Emoção marca encontro de suecos e brasileiros veteranos da Copa de 58

Atualizado em  14 de agosto, 2012 - 09:23 (Brasília) 12:23 GMT
Foto: Claudia Varejão Wallin

Veteranos da final se encontraram 54 anos após partida

Abraços, sorrisos e lembranças marcaram o reencontro emocionado de jogadores suecos e brasileiros, 54 anos depois da conquista do primeiro título mundial da seleção brasileira na Suécia.

A entrada dos jogadores brasileiros no estádio foi recebida, em tom de brincadeira, com uma sonora vaia de Agne Simonsson – o jogador que foi o autor do segundo gol sueco na final contra o Brasil. Aos risos, ele foi o primeiro a ser abraçado por Pelé.

"Sou um homem de três corações, mas é uma emoção grande estar aqui", disse Pelé numa referência à sua cidade natal de Três Corações (MG) ao voltar ao gramado de Råsunda junto a 11 finalistas da Copa de 1958 na Suécia.

"O Brasil começou aqui. Råsunda e a Suécia representam tudo para mim. A minha vida começou aqui. Agora, temos a grande responsabilidade de ganhar a nossa sexta Copa do Mundo", observou.

"Garrincha está lá no céu, olhando para nós aqui", acrescentou.

Time da Suécia da final de 58 (Wikimedia Commons)

O segundo lugar em 58 foi a melhor colocação sueca em uma Copa

Entre os quatro campeões brasileiros da geração 58 presentes, o reencontro uniu Pelé (71 anos), Mazzola (74), Pepe (77) e Zito, 80 anos. Os finalistas suecos eram oito senhores de cabelos brancos: Kurt Hamrin (77 anos), Agne Simonsson (77), Reino Börjesson (83), Sigge Parling (82), Bengt Gustavsson (84), Åke Johansson (84), Bengt Berndtsson (79) e o reserva Owe Ohlsson (74).

Hoje preso a uma cadeira de rodas, Agne Simonsson foi vítima de um derrame cerebral há três anos e fala com dificuldade. Mas ainda se lembra do gol:

"Sim, sim", exclamou, entusiasmado, tentando expressar com gestos o que não conseguia dizer com palavras à BBC Brasil.

Emoções e reis

Debilitados pela idade, dois outros jogadores suecos entraram no estádio apoiados por bengalas - Åke Johansson e o ex-zagueiro Sigge Parling, que ainda se recorda da sensação que teve diante do mito Pelé:

"Quando Pelé marcou o quinto gol do Brasil, eu não queria mais marcá-lo. Só tinha vontade de aplaudi-lo", disse Åke.

Kurt Hamrin (Wikimedia Commons)

Para Hamrin, Pelé ainda não era o maior do Brasil em 58

Por outro lado, outro atacante sueco da final de 58, Kurt Hamrin, revelou não ter ficado tão impressionado assim com o camisa 10 brasileiro.

"Didi era o melhor. Primeiro, Didi. Em segundo lugar, Nilton Santos. Em terceiro, Bellini. Pelé era muito jovem e percebemos que iria se transformar em um grande jogador, mas na Copa de 58 ele não era o melhor. Depois, Pelé se transformou em um lendário jogador, e na minha opinião ele é a pessoa que mais fez pelo futebol na condição de embaixador do esporte", disse Hamrin, que hoje vive em Florença, na Itália – onde chegou a jogar em cinco clubes, incluindo Juventus, Fiorentina e A.C. Milan.

Já para o "rei do futebol", Pelé, a lembrança mais marcante daquele dia da final foi o encontro com o rei sueco, Carl Gustaf XVI:

"O que mais me impressionou foi que o rei desceu ao gramado para apertar a minha mão. Foi a primeira vez que um rei me cumprimentou", disse Pelé, que assim como Garrincha tinha começado a Copa de 1958 no banco dos reservas e terminado, aos prantos, como ídolo.

"O nome Råsunda nunca vai morrer no Brasil", proclamou o rei do futebol.

Ao entrar no gramado nesta terça-feira, Zito se surpreendeu:

"O estádio parece que foi feito de novo. Está novíssimo", disse ele, que divide com Pelé um dos momentos mais marcantes do dia da final de 58: "Foi quando o rei me abraçou".

Friends Arena

De Råsunda, os jogadores foram levados para conhecer a Friends Arena, o novo estádio que substituirá o antigo campo de 58.

"O novo estádio é fantástico. Pena que estou velho demais para jogar em uma catedral do futebol como essa", disse o ex-atacante Kurt Hamrin à BBC Brasil.

Representação artística (divulgação)

O novo estádio Friends Arena substituirá o lendário Råsunda

Em 1958, a final da Copa terminou com a torcida sueca aplaudindo a seleção brasileira, num Råsunda lotado por 50 mil pessoas.

Em torno do estádio nesta terça-feira, bandeirinhas comemorativas decoram as ruas com os dizeres "Suécia e Brasil, último duelo da seleção no Estádio Råsunda". Nesta quarta-feira, Brasil e Suécia se enfrentam em Råsunda numa espécie de reprise da final de 58, antes de o estádio ser demolido no ano que vem.

Segundo a Federação Sueca de futebol, praticamente todos os 33 mil ingressos para o amistoso já foram vendidos.

Único sobrevivente do Comitê Organizador da Copa daquele ano, , Bengt Ågren de 82 anos, relembrou o dia da final.

"Eram seis horas da manhã quando me ligaram do (estádio de) Råsunda, e avisaram: está chovendo. Havia dois centímetros de chuva no gramado, tudo estava molhado. Falei um palavrão naquela hora. Havíamos tido 22 dias de sol, e justamente naquele dia, na final contra o Brasil, chovia. Mandamos gente às pressas para retirar a água. Mas quando a partida começou, a chuva tinha parado", diz

Ele conta que os suecos torciam por um milagre:

"Já era quase inacreditável termos chegado à final da Copa. Então, todos esperavam que um milagre pudesse acontecer: a Suécia vencer o Brasil."

Bengt lembra que o comitê sueco da Copa chegou a vaticinar a vitória brasileira, antes de a Suécia ter se classificado para a final:

"Eu e o restante do comitê sueco assistimos à semifinal entre Brasil e França (com placar de 5 a 2 para o Brasil), que em minha opinião foi a melhor partida de todas. No final, nós todos dissemos: os brasileiros vão vencer a Copa", conta Bengt.

Naquele momento, segundo ele, a seleção sueca disputava a semifinal contra a Alemanha em Gotemburgo, que garantiria a vaga na final contra o Brasil.

No dia da final em Råsunda, alguns jogadores estavam nervosos, lembra Bengt:

"Já outros, que haviam conquistado o terceiro lugar na Copa de 1950 no Brasil, eram mais experientes, estavam mais confiantes. Para o povo da Suécia, já tinha sido uma façanha ver a nossa seleção chegar à final. Mas havia esperança, entre todos nós."

Entre as tantas memórias daquele dia de 58, uma das que mais marcou tanto Kurt Hamrin como Bengt Åre foi a euforia brasileira:

"A imensa felicidade dos jogadores do Brasil, correndo em volta do estádio com uma enorme bandeira sueca, é inesquecível. Depois disso, Råsunda virou um lugar sagrado para o Brasil", disse Bengt Åre.

"Me entristece saber que Råsunda será demolido. Mas entendo que é necessário ter uma nova arena", pondera.

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