Embaixador brasileiro na Síria chega ao Líbano em meio a tensão

Pneus são queimados em barricada em Damasco (foto: AP) Direito de imagem AP
Image caption Conflitos ema Damasco fazem diplomatas brasileiros interromperem serviços

O embaixador do Brasil na Síria, Edgard Casciano, e funcionários da Embaixada do Brasil em Damasco deixaram a capital síria na manhã desta sexta-feira rumo a Beirute, capital do Líbano, por via terrestre.

A retirada dos diplomatas ocorreu em meio a uma intensificação dos confrontos entre rebeldes e tropas leais ao governo do presidente Bashar al-Assad.

Por telefone, um diplomata contou que a estrada de Damasco até a fronteira estava razoavelmente segura nas primeiras horas da manhã.

"Não vimos movimentação de militares nem rebeldes. Chegamos à fronteira em segurança", disse. No momento que falava com a BBC Brasil, o diplomata, que pediu para não ter seu nome revelado, disse que o grupo já estava em território libanês.

Segundo ele, o posto de fronteira da Síria com o Líbano que o comboio cruzou estava sob controle de forças do governo e repleto de sírios querendo deixar o país.

"Vi muitos cidadãos estrangeiros, inclusive diplomatas de outras embaixadas saindo da Síria para Líbano", contou.

Casciano contou por telefone à BBC Brasil que a violência na capital síria havia se intensificado e que funcionários da Embaixada brasileira haviam sido orientados a não ir trabalhar na quinta-feira.

Ele disse que, a partir de quarta-feira, a capital passou a viver seus dias mais violentos desde o início da crise, há mais de um ano, com intensos tiroteios que deixaram as ruas completamente desertas.

"O perigo é real. É impossível pôr os pés na rua. É uma situação extremamente problemática", disse o embaixador.

Ele contou que os tiroteios e explosões eram tão intensos na noite de quarta-feira que não conseguiu dormir.

"Helicópteros sobrevoavam constantemente e dava para ouvir muitas explosões que, pela intensidade, eram consequência de armas pesadas".

'AK-47'

Há quatro anos em Damasco, Casciano disse que a situação na capital é muito tensa e já não há garantias de segurança para as embaixadas estrangeiras no bairro.

"Até cogitamos que o governo brasileiro enviasse agentes de segurança para proteger a Embaixada. Mas com o aeroporto fechado, a ideia foi deixada de lado".

O embaixador também falou que os combates respingaram em seu bairro na capital, com balas perdidas atingindo a vizinhança e até a sua casa.

"Uns dias atrás, eu achei balas de rifles AK-47 em meu jardim. Ninguém está seguro na cidade", afirmou.

A ofensiva do Exército Livre da Síria (ELS) contra tropas leais ao governo em Damasco começou no domingo e já entrou em seu sexto dia. Vários bairros nos subúrbios ao sul da capital já foram tomados por rebeldes.

Na quarta-feira, um atentado suicida matou o ministro de Defesa, seu vice e o cunhado do presidente Bashar al-Assad. O paradeiro do líder sírio ainda é desconhecido, já que ele não fez nenhuma aparição pública desde o atentado ao quartel-general das forças de segurança do país.

O governo vem mobilizando mais tanques e tropas em direção à capital e, segundo analistas, antecede uma grande batalha pela cidade.

De acordo com a ONU, mais de 16 mil pessoas já morreram no país desde o início da revolta, há mais de um ano, que exige a renúncia do presidente Bashar al-Assad.

Brasileiros

Casciano disse ser difícil prever atualmente o número de brasileiros no país, pois vários deles já deixaram a Síria sem informar a representação em Damasco.

"Quase todos têm também a nacionalidade síria e não expressavam o desejo de sair do país. Mas com o agravamento da situação, vários saíram da Síria sem avisar. Alguns foram para Beirute [capital do Líbano], outros voltaram ao Brasil", afirmou.

Segundo ele, a maioria dos brasileiros registrados são da região de Damasco, mas há uma comunidade na região de Latakia e Tartous, na costa da Síria, reduto de alauítas (grupo muçulmano sunita ao qual pertence Assad) e cristãos.

"Naquela região da costa, a situação é bem menos tensa, com poucos combates entre rebeldes e governo. Então não fomos contatados ainda por brasileiros".

Em contrapartida, o setor consular da embaixada vinha registrando um grande aumento no pedido de visto de turista por parte de cidadãos sírios.

"Muitos têm parentes no Brasil e desejam sair do país momentaneamente".

Segundo o embaixador, o atual clima seria de "guerra aberta" na Síria. "A guerra em Damasco os deixou extremamente apavorados", afirmou.

Embaixada

Na sexta-feira, o governo brasileiro disse nesta sexta-feira que a embaixada brasileira em Damasco segue como ponto de contato na Síria apesar da transferência dos funcionários do Itamaraty para Beirute, no vizinho Líbano.

A medida foi tomada por causa da deterioração da segurança na capital síria.

A chancelaria brasileira disse que "a medida não implica o fechamento da representação brasileira em Damasco, que continuará a prestar apoio aos cidadãos brasileiros na Síria".

A nota diz que um funcionário seguirá prestando atendimento.

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