Governo 'perde ousadia' e 'retrocede' nas campanhas anti-HIV, dizem ativistas

Atualizado em  25 de julho, 2012 - 06:01 (Brasília) 09:01 GMT
Imagem de campanha de prevenção da Aids posteriormente substituída (Reprodução)

Campanha elaborada pelo Ministério da Saúde para o Carnaval deste ano acabou sendo substituída

A decisão recente do governo federal de retirar de circulação duas campanhas contra o HIV é um "retrocesso" que prejudica as estratégias de prevenção da Aids no Brasil, consideram ativistas.

Entre os problemas que o programa nacional de Aids vem apresentando, de acordo com especialistas do setor, está a "perda de ousadia" na elaboração de campanhas para conscientizar populações mais vulneráveis ao contágio do HIV.

Apesar de o Brasil ter se destacado como pioneiro na elaboração de políticas públicas para tratar e conter o avanço da Aids, três episódios recentes marcaram uma posição mais conservadora do governo.

O caso mais recente foi uma campanha elaborada pelo Ministério da Saúde para o carnaval deste ano. O vídeo mostrava dois rapazes jovens engatando uma conversa em um bar. Antes que se beijassem, aparecia uma fada oferecendo uma camisinha, alertando para que os jovens usassem o preservativo.

A campanha foi lançada com uma festa na Rocinha, no Rio, mas de última hora foi substituída por uma propaganda mostrando estatísticas sobre índices de infecção do HIV e de mortalidade da Aids.

Para Veriano Terto Júnior, coordenador-geral da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (Abia), a mudança veio por pressão de grupos evangélicos e representou uma "censura do governo sobre si mesmo".

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"Isso foi vexame do governo. É uma agressão aos direitos de jovens receberem uma mensagem educativa", diz. "Há uma perda do governo da sua ousadia, da sua liderança na condução de campanhas ousadas que consigam alcançar as populações mais atingidas e vulneráveis."

Redefinição

Eduardo Barbosa, diretor-adjunto do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, afirma que não houve veto às campanhas.

"O que houve foi uma redefinição da política de comunicação do Ministério da Saúde, que optou por trabalhar com determinadas peças e mídias direcionadas a determinados públicos", afirma.

De acordo com Barbosa, havia o desejo de elaborar campanhas que pudessem ser mais permanentes, usadas não apenas no carnaval como também ao longo do ano.

Para Terto, porém, a nova campanha tinha pouco apelo para jovens homossexuais, público-alvo da ação. Eles fazem parte do grupo mais vulnerável ao contágio pelo HIV, ao lado de profissionais do sexo e usuários de drogas.

Pedro Chequer, coordenador no Brasil do programa da ONU contra a Aids, afirma que o cancelamento das campanhas acionou um "alerta vermelho" por já ter como precedente a retirada de circulação de uma campanha anti-homofobia que circularia nas escolas.

Em maio do ano passado, a presidente Dilma Rousseff determinou a suspensão do chamado "kit anti-homofobia" após protestos das bancadas religiosas no Congresso. O material, elaborado pelo Ministério da Educação, havia sido validado pela Unesco e pelo Unaids.

Para Chequer, tais decisões representam "um retrocesso inaceitável do ponto de vista do controle da Aids". E contrariam a tradição brasileira no combate à doença até agora, com campanhas diretas, focadas em disseminar a mensagem correta e com embasamento científico.

"Eu entendo (esses episódios) como equívocos no percurso, considerando-se o compromisso que o governo tem com os direitos humanos e com o enfrentamento da Aids. A expectativa que temos é de que essas influências nefastas e retrógradas deixem de ter voz e que se volte a ter o embasamento científico como referência nesta área", afirma.

Eduardo Barbosa afirma que o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais vem desenvolvendo campanhas específicas para grupos de risco como a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), e que o objetivo agora é ter um maior enfoque local, com participação dos Estados.

"Na nossa nova concepção, hoje quem deve construir essas campanhas, com nosso incentivo e financiamento, são os Estados. Temos uma grande diversidade no Brasil. Falar com a população de gays em Porto Alegre, por exemplo, é diferente de falar com a comunidade gay no Rio Grande do Norte."

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