruins" assim como as "boas"; que é um balanço de curto prazo que não leva em conta fatores de longo prazo, como acumulação de dívida; não leva em conta o "capital natural", ou seja, bens e serviços que a natureza oferece de graça; e também não leva em conta fatores sociais, como o quanto as pessoas são felizes.

Defensores do status quo observam que o PIB nunca teve o objetivo de medir bem-estar social ou ambiental.

Elefante morto em estrada que leva a plantação na Indonésia

Críticos dizem que PIB não leva em conta fatores como bem-estar social ou ambiental

Mas de tanto ser medido e mencionado constantemente por políticos, líderes empresariais, editores de jornais, há quem argumente que o PIB se tornou praticamente o único número em uso diário que pode ser citado como evidência de que as coisas estão ficando melhores ou piores.

Organizações como a New Economics Foundation desenvolveram indicadores que acreditam ser mais abrangentes e mais válidos.

A Comissão Europeia criou um compêndio que relaciona e explica conceitos como como o Indicador de Progresso Genuíno, Índice Ambiental de Rendimento Nacional Sustentável e Índice Planeta Feliz.

O pequeno país do Butão usa o famoso Índice de Felicidade Interna Bruta, que combina aspectos como saúde infantil e nível de educação com medidas de proteção ambiental, valores culturais e boa governança.

Mas muitos outros países começam a trilhar o mesmo caminho.

Capital natural

O economista Dieter Helm, da Universidade de Oxford, acaba de ser indicado para comandar o Natural Capital Committee da Grã-Bretanha (comissão que tem o objetivo de oferecer aconselhamento especializado independente ao governo sobre o Estado do capital natural britânico).

Seu papel será avaliar o valor financeiro presente em árvores, água limpa, todo o reino ecológico, e apresentar isso ao Tesouro – que deverá, então, estar melhor informado para tomar decisões.

Vale a pena lembrar que o projeto Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade (TEEB, na sigla em inglês), apoiado pela ONU, calculou o valor das perdas florestais ao redor do mundo em entre US$ 2 trilhões e US$ 5 trilhões (aproximadamente entre R$ 4,14 trilhões e R$ 10,36 trilhões) por ano.

Mas o professor Helm também espera lançar luz sobre outras questões.

"Se você perguntar o quanto temos cuidado dos nossos ativos na economia britânica, em vez de apenas perguntar se o PIB subiu ou caiu um pouco, nós teremos que responder a algumas questões difíceis."

"Por que nós usamos todo o (rendimento de) petróleo e gás do Mar do Norte para beneficiar apenas uma geração? Por que não guardamos nada para gerações futuras? Por que não temos mantido nossas estradas e linhas férreas de maneira apropriada?", pergunta.

'Além do PIB'

A implicação é que um indicador mais sofisticado que o PIB deveria abordar essas questões.

Nem todos, porém, estão convencidos dos argumentos para avançar "além do PIB".

"Todos sabem que os números do PIB não são perfeitos", diz Lord Lawson, ministro britânico das Finanças no governo de Margaret Thatcher.

"Eles são, contudo, extremamente úteis, e quem quer que tente fingir que eles não são úteis será alvo de piadas."

Sobre o capital natural, ele diz que "não há como introduzir objetividade nele" e "é usado apenas para campanhas políticas de um tipo ou de outro".

Até agora, a maioria dos governos está com Lord Lawson. O PIB continua sendo o indicador econômico que faz os leitores ficarem felizes quando sobe meio ponto percentual e sombrios quando cai. O Butão está em minoria.

Mas os ministros reunidos no Rio serão lembrados das palavras de Simon Kuznets, o economista que inventou o PNB (Produto Nacional Bruto) 80 anos atrás: "o bem-estar de uma nação dificilmente pode ser inferido a partir de uma medida de renda nacional".

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