Brasileira relata plano de fugir de cidade síria sob fogo cruzado

Karla Dishoian | Foto: Arquivo Pessoal Direito de imagem Arquivo Pessoal
Image caption Brasileira relata clima de tensão e diz se preparar para fugir da Síria e possivelmente retornar ao país

As noites não têm sido fáceis para Karla Gadaian Dishoian. Moradora de Aleppo, a brasileira de 37 anos conta que não consegue dormir com o barulho dos tiros e das explosões que sacodem a segunda maior cidade da Síria, um dos principais palcos do enfrentamento entre o regime de Bashar al-Assad e as forças opositoras nos últimos dias. Ela conta que já se prepara para fugir para o Líbano, de onde pretende voltar ao Brasil.

Em entrevista por telefone à BBC Brasil a partir de sua casa no bairro armênio cristão de Villat, "não muito distante dos combates na cidade", Karla relata um clima de insegurança nas ruas, muitas delas controladas agora pelo Exército Livre Sírio (ELS), formado por opositores do regime.

"Desde a noite de ontem mal conseguimos dormir. Há muitos tiroteios e explosões em bairros próximos ao nosso", conta a brasileira.

A situação na cidade é alarmante devido ao aumento dos confrontos desde o último fim de semana. Em resposta à ofensiva dos rebeldes, o regime de Assad deu início nesta terça-feira a ataques aéreos contra alguns bairros da cidade, com caças e helicópteros de guerra, segundo relato do repórter da BBC Ian Pannel, que está em Aleppo.

Karla, que é natural de São Paulo, é casada com um sírio e mora há 20 anos no país, junto com as duas filhas, de 14 e 16 anos. Segundo ela, com a situação na cidade se deteriorando cada vez mais, a família já planeja deixar a Síria em breve.

"Vários amigos fugiram para a Turquia e Armênia. Nós planejamos fugir para o Líbano e de lá, talvez para o Brasil", revelou.

Segundo ela, os passaportes brasileiros dela e das filhas precisam ser renovados para que possa viajar.

Como a embaixada e o consulado do Brasil em Damasco estão sob a tutela apenas de um funcionário em caráter emergencial, ela renovará os documentos em Beirute, capital libanesa.

Os diplomatas brasileiros foram retirados da capital da Síria na semana passada em meio à escalada da guerra civil na cidade.

A jornada para sair de Aleppo e chegar ao Líbano levará a família pela região de Latakia, na costa oeste da Síria, região de grande concentração de cristãos e alauítas (grupo sectário ao qual pertence Assad).

Latakia e seus arredores ainda é controlada pelas tropas leais ao governo, mas também viu confrontos entre rebeldes e forças de segurança sírias.

"Vamos esperar a oportunidade certa e sairmos daqui. A tendência é de que a situação fique cada vez pior. Não queremos arriscar de ficarmos presos aqui".

Emergência em Aleppo

Karla indica que a violência dos combates é tão intensa que a cidade está paralisada e poucas pessoas se aventuram nas ruas.

A apreensão já passou a afetar também o comércio, e seu marido sírio decidiu não abrir sua loja em um bairro próximo.

"Meu marido se mostrou muito preocupado e decidiu não abrir. Outros comerciantes da área também optaram por não abrir. Alguns, inclusive, já deixaram a cidade".

Ela falou que serviços de telefonia fixa e celular, internet e eletricidade funcionam normalmente.

"Em nosso bairro e outros ainda dá para comprar comida e água. Mas em outros locais já faltam produtos", disse.

O clima de tensão na região aumentou após os rebeldes expandirem sua presença no país, intensificarem os confrontos em torno da capital e tomarem postos de fronteira com a Turquia e o Iraque.

"Ainda na semanada passada, pessoas falaram para nós que o Jeish el-Hor (Exército Livre, em árabe) estava vindo apra Aleppo. Alguns ficaram desesperados e fugiram antes dos combates iniciarem", contou a brasileira.

Roubos

Aleppo é também o centro comercial e industrial do país, considerada importante para o governo do presidente Assad. Desde o início dos protestos pela queda do líder, em março do ano passado, a cidade vinha se mantendo, de forma geral, relativamente neutra, sem muitas manifestações.

Mas desde a última sexta-feira, dia 20, os rebeldes do ELS iniciaram uma operação para tomar vários bairros locais.

Segundo Karla, delegacias de polícia foram abandonadas, ou por deserção dos policiais ou porque rebeldes tomaram a área e alguns oficiais, ainda leais ao governo, fugiram.

"Com isso, escutei relatos de vizinhos e pessoas de outros bairros que tiveram suas lojas saqueadas por falta de policiamento. Ficamos todos muitos assustados, porque não nos sentimos seguros. Além da guerra, há o medo de gangues e bandidos".

Segundo ativistas sírios, há uma imensa onda de refugiados se deslocando para áreas mais seguras da cidade, vivendo em "condições desfavoráveis e pobreza".

Franco-atiradores do governo, de acordo com os ativistas, estariam alvejando civis pegos no fogo cruzado em Aleppo. Combates também estariam ocorrendo próximo ao prédio da emissora estatal, em uma tentativa dos rebeldes de tomarem controle da transmissão de rádio e televisão.

Agências humanitárias calculam que cerca de 1,5 milhões de sírios já foram deslocados de suas casas em função do conflito.

Países vizinhos – Turquia, Iraque, Jordânia e Líbano – vêm recebendo um grande número de refugiados. Segundo a ONU, o número já chega a um total de 120 mil sírios nestes países.

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