Pressão internacional revive rancores da Guerra do Paraguai

Direito de imagem reproducao
Image caption Grupo formado no Facebook alega ingerência na 'soberania do Paraguai'

O isolamento diplomático que Brasil, Uruguai e Argentina impuseram ao Paraguai em resposta ao impeachment relâmpago do presidente paraguaio Fernando Lugo, na última sexta-feira, reavivou ressentimentos históricos no país.

Ao declarar na terça-feira que os vizinhos armavam uma "nova Tríplice Aliança" contra a nação, em referência à união dos três durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), o representante paraguaio na Organização dos Estados Americanos (OEA), Hugo Saquier, foi apoiado pelos que consideraram a atitude do trio uma afronta à soberania paraguaia.

Eles dizem que a destituição de Lugo seguiu ditames legais e não deveria, portanto, ter motivado represálias dos vizinhos.

"Se quiserem formar outra Tríplice Aliança, que o façam. (…) Não será a primeira vez", disse Saquier, queixando-se do que avaliou como uma articulação entre os três para expulsar o Paraguai do Mercosul e da Unasul, sem dar chance de defesa.

Por ora, o trio já suspendeu o país da cúpula do Mercosul nesta sexta-feira, em Mendoza (Argentina). O Paraguai também foi impedido de participar de reunião da Unasul nas mesmas data e cidade, quando o bloco sul-americano anunciará sua posição sobre a crise paraguaia.

Mídia

Ao repercutir a fala, o ABC Color, maior jornal paraguaio, lançou uma enquete em seu site: "Acreditam que se formou outra Tríplice Aliança, como denunciou o embaixador paraguaio à OEA?". Até a noite desta quarta-feira, o "sim" vencia o "não" por 66% a 34%.

Artigos na imprensa paraguaia também evocaram a Guerra do Paraguai - que arrasou o país - ao comentar a reação dos países vizinhos ao impeachment de Lugo.

Colunista do La Nación, outro jornal de grande circulação, Enrique Vargas Peña escreveu que "os presidentes dos países que integraram a Tríplice Aliança se arrogam o direito de interpretar nossa própria Constituição, erigindo um poder tutelar sobre nosso Paraguai".

Discursos contra a "ingerência externa" no Paraguai também encontraram acolhida em duas comunidades recém-criadas no Facebook.

Direito de imagem Wikimedia Commons
Image caption Ressentimento histórico remete à Guerra do Paraguai

O grupo "Paraguai soberano", com 23 mil membros, diz "não a um novo e nefasto pacto secreto contra o Paraguai". "Somos um povo livre e autodeterminado!". Com nome quase idêntico, a comunidade "Paraguai é soberano" tem 30 mil integrantes e pede que "se reconheça o presidente Federico Franco e se deixe de fazer pressão para confundir e perturbar nossa paz e soberania".

Embora se descrevam como espaços apartidários, ambos os grupos têm veiculado numerosas críticas a Lugo e seu governo. Uma mensagem publicada na noite de quarta-feira dizia: "Por fim se puseram de acordo para tirar este senhor (Lugo) que enganou o povo para receber seu voto!".

História

Para o analista político paraguaio José Carlos Rodríguez, o novo governo "faz uso provinciano e perverso da história" ao citar a Tríplice Aliança para criticar a postura dos países vizinhos.

"O discurso é muito útil ao governo, que usa um trauma coletivo para defender algo indefensável. Assim, fazem-se de vítimas e transferem a culpa aos outros."

Segundo ele, a posição adotada por Brasil, Argentina e Uruguai quanto ao impeachment de Lugo é equilibrada e visa responder ao "golpe de Estado que houve no Paraguai".

Em rodas de comerciantes e taxistas em Ciudad del Este (cidade paraguaia na fronteira com o Brasil), a BBC Brasil também ouviu mais elogios que críticas à postura do trio.

“Eles estão certos em não reconhecer este governo, que é ilegítimo”, diz o taxista Bernadet Benitez. Ele afirma que a Guerra do Paraguai “terminou faz muito tempo” e que, na região de fronteira, depende-se muito dos países vizinhos.

Para Alfredo Jimenez, que trabalha com o câmbio de moedas no agitado centro de Ciudad del Este, o conflito que opôs o Paraguai aos três vizinhos “é algo dos livros de história”.

“Minha geração não dá importância a isso”, diz Jimenez, de 21 anos.

Itaipu

Direito de imagem Divulg.
Image caption Paraguaios se queixam de acordo sobre a utilização de Itaipu

Os semblantes desinteressados se transformam, no entanto, quando o nome "Itaipu" é citado na conversa. Segundo Jimenez, o acordo entre Brasil e Paraguai para a gestão da usina é desfavorável a seu país. "Pagamos mais caro pela energia aqui do que no Brasil", diz ele.

Desde o início da operação da usina, na década de 1980, o Brasil compra parte da energia a que o Paraguai tem direito e não usa. Durante o governo Lugo, houve uma renegociação dos valores, que passaram de US$ 120 milhões a US$ 360 milhões anuais.

Para Gonzales, porém, o repasse “continua baixo”. Ele diz ter lido um estudo segundo o qual um “acordo justo” permitiria distribuir R$ 1 mil para cada família paraguaia todos os meses.

Para reforçar o argumento, ele aponta, com ar sério, uma frase publicada diariamente na capa do diário ABC Color : “50% da energia de Itaipu pertence ao povo paraguaio”.

Notícias relacionadas