Exposição mostra próteses de membros transformadas em objetos de arte

Atualizado em  14 de agosto, 2012 - 06:06 (Brasília) 09:06 GMT
Priscilla Sutton  (Foto: Martine Cotton)

Priscilla Sutton teve ideia de promover mostra ao limpar armário onde guardava próteses antigas

Uma exposição de membros artificiais transformados em obras de arte será inaugurada em Londres no final do mês para coincidir com as Paraolimpíadas.

A curadora do evento, intitulado "Spare Parts" (em tradução livre, Peças de Reserva) é a australiana Priscilla Sutton, que teve uma perna amputada em 2005.

Sutton disse à BBC que teve a ideia quando limpava um armário onde estavam guardadas duas próteses de perna antigas.

"Puxei duas pernas velhas do armário e percebi que não podia continuar acumulando membros por razões sentimentais".

"Eles são uma parte do seu corpo, então você não gosta de jogá-los fora. E existem regras sobre como descartar próteses usadas", disse a curadora, que é de Queensland, na Austrália. "Você não pode simplesmente colocá-las na lata de lixo".

Sutton contou que decidiu então pedir a amigos artistas que transformassem suas antigas próteses em obras de arte para que ela pudesse pendurá-las na parede.

"Eu me dei conta da quantidade de membros que deveriam estar guardados em armários e galpões no país e pelo mundo. Então comecei a perguntar e a ideia foi crescendo, até se transformar nessa exposição".

Dezenas de artistas participaram da primeira exposição "Spare Parts", que aconteceu em Brisbane, na Austrália, em 2010.

Os participantes receberam próteses usadas e foram convidados a pensar nelas como se fossem telas em branco.

Sutton disse que ficou maravilhada com o sucesso do evento, que recebeu milhares de visitantes. Entre eles estavam amantes das artes, pessoas portadoras de deficiências e crianças em idade escolar.

"Pela primeira vez, as crianças não ouviram os habituais comandos 'Não fique olhando, não toque, não pergunte'", ela comentou.

Agora, uma nova leva de próteses foi doada para a segunda exposição "Spare Parts", que acontece em uma galeria no East End londrino. Das 43 peças expostas, apenas cinco fizeram parte do primeiro evento em Brisbane.

Rompendo Tabus

À procura de próteses e artistas para a exposição londrina, Sutton contactou o Serviço Nacional de Saúde britânico e o Arts Council, órgão que fomenta e financia projetos artísticos na Grã-Bretanha.

Trabalhos de artistas que participam da mostra 'Spare Parts'

Artistas receberam próteses usadas e foram convidados a pensar nelas como se fossem telas

"Várias pessoas me procuram dizendo 'Ouvi dizer que você quer uma perna'", ela disse, rindo.

Talvez uma das primeiras questões que a exposição instigue diga respeito ao processo criativo: quão inspiradora, ou não, seria uma prótese de órgão para o trabalho do artista?

"(A prótese) não é uma tela quadrada. Ela pode ser macia, mole, ou dura como titânio", explicou Sutton.

"Para alguns artistas, foi um grande desafio encontrar novas formas de criar. De vez em quando, um deles me devolve um membro dizendo 'Não quero ver isso nunca mais'."

Em novembro de 2005, em virtude de uma doença óssea, Sutton teve uma das pernas amputada logo abaixo do joelho. Ela tinha 26 anos.

No início de 2012, em um artigo para o site australiano ABC, ela citou as perguntas mais comuns - e mais íntimas - que ouviu desde que teve a perna amputada.

Por exemplo, muitos querem saber o que foi feito com a perna após a cirurgia. "Algumas pessoas parecem pensar que quando você sai do hospital, leva a perna para casa, dentro de um vidro".

"Você não leva. Mas no meu caso, eu tive minha perna cremada".

"Quando telefonei para a funerária para saber o preço, foi engraçado. Eles acharam que era um trote. Só para registro, o preço foi o mesmo (que eu teria pago para cremar) um gato e (a cremação) me ajudou a encerrar o episódio. Minha perna e eu tivemos uma grande vida juntas, então era importante para mim saber onde ela tinha ido parar".

Sutton contou que alguns dos artistas envolvidos na exposição londrina usaram próteses de braços ou mãos para desenhar ou pintar suas peças.

"Com frequência, não damos valor ao que temos na vida. Quando eu estava aprendendo a andar de muletas, o simples processo de levar a roupa limpa para pendurar se tornou realmente difícil. Foi interessante ver os artistas passando por essa experiência também".

Entre os artistas que participam da exposição estão Andrew Logan, Beastman, Dan Hillier, Elisa Jane Carmichael e os tatuadores Henry Hate e Louis Molloy, conhecidos por seus trabalhos para Amy Winehouse e David Beckham, respectivamente.

Priscilla Sutton e sua adornada com obra do surrealista pop americano Mark Ryden (Foto: Martine Cotton)

Para sair, Priscilla usa prótese adornada com obra do surrealista pop americano Mark Ryden

Priscilla Sutton usa duas próteses de perna. Uma para praticar esportes, decorada com um tecido japonês em cores vivas, e uma que ela descreve como sua "perna de sair", adornada com uma obra do surrealista pop americano Mark Ryden.

"Ela é o máximo", disse Sutton, referindo-se à perna "de sair". "Ela chama muita atenção aqui em Londres. É arte 'para vestir', então, quando ficar obsoleta, vou pendurá-la na parede ao lado das minhas outras (obras) de Mark Rydens".

Sutton disse esperar que a exposição "Spare Parts" ajude a criar um diálogo aberto e positivo sobre o tema das próteses artificiais. "Eu não acho que isso deva ser um tabu."

Modelos Positivos

A curadora disse que pessoas como o atleta sul-africano Oscar Pistorius, que competiu na final da prova masculina de revezamento 4 x 400 nas Olimpíadas de Londres, também estão passando mensagens positivas sobre pessoas com próteses de membros.

Pistorius teve as duas pernas amputadas abaixo do joelho quando tinha menos de um ano de idade. Ele é conhecido como Blade Runner, por correr sobre duas lâminas feitas com fibra de carbono. Na semana passada, tornou-se o primeiro atleta com dupla amputação a competir em Olimpíadas.

"Ele é uma grande inspiração. Como amputada, sinto tanto orgulho de Oscar Pistorius, das duas conquistas e de sua atitude. No que diz respeito a ele, não se trata de ser diferente. Trata-se de estar preparado fisicamente, de ser saudável e de atingir objetivos".

"Foi um momento histórico. Ninguém queria saber de que país ele vinha, (o público) estava torcendo por ele", diz.

Uma perna do mesmo tipo da que é usada por Pistorius foi doada pelo fabricante - Ossur - à exposição "Spare Parts".

Embora o evento não esteja incluído na programação oficial das Paraolimpíadas, Sutton disse que esse é o momento certo para trazer a exposição para a Grã-Bretanha.

"Spare Parts" estará aberta de 25 de agosto a 9 de setembro na galeria The Rag Factory, na Brick Lane, Londres.

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