Plano do BCE pode salvar o euro, mas não deve eliminar crise

Atualizado em  7 de setembro, 2012 - 08:31 (Brasília) 11:31 GMT
Fachada do Banco Central Europeu

Novo esquema anunciado pelo Banco Central Europeu animou os mercados financeiros

O ex-secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger afirmou uma vez: "Se eu quiser falar com a Europa, para que número eu ligo?". Nos últimos três anos, os mercados financeiros globais vêm fazendo uma pergunta parecida: "Se eu quiser destruir o euro, quem vai me impedir?".

Analisando a carnificina nos mercados financeiros europeus, os investidores queriam saber quem, ou o quê, estaria em última instância protegendo a moeda comum europeia. Quando a pressão aumentasse, quem estaria lá, com recursos amplos, para manter a coisa de pé.

Os governos tentaram e falharam em assumir esse papel, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) vinha tentando de todas as maneiras evitar isso. Mas na quinta-feira, de forma importante, a instituição mudou de posição.

O anúncio do BCE de que comprará títulos dos países da região com dificuldades em rolar suas dívidas foi bem recebido pelos mercados e provocou fortes altas nos mercados de ações em todo o mundo.

Anos terríveis

Claro que o apoio descrito pelo presidente do BCE, o italiano Mario Draghi, virá com condições. Claro que veio tarde. E claro que o presidente do Banco Central da Alemanha tem um bom argumento ao sugerir que o BCE está colocando sua independência em risco com sua promessa "ilimitada" e criando potencialmente problemas para o futuro resgate de governos.

Mas seja o que as pessoas pensem do plano do BCE, e independentemente do quanto lamentem que a instituição não tenha sugerido um nome melhor ao esquema (chamado de "transações monetárias diretas"), ele dá a melhor resposta à pergunta citada no início do texto. Efetivamente, o BCE diz que se os governos fizerem as coisas certas, o Banco Central fará sua parte para salvar o euro.

Mario Dragi, presidente do Banco Central Europeu

BCE, presidido por Mario Draghi, assumirá papel de principal garantidor do euro

Mas em parte por conta de ter vindo tão tarde, a ação do BCE não evitará que países como a Espanha ainda enfrentem alguns anos terríveis pela frente.

Em um blog, a revista The Economist afirmou que o BCE agiu em tempo para salvar o euro, mas "ainda precisaremos ver se agiu em tempo de salvar a economia europeia".

Com seus usuais receios internos sobre o esquema, o BCE precisa também ter cuidado em sua implementação para conseguir realmente salvar a moeda comum.

Mas pela primeira vez desde o início da crise, a zona do euro - ao menos no papel - tem o que os americanos chamariam de apólice de seguro contra catástrofe.

Proteção

O BCE não impedirá que Espanha, Portugal ou Itália sejam discriminados pelos mercados - obrigados a pagar taxas de juros para empréstimos maiores do que a Alemanha, por exemplo. Mas se a Espanha e os outros forem capazes de manter suas populações ao seu lado para adotar as medidas necessárias para que permaneçam no euro, o BCE diz que não permitirá que eles sejam forçados a sair.

Isso é o que Draghi quis dizer quando falou sobre o novo esquema como uma proteção contra os riscos que ainda pairam sobre o sistema do euro, como os cenários extremos, nos quais a moeda entraria em colapso.

O novo esquema do BCE tem uma chance de assumir esse papel, porque ao contrário dos mecanismos de resgate como o Mecanismo de Estabilidade Europeu, as compras não são limitadas de antemão.

E porque, ao contrário do programa anterior de compra de títulos pelo BCE, os títulos que o Banco Central comprar agora não terão um tratamento especial no caso de renegociação das dívidas, como o que aconteceu na Grécia (quando os investidores tiveram que aceitar um grande desconto no valor dos títulos).

Se o BCE tivesse feito isso há um ano, provavelmente não estaríamos onde estamos hoje. O atraso tornou mais difícil o sucesso de qualquer plano. E certamente elevou os custos da crise para a economia real.

Governos soberanos ainda podem complicar as coisas. Eles já fizeram isso no passado. Mas se alguém quiser destruir o euro, ao menos o segundo Banco Central mais importante do mundo diz agora que estará lá para impedir que isso aconteça.

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