O que separa a política externa de Obama da de Romney?

Atualizado em  22 de outubro, 2012 - 15:37 (Brasília) 17:37 GMT
Obama e Romney / AFP

No terceiro debate, Obama e Romney vão discutir temas ligados à política externa dos EUA

As diferenças entre o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney vão muito além da estrategia dos dois candidatos para revitalizar a economia dos Estados Unidos, o grande assunto da campanha eleitoral. Ambos tem opiniões muito distintas sobre a relação da Casa Branca com o resto do mundo.

Eleito em 2008 com a proposta de calibrar a diplomacia americana e a repaginar a imagem dos EUA perante o mundo, Obama aposta em uma relação mais estreita da Casa Branca com o mundo árabe, por exemplo. "América e Islã não são excludentes e não precisam estar em lados opostos", já disse o presidente.

Obama também exibe uma maior cautela em relação à política de Israel com os palestinos, sobretudo quando o assunto são os assentamentos israelenses em territórios árabes.

Romney, por sua vez, apoia um intervencionismo maior dos EUA na questão síria, com o armamento de grupos oposicionistas, e mostra uma relação mais estreita com Israel. O republicano é amigo pessoal do premiê Binyamin Netanyahu, cuja relação com Obama se deteriorou após divergências sobre a política no Oriente Médio.

Ambos também têm diferenças em relação à China, ao Irã e à Rússia. Embora não apresentem grandes divergências em relação à América Latina, os detalhes revelam posicionamentos distintos em relação aos vizinhos ao sul do rio Grande.

Tecnicamente empatados, segundo várias pesquisas de opinião, ambos debatem a política externa nesta segunda-feira. Veja as principais diferenças:

Irã

Questões principais: programa nuclear do Irã, a ameaça do desenvolvimento de uma arma atômica, a possibilidade de guerra e as especulações sobre um ataque unilateral por parte de Israel.

  • O que Obama disse: "Países e presidentes fortes dialogam com seus adversários". Posição: O Irã não deve ser autorizado a ter uma arma nuclear. Obama não descartou todas as alternativas, mas, claramente, prefere uma solução negociada por meio da diplomacia e/ou sanções. Apesar de as tentativas iniciais de persuadir os iranianos terem falhado, as sanções internacionais parecem estar tendo o efeito desejado pela administração do governo Obama.
  • O que Romney disse: "...Se vocês me elegerem como próximo presidente, eles não terão uma arma nuclear". Posição: Mantém uma linha mais dura. Além de defender que o Irã não produza armas nucleares, Romney mantém a posição de que o país não tenha o direito de desenvolver qualquer programa nuclear. Ele rejeita qualquer tentativa de convencimento por meio da diplomacia, mas prefere elevar o tom por meio da aplicação de mais sanções. No entanto, o ex-governador acredita que uma ação militar possa funcionar.

Israel

Questões principais: os assentamentos israelenses em territórios ocupados, as negociações de paz com a região autônoma da Palestina e a criação de um Estado palestino.

  • O que Obama disse: "Nosso compromisso com a segurança de Israel não pode vacilar, nem a nossa busca pela paz". Posição: Obama afirma seu compromisso com a segurança de Israel, mas considera insustentável a atual situação com os palestinos e apoia uma solução com dois estados. Obama exigiu que o Hamas aceitasse a existência do Estado de Israel e renunciasse à violência. O presidente americano se opõe aos assentamentos israelenses em territórios ocupados, o que causou atritos com o primeiro ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. Obama insiste que a relação entre os dois países está em "boa (fase)", mas nunca esteve em Israel, durante seu mandato.
  • O que Romney disse: "A chave para uma negociação de paz duradoura é Israel saber que estará seguro". Posição: Romney descreve Israel como o aliado mais próximo dos EUA e critica Obama por se distanciar do país. O ex-governador é mais aberto à questão dos assentamentos judaicos e quer se concentrar em obter avanços econômicos nos territórios palestinos, em vez de só lhes proporcionar maior status político. Romney tem falado na viabilidade de uma solução de dois estados. Durante sua campanha, ele visitou Israel, mas disse "os palestinos não têm interesse algum em estabelecer a paz".

Mundo árabe/muçulmano

Questões principais: as consequências da Primavera Árabe, o conflito civil na Síria e o filme anti-Islã que desencadeou uma série de protestos violentos na região contra as representações diplomáticas americanas.

  • O que Obama disse: "América e Islã não são excludentes e não precisam estar em lados opostos". Posição: Desde o início de seu governo, Obama tenta uma aproximação com os países árabes e muçulmanos. O presidente americano apoiou a reforma democrática na região e criou planos de financiamento e empréstimos para investimento em infraestrutura e na criação de empregos. Ele também apoiou a coalizão da Organização do Tratado do Atlântico-Norte (Otan) na Líbia contra o regime de Muammar Kadafi e endossou duras sanções econômicas contra a Síria, pedindo que o presidente Bashar al-Assad renunciasse ao poder imediatamente. Obama defende a liberdade de expressão em relação ao filme anti-Islã e condenou a violência gerada pelos protestos contra o filme.
  • O que Romney disse: "A minha administração vai se esforçar em garantir que a Primavera Árabe não seja seguida por um Inverno Árabe". Posição: Romney considera a Primavera Árabe como uma boa oportunidade para a mudança, mas é cauteloso em abrir uma porta na região para os adversários dos EUA. O ex-governador concorda com a participação militar americana na Líbia, mas discorda quanto ao momento em que isso foi feito. Ele critica a falta de ação de Obama na Síria e gostaria de ver os EUA e seus aliados organizando e armando grupos de oposição sírios. Romney não é a favor de uma ação militar imediata, mas disse que os EUA têm de intervir para evitar a disseminação de armas químicas. Ele criticou a resposta de Obama aos ataques contra as representações diplomáticas americanas.

China

Questões principais: engajamento e resistência ao crescimento econômico, militar e político da China, corrigir os desequilíbrios comerciais, manter sob controle práticas monetárias e comerciais questionáveis e avançar nas questões de direitos humanos.

  • O que Obama disse: "Os EUA não querem conter a China...uma China forte e próspera pode ser fonte de força para a comunidade das nações". Posição: Obama é a favor de uma relação de cooperação e acredita em uma abordagem mais pragmática e conciliadora. No entanto, já criticou Pequim por, supostamente, manipular sua moeda e incorrer em práticas comerciais desleais. O presidente americano anunciou a criação de uma unidade para investigar tais violações. Obama está preocupado com a crescente influência chinesa na Ásia. Recentemente, ele foi confrontado sobre o caso do dissidente chinês que escapou da prisão domiciliar e conseguiu garantir-lhe uma passagem segura para os EUA.
  • O que Romney disse: "Se você não estiver disposto a se opôr à China, será atropelado por ela". Posição: Romney defende uma abordagem cada vez mais linha dura com o país asiático, incluindo um aumento da presença militar americana no Pacífico, estreitando laços com a Índia e outros aliados. Ele é a favor da defesa dos direitos humanos e quer pressionar a China a adotar políticas de livre comércio "justas", que atualmente considera abusivas. O ex-governador não apoiou a campanha de Obama na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a China. Na ocasião, ele também considerou que Obama agiu "muito pouco e muito tarde". Romney fala abertamente sobre a manipulação de moedas e da ação de piratas virtuais em computadores do governo e grandes companhias americanas. Ele considera a China uma potência econômica com quem os EUA devem negociar, no entanto, sob regras rígidas.

Rússia

Questões principais: A aproximação após a volta de Vladimir Putin à presidência, o início de um tratado sobre a redução de armas nucleares, a cooperação para manter o Irã sob constante supervisão e a renúncia do presidente Assad da Síria.

  • O que Obama disse: "A Rússia não é nosso inimigo número 1, a não ser que você ainda viva na Guerra Fria". Posição: Obama redefiniu as relações com a Rússia e assinou um novo tratado que limita o número de ogivas nucleares do país. Ele apoia a adesão da Rússia à OMC, que irá conduzir os dois países à normalização das relações comerciais permanentes. Os EUA chegaram a um acordo com Moscou sobre as sanções contra o Irã, mas não chegaram a um denominador comum sobre a crise na Síria. O governo americano acusou a Rússia de enviar helicópteros de ataque para o regime de Assad.
  • O que Romney disse: "A Rússia é, sem dúvida, nosso inimigo geopolítico número 1. Eles lutam por todas as piores causas do mundo". Posição: Romney diz que vai "redefinir" o que já foi redefinido por Obama. Em sua campanha, ele diz que seu objetivo é criar uma estratégia para desencorajar o que ele chama de comportamento "expansionista e agressivo" da Rússia e, por outro lado, incentivar uma reforma político-econômica e democrática no país. Romney diz que será franco no confronto com o governo russo sobre práticas autoritárias. O ex-governador acredita que a política de Obama é muito focada no controle de armas. Romney foi contra a adesão da Rússia à OMC e acusou Moscou de travar as sanções da ONU contra o Irã e a Síria.

América Latina

Questões principais: Embargo dos EUA contra Cuba, controle de armas, da violência e do tráfico de drogas na fronteira com o México, fortalecimento do comércio com os países da região, independentemente de blocos econômicos, relacionamento com governos populistas e o sentimento antiamericano.

  • O que Obama disse: "A América Latina é uma região em movimento, orgulhosa de seu progresso e pronta para assumir um papel maior nos assuntos mundiais. É mais importante do que nunca para a prosperidade e segurança dos EUA". Posição: A política de Obama tem sido ofuscada pelas recentes e constantes crises internas e externas, embora o presidente americano tenha prometido se engajar em um novo espírito de parceria com a região. Ele aliviou as restrições de viagem a Cuba, mas não falou do embargo de décadas com a ilha comunista. Obama prosseguiu com o Plano Mérida, iniciado no governo de George W. Bush, que envolve o envio de tropas e dinheiro para coibir o tráfico de armas e drogas na fronteira com o México. Além disso, ele assinou dois acordos de livre comércio com a Colômbia e o Panamá, também negociados pelo seu antecessor. Obama também defendeu o intercâmbio de estudantes de ensino superior entre os países da região e os EUA. No entanto, o presidente americano não tem uma política global para toda a região, nem uma estratégia para lidar com o surgimento de novos blocos, como a Alba, a Unasul e a Celac, que estão fora da esfera de influência americana.
  • O que Romney disse: "Vou lançar uma campanha para incentivar a oportunidade econômica na América Latina e ressaltar o contraste entre os benefícios da democracia, livre comércio e livre iniciativa e a falência moral e material do modelo venezuelano e cubano". Posição: A política de Romney para a região é similar à de Obama. No entanto, o ex-governador afirma que terá um papel ativo na região, apoiando os governos aliados democráticos. Para ele, o progresso diz respeito aos laços de segurança, economia e democracia que são ameaçados pela Venezuela e por Cuba. Romney afirmam que essas duas nações lideram um virulento movimento antiamericano na região, que mantêm estreitos vínculos com o Irã e organizações extremistas como o Hezbollah. O ex-governador pretende lançar uma campanha de oportunidade econômica para a América Latina e formar uma força tarefa contra crimes e terrorismo. É a favor do restabelecimento de restrições de viagem a Cuba e da construção de uma cerca permanente na fronteira sul dos EUA com o México.

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