Obama x Romney: Último debate mostra ‘cansaço’ dos EUA após década de guerras

Atualizado em  23 de outubro, 2012 - 05:03 (Brasília) 07:03 GMT
Debate Obama x Romney

Candidatos mostraram posições convergentes em vários temas de política externa

Os dois presidenciáveis americanos fizeram na segunda-feira um debate sem brilho sobre temas de política externa, indicando falta de apetite para levar os Estados Unidos a se envolverem em um novo conflito militar no mundo - apesar da existência de instabilidades e ameaças.

Refletindo o cansaço dos americanos após mais de uma década de envolvimento no Iraque e Afeganistão, os rivais pela Casa Branca indicaram que querem manter o papel de liderança do país na comunidade internacional, mas sem envolvimento militar direto.

A sinalização é relevante sobretudo partindo do aspirante republicano, Mitt Romney, que acusa o governo Obama de tratar os regimes sírio e iraniano com leniência.

Entretanto, na segunda-feira, ele indicou que discorda menos das políticas do atual governo que sua retórica inflamada indica.

Discutindo a atuação americana na Síria, por exemplo, e o papel dos Estados Unidos diante da Primavera Árabe, ambos os candidatos concordaram que Washington deve ajudar as transições nos países árabes, mas manter distância de se envolver militarmente.

Mesmo as declarações em relação à Líbia – onde no último dia 11 de setembro um ataque em Benghazi matou o embaixador americano no país – foram menos calorosas que nos dois debates anteriores.

Romney pode ter optado pela cautela nesse tema, depois que suas críticas pelo fracasso do governo em proteger o embaixador lhes renderam acusações de tentar explorar politicamente uma “tragédia nacional”.

Os candidatos também não discordaram fundamentalmente em relação às retiradas das tropas do Iraque e do Afeganistão, assim como da necessidade de continuar cooperando com o Paquistão.

Obama resumiu o espírito da coisa quando disse que "parte da liderança americana é garantir que estamos construindo nosso país dentro de casa".

"Na última década, experimentamos promover a construção de Estados-nações em lugares como o Iraque e o Afeganistão. E negligenciamos, por exemplo, desenvolver a nossa própria economia, nosso próprio setor energético, nosso sistema educacional", prosseguiu.

"É muito difícil projetarmos liderança no mundo se não estivermos fazendo o que precisamos fazer aqui."

Convergência desafinada

Obama e Romney durante o debate

Principais divergências entre os candidatos foram em temas de política doméstica

Entretanto, tratou-se de uma convergência desafinada – que se expressou em outros temas, como o Irã e a China, nos quais Romney acusa o governo Obama de agir com leniência.

O republicano já disse que classificará a China como manipuladora de câmbio já no seu primeiro dia de trabalho.

Sobre o Irã, na segunda-feira Romney criticou Obama por não adotar sanções mais firmes em represália ao programa nuclear iraniano.

"Hoje, eu endureceria essas sanções. Proibiria navios que carregam petróleo iraniano de vir para os nossos portos", disse.

"Garantiria que (o presidente iraniano, Mahmoud) Ahmadinejad fosse indiciado por genocídio. Também garantiria que seus diplomatas sejam tratados como os párias que são em todo o mundo, da mesma maneira que tratamos os diplomatas do apartheid da África do Sul."

Romney disse que o mundo está "quatro anos mais perto" de que o Irã alcance a tecnologia nuclear para fins militares.

Obama replicou as declarações afirmando que os EUA já adotaram sanções unilaterais contra o Irã e que elas não funcionaram.

Disse também que, enquanto seu governo negociava sanções internacionais, o republicano investia seu dinheiro na companhia de petróleo chinesa, que tem negócios com a iraniana.

Navios e baionetas

Os candidatos também duelaram em um tema híbrido de política externa e doméstica: os gastos militares.

O republicano acusou Obama de tornar o país menos seguro por propor um corte de gastos de US$ 1 trilhão no orçamento de defesa americano. Apontou que a Marinha americana é a menor desde 1917 e que a Força Aérea está mais enxuta que quando foi criada, em 1947.

Obama respondeu com sarcasmo. "Acho que o governador Romney não passou muito tempo estudando como funcionam as Forças Armadas", ironizou.

Candidatos cumprimentam espectadores após o debate

Debate foi o último enfrentamento entre os candidatos antes da eleição do dia 6 de novembro

"Governador, nós também temos menos cavalos e baionetas, porque a natureza do serviço militar mudou. Temos estas coisas chamadas porta-aviões onde pousam as aeronaves. Esses navios que se movem por debaixo d’água, os submarinos nucleares."

Para Obama, o investimento de US$ 2 trilhões nas Forças Armadas – "que os militares não estão pedindo" – proposto por Romney é incongruente com seu plano de corte de US$ 5 trilhões em impostos e reequilíbrio orçamentário.

As principais divergências – e os momentos mais vivos do debate – surgiram em discussões de politica doméstica que, em tese, não faziam parte do menu.

Foi nesse momento que a América Latina foi mencionada pela única vez. Romney citou seu plano de cinco pontos para reviver a economia americana, dos quais um é elevar o comércio exterior, principalmente com os vizinhos.

Pontos para todos

Como era de se esperar, o presidente, na posição de comandante-em-chefe das Forças Armadas, demonstrou mais conhecimento dos temas e esteve mais seguro nas respostas.

As pesquisas de opinião divulgadas após o evento lhe deram a vitória (por 53% a 23% segundo a rede CBS, e por 48% a 40% de acordo com a CNN).

Já Romney pareceu ter jogado pelo empate, tendo se beneficiado de uma clara subida nas pesquisas após os primeiros dois enfrentamentos.

Analistas vinham considerando que, mais que vencer o debate, era importante para o desafiante passar no teste de enfrentar o comandante-em-chefe.

Ao adotar um papel mais apaziguador, alguns analistas acreditam que o republicano foi bem sucedido.

Obama e Romney agora só se enfrentam outra vez nas urnas, no dia 6 de novembro.

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