Mais de 10 milhões de latinos desperdiçam direito de votar nos EUA

Atualizado em  25 de outubro, 2012 - 11:28 (Brasília) 13:28 GMT
Eleitora latina / AP

Voto de latinos é disputado por Obama e Romney

Disputada pelos dois candidatos à presidência dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama, que tenta a reeleição, e o republicano Mitt Romney, que ensaia a primeira ida à Casa Branca, a comunidade latina é, apesar de seu tamanho, uma das que menos comparece às urnas.

Embora 23,7 milhões de latinos tenham o direito de votar (4,2 milhões a mais do que no último pleito presidencial de 2008), nem todos devem se inscrever para ir às urnas. Pesquisadores calculam que o total de eleitores latinos registrados deve ficar entre 10 e 13,5 milhões.

Diretor associado do Centro Pew, uma das mais conhecidas entidades responsáveis por pesquisas de intenção de voto nos EUA, o pesquisador Mark Hugo López destaca que, além do número reduzido de eleitores registrados, a comunidade latina também tem um índice baixo de participação nas eleições.

"O problema é que os latinos raramente votam em números que refletem seu potencial", disse López à BBC Mundo. "Há quatro anos, apenas metade dos eleitores registrados compareceram às urnas, contra 65% dos negros e 66% dos brancos."

Para reverter tal quadro, voluntários de organizações sem fins lucrativos vêm, desde o início do ano, tomando as ruas das principais cidades americanas para promover a participação cívica da comunidade latina.

Uma delas é a "Mi Familia Vota", que se define como uma organização sem fins lucrativos que trabalha para "unir a comunidade latina e seus aliados para promover justiça econômica e social por meio de uma crescente participação civil".

Francisco Heredia, diretor do braço da entidade para o Estado americano do Arizona, vangloria-se de já ter batido em mais de 55 mil portas nos últimos cinco meses. Seu objetivo é convencer os latinos, casa por casa, de que seu voto "faz diferença".

"É uma estratégia muito básica. Eu bato em portas e vou às lojas de latinos para registrar aqueles que estão aptos a votar", disse Heredia à BBC Mundo.

Nos Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório, é preciso que o eleitor se registre antes caso queira votar.

Desafio

Ajuda brasileira

No estado de Massachusetts, na costa leste dos EUA, entidades de apoio ao imigrante contam com uma ajuda brasileira. Até o dia 17 de outubro, quando expirou o prazo para novos registros, a organização sem fins lucrativos Brazilian Women's Group ajudou a registrar 130 novos eleitores, a sua maioria imigrantes recém-naturalizados americanos.

Segundo disse à BBC Brasil a brasileira Heloísa Galvão, diretora-executiva da entidade e há 24 anos nos EUA, o objetivo é ampliar a consciência política do imigrante.

"Somos um movimento apartidário cujo intuito é informar o imigrante naturalizado americano sobre a importância de seu voto, que pode ser um meio para uma mudança social", afirmou.

(Luís Guilherme Barrucho)

Adrián Landa é outro que está envolvido em uma missão semelhante: ele passa horas no porão de uma casa no leste de Los Angeles, onde funciona os escritórios da ONG Innercity Struggle.

Ali, junto com um grupo de mais de 20 pessoas, ele passa horas ao telefone, buscando mobilizar eleitores de sua comunidade.

"As pessoas normalmente estão abertas a nos ouvir; elas querem ver mudanças", afirmou Landa. "Mas não sabem ou não tem informações suficientes sobre o processo eleitoral", acrescenta o voluntário, cuja equipe entrou em contato com mais de 10 mil pessoas em apenas um mês.

Enquanto uns trabalham para registrar novos eleitores, outros lembram aos já registrados para usar seu direito de voto. Ao fim e ao cabo, o objetivo é o mesmo: ampliar o peso do voto latino nas eleições americanas e, com isso, aumentar o poder de barganha da comunidade sobre o candidato eleito.

O desafio é grande. Segundo López, do Centro Pew, um relatório desenvolvido por ele e publicado há poucos dias dá dimensão do que pode acontecer no próximo dia 6 de novembro: uma diferença gritante entre os latinos que estão aptos a votar e os que realmente comparecerão às urnas.

Dados da pesquisa mostram que três em cada quatro que estão inscritos dizem ter "certeza absoluta" que vão votar.

Imigrantes nos EUA / Getty

Apesar de numerosa, comunidade latina não comparece às urnas nos EUA

A taxa, entretanto, não é tão alta quanto parece. A média nacional, por exemplo, é de 89%.

Outro obstáculo é o índice de eleitores registrados dentro da comunidade.

"Enquanto 74% da população anglo-saxã é registrada, a proporção entre os latinos é inferior a 55%", diz Michael Munger, cientista político da Duke University.

Em outras palavras: não apenas menos latinos se registram para votar como os já registrados também participam menos do processo eleitoral.

Situação irregular

Além disso, especialistas acrescentam outro dado importante. Mais da metade dos latinos que mora nos Estados Unidos está fora da disputa porque não tem cidadania, estão em situação irregular ou tem apenas uma autorização temporária de residência.

Mas como explicar o distanciamento da principal comunidade de imigrantes do processo político nos Estados Unidos?

Especialistas creditam parte da resposta ao questionamento a uma característica demográfica: os jovens.

A maioria dos eleitores latinos ainda é nova, ou seja, habilitada para participar pela primeira vez neste ano, e tem entre 18 a 29 anos.

Nessa parcela da população, lembram os estudiosos, existe um interesse pela política menor do que no eleitorado mais velho.

Brasileiro registrando-se para eleição americana / Heloisa Galvão

Brasileira naturalizada americana registra-se para eleição dos EUA

"É um processo longo; é preciso convencer esses eleitores de que seu voto pode afetar seu cotidiano", afirmou Maria Duarte, da organização Galeo, responsável pela campanha "Orale!" para incentivar a participação latina a comparecer às urnas.

Outro fator provável, apontam os especialistas, é de natureza regional: cerca de 50% dos eleitores latinos moram no Texas e na Califórnia, dois Estados que não recebem muita atenção dos candidatos porque seus resultados já são historicamente conhecidos antes das eleições. O Texas tem uma inclinação republicana enquanto a Califórnia é considerada um reduto democrata.

"(Texas e Califórnia) não são considerados Estados pêndulo e, portanto, neles há menor esforço de mobilização de eleitores por partidos", diz López, do Centro Pew.

Economia

Outros analistas, no entanto, atribuem a menor participação eleitoral dos latinos especialmente à economia: o desemprego e a crise imobiliária têm forçado muitos latinos a se mudar. Assim, muitos acabam perdendo o registro quando expira o prazo para alteração do endereço de residência.

E ainda há um grupo de especialistas que creditam o fenômeno ao próprio "desencantamento" da comunidade com o futuro do país, depois de uma série de ajustes em planos sociais dos quais muitos eram beneficiários.

O desgaste sofrido pelo presidente Obama em seus primeiros quatro anos de mandato tem cobrado seu preço: os latinos que, tradicionalmente, votam em candidatos democratas, nesta campanha, não se reuniram em torno do nome do presidente americano, que não conseguiu atingir os níveis de adesão na comunidade como em 2008.

Os últimos levantamentos do Pew revelam, no entanto, que o voto latino dificilmente traria surpresas no dia da eleição: de cada quatro integrantes da comunidade registrados, três afirmaram que votarão em Obama, contra apenas um em Romney.

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