Sem Khadafi, região tem nova ‘equação de poder’

Extremistas islâmicos no Mali (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Extremistas islâmicos têm tomado o controle de cidades no norte do Mali

Seis meses após a morte de Muamar Khadafi, enquanto a Líbia se prepara para suas primeiras eleições livres em 42 anos, neste sábado, os desdobramentos da revolução no país não se limitam a suas fronteiras.

A derrubada do coronel Khadafi, morto em outubro do ano passado, mudou "a equação de poder" em diversos países norte-africanos e da região do Sahel (faixa de território subsaariana que vai do leste ao oeste do continente), explica à BBC Brasil William Lawrence, diretor de África do Norte do International Crisis Group.

"Khadafi tinha um grande papel não apenas ao apoiar Estados, mas ao se envolver com a formação política de movimentos e tribos na região", diz Lawrence.

A seguir, o analista explica os principais efeitos que as mudanças na Líbia tiveram nos países ao seu redor:

Insurgências e nova dinâmica de poder

O Mali é um dos mais afetados por insurgências pós-Khadafi. Em 21 de março, um golpe realizado por tropas rebeldes derrubou o governo do presidente Amadou Toumani Touré. O norte do país virou um território parcialmente dominado por rebeldes da etnia tuaregue, que declararam a criação de uma região autônoma – armados provavelmente com armas que obtiveram após lutar ao lado de tropas de Khadafi.

"É difícil saber se o Mali não teria sofrido o golpe independentemente da queda de Khadafi ou não", aponta Lawrence. "Mas a morte do líder líbio deu poder aos tuaregues e enfraqueceu o governo malinense. Além disso, a reação ao golpe teria sido mais rápida se não tivesse havido a desestabilização na Líbia."

Agora, o norte do país enfrenta também uma insurgência islâmica: o grupo Ansar Dine, que teria ligação com a Al-Qaeda, assumiu o controle da cidade de Timbuktu no início de 2012.

No Chade, que faz fronteira com a Líbia ao norte, a tensão é com o grupo étnico seminômade tabu, que em sua maioria lutou ao lado dos rebeldes líbios. Agora, eles enfrentam a tribo zwai pelo controle da região, em confrontos que deixaram dezenas de mortos nas últimas semanas.

Mudanças na configuração de poder regional também afetaram as relações com o Sudão, cujo governo apoiou os rebeldes líbios. Ao mesmo tempo, Khadafi apoiava milícias que agiam na conflagrada região de Darfur. "Por isso, acordos de paz naquela região sempre envolviam Khadafi", afirma Lawrence. Agora, a situação ali tende a ficar mais volátil. "Além disso, corredores de ajuda humanitária a Darfur passam pela Líbia. Ficará mais difícil levar ajuda humanitária para lá."

Tráfico de armas e drogas; terrorismo

A ausência de um poder central linha-dura como o de Khadafi aumentou a volatilidade das fronteiras, abrindo novas rotas para o tráfico de drogas.

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Image caption Instabilidade é agravada por seca, que provoca uma crise de fome no Sahel

Lawrence afirma que rotas do narcotráfico originárias da América Latina agora estão passando pelo instável Mali, visto como um país de Estado fraco.

O mesmo vale para o tráfico de armas, com o agravante de que o armamento que pertencia ao Exército de Khadafi mudou de mãos e atravessou fronteiras.

"Muitos dos conflitos dessas fronteiras têm a ver com o controle de rotas de tráfico e o contrabando, agravados por disputas étnicas", afirma o analista do Crisis Group.

Há, ainda, mais um fator explosivo: o extremismo, que preocupa países como a Argélia. "O país é um dos que recebeu fluxos de armas contrabandeadas da Líbia e é de onde o braço da Al-Qaeda no Mali é controlado", explica Lawrence.

Tragédia humana

Os conflitos na Líbia e, em seguida, no Mali geraram grandes fluxos de refugiados a países como Níger, Mauritânia e Tunísia, provocando focos de crises humanitárias.

Ao mesmo tempo, há relatos de que milícias do sul da Líbia estariam detendo migrantes e praticando o tráfico de pessoas, aproveitando-se da sensação de "terra sem lei" vigente na região, segundo o especialista.

Para agravar a situação, a região do Sahel vive uma seca aguda, despertando temores de que passe por uma das mais graves crise de fome da atualidade, segundo a ONU.

Com a instabilidade e a insegurança das fronteiras, fica mais difícil para as agências humanitárias levarem ajuda às pessoas mais carentes.

'Falsa estabilidade'

Lawrence ressalta, porém, que todos esses problemas já estavam presentes na região – "mas poucos prestavam atenção neles. O que está acontecendo agora é que as dinâmicas regionais estão mudando".

Para ele, regimes linha-dura como o de Khadafi criavam "uma falsa sensação de estabilidade".

Ele diz ainda que a pacificação da Líbia e do seu entorno virá somente após um caminho árduo: "A solução não passa por voltar à ditadura, mas sim por governos firmes e legítimos no curto prazo, e desenvolvimento no longo prazo."

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