Brasileiro que competiu pela Austrália em Atenas e Pequim defende Itália em Londres

Pietro Figlioli (Foto: Pro Recco) Direito de imagem Pro Recco
Image caption Nascido no Rio, Pietro Figlioli já jogou pela seleção australiana e hoje compete pela italiana

Pietro Bonfiglio, 28 anos, nasceu no Rio de Janeiro e passou a maior parte da sua vida na Austrália, mas agora é uma das estrelas da seleção italiana de polo aquático, campeã mundial deste esporte, que vai tentar buscar a quarta medalha de ouro olímpica em Londres 2012.

Figlioli acredita que a Itália - embora sem a tradição de países como Sérvia, Montenegro ou Croácia - tem boas chances de levar a medalha, justo na cidade onde conquistou seu primeiro ouro, nos Jogos Olímpicos de 1948.

"Nos últimos três anos, sempre chegamos às finais (dos campeonatos) e em 2011 ganhamos o campeonato mundial em Xangai, depois de 17 anos. Agora, queremos chegar no topo", disse o atleta em entrevista à BBC Brasil.

A seleção italiana de polo aquático é conhecida como Settebello, porque a primeira equipe era formada quase toda por napolitanos que nas horas vagas jogavam scopa, um jogo de cartas tradicional em Nápoles, no qual o sete é a carta de maior valor.

A segunda medalha de ouro da Settebello foi na Olimpíada de Roma em 1960 e a terceira, em Barcelona 1992.

Família esportista

Figlioli começou a carreira profissional em 2002 na Austrália, para onde havia se mudado com a família em 1988, aos quatro anos de idade.

Seu pai é o campeão de natação José Sylvio Fiolo, ex-recordista mundial dos 100 metros peito em 1968 pelo Clube Guanabara do Rio de Janeiro.

Fiolo também disputou duas Olimpíadas, na Cidade do México em 1969 e em Munique, em 1972. Ele teve um papel importante na carreira do filho.

"Fiz muita natação porque meu pai era meu treinador na escola, mas também tentei vários outros esportes, desde futebol, críquete, vôlei, até atletismo. Mas adoro estar na água e acabei gostando mais de polo aquático."

Segundo Figlioli, o polo aquático é um esporte difícil e pouco popular devido à falta de divulgação, principalmente fora da Europa. "O mundo gira em torno do futebol, sobretudo aqui na Itália, mas os esportes devem ter a divulgação certa para se tornarem mais seguidos pelo público."

Além disso, opina, "80% do que acontece (no polo aquático) é debaixo d’água. É difícil explicar aos espectadores o que acontece lá embaixo e atrair o público".

Carreira na Itália

Com a seleção australiana, Figlioli participou de duas Olimpíadas, em Atenas em 2004 e em Pequim em 2008. Depois de Atenas passou a jogar com clubes italianos, e se mudou definitivamente para a Itália em 2009, onde sua carreira ganhou consistência e ele passou a competir pela seleção nacional.

Primeiro jogou com o Chiavari e depois com o atual clube, o Pro Recco.

Figlioli mora na cidade de Recco, na costa da região da Liguria, com a mulher italiana e o filho, Lorenzo, de 3 meses. Graças à ascendência italiana, por parte de pai e de mãe, ele conseguiu a cidadania por direito de sangue.

Desde que deixou o Brasil, em 1988, só voltou duas vezes, de férias. Fala português e aproveita para treinar a língua com o colega brasileiro, Felipe Perrone, que também joga no Pro Recco, mas faz parte da seleção espanhola.

"Não tenho ligações com o Brasil, infelizmente. Tenho uma avó, uma tia, um tio e duas primas, mas temos pouca relação, e as passagens são muito caras para irmos com mais frequência", afirma.

Treinamento

Antes de embarcar a Londres, ele passava por um ritmo puxado de trabalho, com sete horas diárias de treino e preparação física.

O primeiro jogo da seleção italiana na Olimpíada de Londres será contra o time da Austrália, mas Figlioli garante que não vai ficar dividido.

"Sinceramente penso pouco na minha nacionalidade. Onde estou com minha família me sinto em casa. Se levo a família ao Brasil, à Austrália, à China, a qualquer lugar, vou me sentir sempre em casa. Agora, nesta fase da minha vida, sou italiano e, no caso da Olimpíada, defendo a bandeira do país."

Na seleção italiana de polo aquático, dos 13 atletas, quatro não são italianos de nascimento. Além de Figlioli, há o húngaro Alex Giorgetti, o croata Deni Fiorentini e o cubano Amaurys Perez. Dos 292 atletas que a Itália vai levar para os Jogos Olímpicos de 2012, 22 nasceram em outros países.

Figlioli parte confiante para Londres. O único plano para o futuro neste momento é participar dos Jogos Olímpicos.

"Minha carreira está no começo. Amo o que faço e gostaria de continuar o máximo de tempo possível. Que sejam cinco, dez ou 15 anos. No polo aquático tem gente que abandona aos 24 anos e tem quem deixe (o esporte) aos 40 ou até 45. Eu poderia até trabalhar como treinador no futuro, mas ainda tenho muito (para fazer) como atleta."

Notícias relacionadas