Laços com presidente e obra durante a guerra marcam atuação da Odebrecht em Angola

Atualizado em  18 de setembro, 2012 - 06:27 (Brasília) 09:27 GMT
Propaganda eleitoral do presidente angolano sobre tapume da Odebrecht (Foto: João Fellet/BBC Brasil)

Odebrecht tem acesso ao presidente José Eduardo dos Santos desde início de operações em Angola

Desde o início de suas operações em Angola, em 1984, a Odebrecht conta com o apoio financeiro do governo brasileiro e tem acesso ao presidente José Eduardo dos Santos.

Encontros entre o presidente e a família Odebrecht, que controla a empresa, são registrados anualmente pela imprensa angolana. Não raro, as reuniões tornam-se manchete do Jornal de Angola, diário estatal.

Em 2011, no mesmo dia em que recebeu em Luanda o presidente da empresa, Emílio Odebrecht, o mandatário angolano encontrou-se com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em sua viagem, Lula visitou uma obra da Odebrecht e discursou para parlamentares e estudantes.

Foi a terceira ida de Lula a Angola nos últimos cinco anos. Durante as várias visitas que fez à África em seu governo, o ex-presidente exaltou o know-how brasileiro em biocombustíveis e disse haver grande potencial no continente para o setor.

Maior empreiteira do Brasil e 24ª do mundo, segundo a revista Engineering News Record, a Odebrecht é pioneira no mercado de biocombustíveis em Angola: desde 2007, integra o projeto Biocom, que prevê a construção até 2013 de um complexo agroindustrial para a produção de etanol, açúcar e energia elétrica.

Apoio

O apoio do Brasil às operações da Odebrecht em Angola, porém, começaram muito antes da gestão Lula. Nos anos 1980, o governo criou uma linha de crédito para financiar a participação da empreiteira na construção da hidrelétrica de Capanda, a maior do país.

Segundo um estudo de Joveta José, doutorando em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a linha de crédito brasileira para a construção de Capanda absorveu recursos superiores a US$ 1,5 bilhão (R$ 3 bilhões).

Com o fim da guerra civil angolana (1975-2002), novos repasses permitiram à Odebrecht ampliar sua presença em Angola e tornar-se a maior empregadora privada do país.

No auge de suas operações, em 2008, a empresa contava mais de 30 mil funcionários no país africano. Hoje, diz ter 20 mil.

Os empréstimos financiaram 32 empreendimentos, entre os quais outra hidrelétrica (Cambambe), duas linhas de transmissão, estradas, avenidas e a reforma de redes de água e esgoto de cidades angolanas.

Nos últimos anos, o grupo passou ainda a investir em setores alheios às suas especialidades, como na exploração de diamantes e na gestão de uma rede de supermercados. E voltou a atuar no setor petrolífero após descobrir, em 2009, um poço com óleo de alta qualidade na costa angolana.

Mercado importante

Angola tornou-se um mercado tão importante para a Odebrecht que, em 2007, a empresa realizou no país africano a primeira reunião de seu conselho de administração fora do Brasil.

E mesmo após expandir sua atuação para outros países africanos e criar uma divisão para os negócios na África, Emirados Árabes e Portugal, a empresa manteve Angola na mesma subsidiária responsável pelas operações na América Latina (a Odebrecht América Latina e Angola), seu principal mercado.

Alguns dias após ter sido comunicada pela BBC Brasil sobre esta série de reportagens, porém, a Odebrecht retirou as menções a Angola da seção de seu site que trata da subsidiária – que, assim, passou a ser integrada somente por países latino-americanos.

A empresa diz que Angola passará a integrar a subsidiária para África, mudança que, segundo a Odebrecht, já estava programada.

Nos anos 2000, também financiadas pelo governo, outras empreiteiras brasileiras, entre as quais Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez, ingressaram no mercado angolano. A Odebrecht, no entanto, continuou a receber a maior parte dos empréstimos.

Ataques

O início das operações da Odebrecht em Angola teve contornos dramáticos, quando em 1984 participou da construção da hidrelétrica de Capanda, a 450 km de Luanda.

À época, o governo do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) travava com a Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola) uma guerra pelo controle do país.

Em estudo que amparou sua dissertação de mestrado, o psicólogo angolano João Manuel Saveia, formado pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), descreveu a construção de Capanda.

Ele conta que, em 1992, um ataque da Unita próximo ao canteiro de obras da hidrelétrica provocou a evacuação dos operários para Luanda.

Naquele ano, a Unita também atacou a capital angolana. Em seu estudo, Saveia cita o caso de um técnico brasileiro da Odebrecht que diz ter pego em armas para proteger a cidade da ofensiva da Unita.

Ele transcreve a fala do funcionário (não idenfiticado): "Como é que eu iria embora e deixar todo mundo assim? Não podia, tinha de participar e participei. Eu segurei uma AK (fuzil)".

Espaço

Como era chancelada pelo MPLA, a Odebrecht suspendeu os trabalhos na usina até que o governo retomasse o controle da região, em 1994.

Em texto publicado no livro que a Odebrecht lançou ao completar 25 anos em Angola, em 2009, o presidente angolano enalteceu a participação da empresa na construção de Capanda e agradeceu o Brasil por tê-la financiado.

José Eduardo dos Santos sinalizou ainda que continuará a haver grande espaço para a empresa no país.

"É certo que muito ainda há por fazer e que a barragem de Capanda (...) já começa a ser insuficiente para suprir as necessidades energéticas do país", disse.

"Temos, por essa razão, de continuar a contar em primeiro lugar com as nossas forças e com o apoio de nossos amigos mais seguros na edificação de uma economia sólida e sustentável."

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