Lucas Mendes: Brasileiros em ação e contradição

Atualizado em  13 de setembro, 2012 - 07:28 (Brasília) 10:28 GMT

Fazendo as malas é um bom livro com um péssimo título. Gerúndio? Por favor...

São dezoito depoimentos de brasileiros brilhantes que vivem fora do Brasil, mas têm conexões fortes com suas raízes e acham que, de fora, podem contribuir para a arrancada brasileira no século 21.

Um dos organizadores do livro, Sidney Nakahodo, "nascido e criado no interior de São Paulo, estudou engenharia na USP e se especializou em economia e política internacional em ambos os lados do Atlântico", como está no livro.

Sidney vê o Brasil diante de uma nova encruzilhada de contradições como no fim do século 19, quando estávamos nas portas da modernidade e caímos na Gerra de Canudos, o maior conflito civil da história do país, com 25 mil mortos.

"Somos a sexta economia mundial e apresentamos uma das piores distribuições de renda; desenvolvemos tecnologia para explorar petróleo em profundezas recordes e ostentamos baixos níveis de escolaridade; nos orgulhamos da fama universal de simpatia e bom humor, mas amargamos índices intoleráveis de violência" é um dos melhores resumos do Sidney sobre o Brasil.

Outro depoimento fascinante é de Paulo da Silva, de Bebedouro, São Paulo, a ex-capital brasileira da laranja. Na escola, para os colegas, Paulo era macaco, tiziu, beiçola, filhote de urubu. Se refugiou nos livros e, graças a eles, se tornou o melhor aluno da escola e o favorito dos professores.

Bem informado, nunca mais ficou para trás nem enrustido. Fez mestrado e doutorado na Columbia, vive em Nova York onde é especialista em políticas públicas na educação e tenta decifrar as conexões de raça e classe nas universidades brasileiras.

Outro educador que ainda jovem já tem pinta de ministro da educação é o gênio Paulo Blikstein, que tive o prazer de conhecer quando participou do nosso programa Manhattan Connection. Infelizmente acho que suas ideias revolucionárias seriam rapida e brutalmente rejeitadas pelos educadores brasileiros.

Ele é contra prova, livro didático, nota ou currículo pré-determinado, como era na escola Madalena Freire, filha do educador Paulo Freire, em que o paulistano Paulo se sentiu iluminado e salvo da chatice das salas de aula. Apesar da chatice, fez engenharia e saiu doutor em educação da USP.

Nos Estados Unidos, foi para uma escola menos convencional, o Midia Lab do Massachussets Institute of Technology (MIT), e fez doutorado na convencional Northwestern University.

Disputado pelas melhores universidades americanas, foi parar em Stanford, onde pesquisa e cria novas tecnologias para educação. Fundou e dirige o Centro Lemann para o Empreendedorismo e Inovação na Educação Brasileira.

Também conheci no programa a jovem cineasta carioca, judia e libanesa Julia Bacha. Ela começou com o documentário Control Room, uma visão independente e crítica da cobertura da guerra no Iraque em 2003.

Depois fez Encounter Point e, meu favorito, o premiado Budrus, sobre a resistência pacífica de palestinos liderados por uma mulher contra a construção de uma estrada israelense que destruiria parte do vilarejo e a fonte de renda dos moradores.

Budrus, nome do vilarejo, foi um dos quinze filmes premiados no importante festival de Sundance criado por Robert Redford. Esta é uma opção que Julia vê para o cinema brasileiro, muito dependente do Estado com a lei Rouanet. Uma fundação ou instituto, como o Sundance, arrecadaria contribuições de ricos e de empresas e distribuiria para diretores independentes e financiaria projetos mais arriscados.

Meu colega jornalista Gustavo Chacra é um modelo do repórter moderno, um antieu. Ele bloga, tuíta, entrevista, faz reportagem, salta do computador para a Globonews.

Homem multimídia, descendente de libaneses, esta à vontade em Nova York e no Oriente Médio. Também com mestrado da Columbia, tem um depoimento interessante sobre a conexão com o Brasil: "aprendemos que a saudade se torna tão rotineira que penetra na nossa personalidade. Vivemos em um passado. A São Paulo de nós que moramos fora se congelou no dia em que demos adeus a quem gostamos, no aeroporto de Cumbica. Voltamos para visitar..."

Não há espaço para os outros 14 depoimentos do livro, mas há uma extraordinária coincidência de livros sobre a "encruzilhada brasileira com a modernidade" e com brasileiros que saíram do Brasil para estudar.

Em 1873, duas décadas antes da Guerra de Canudos, o primeiro grupo de brasileiros veio estudar na recém-fundada universidade de Cornell, em Ithaca, Nova York. Eram 21 filhos de fazendeiros ricos, quase todos cafeeiros paulistas, a maioria estudantes de engenharia.

Outro brasileiro, o professor Marcus Vinicius de Freitas, professor de teoria da literatura da UFMG, descobriu esta turma quando fazia o doutorado dele na Universidade Brown, em Rhode Island. Marcus Freitas voltou para o Brasil e acaba de lançar um livro sobre o jornal Aurora Brasileira, publicado pelos estudantes brasileiros.

O título do livro é Contradições da Modernidade. Há 140 anos, nossos estudantes brilhantes publicavam textos e ensaios sobre os conflitos de interesse entre a cidade e o campo, a indústria e a lavoura, a escravidão, educação feminina (não havia nenhuma mulher entre eles), ensino tecnológico, centralização do ensino superior no Rio de Janeiro e ensino particular na agricultura.

Discutiam também democracia vs monarquia e isto não está mais no nosso debate, nem escravidão, mas racismo e outras contradições nossas do século 19 estão vivíssimas no seculo 21.

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