‘Até torcedores são cúmplices da corrupção no esporte’, diz especialista

Atualizado em  8 de novembro, 2012 - 13:36 (Brasília) 15:36 GMT
Arena da Amazônia, sendo construída em Manaus

Uso posterior de estádios construídos para a Copa é alvo de questionamento

Em tempo de grandes gastos com eventos esportivos no Brasil e de escândalos de manipulação de resultados (como o denunciado no campeonato italiano, em maio) e doping (como o envolvendo o ciclista Lance Armstrong) mundo afora, "é preciso que todos os agentes envolvidos no esporte – de organizadores a torcedores – comecem a debater a corrupção no setor".

A opinião é de Simon Chadwick, professor da Universidade de Coventry (Grã-Bretanha), onde comanda o Centro Internacional para Negócios do Esporte.

Chadwick participa em Brasília, neste mês de novembro, da Conferência Internacional Anticorrupção, organizada pela Transparência Internacional, que pela primeira vez abordará a corrupção no esporte.

Em entrevista telefônica à BBC Brasil, ele diz que eventuais casos mal resolvidos de corrupção podem ofuscar os eventos esportivos no Brasil e afirma que todos têm um papel de cúmplice na questão.

BBC Brasil - O Brasil se prepara para receber a Copa e a Olimpíada. É preciso ficar atento aos perigos da corrupção?

Simon Chadwick - Diria para o Brasil ficar preparado para um nível de escrutínio ao que nunca foi submetido antes. Não apenas por parte da imprensa, mas de acadêmicos, das mídias sociais e organizações, que levarão (denúncias de corrupção) a público.

Se há atividades corruptas no esporte brasileiro, em política esportiva ou no gerenciamento, o país ficará sob os holofotes. Aí, (o país) poderá ficar na defensiva, mas pode também lidar com isso e aproveitar os eventos para mudar essa arquitetura – se não para erradicar, pelo menos para enfrentar (a corrupção). Caso contrário, há o perigo de isso ofuscar os jogos.

Torcida inglesa durante a Copa da Uefa, em 2012, na Ucrânia (Reuters)

Torcida na Eurocopa 2012, na Ucrânia; país gastou tanto quanto a Olimpíada no evento

BBC Brasil - Uma preocupação aqui é quanto ao dinheiro indo para grandes arenas esportivas, cujo uso posterior é questionado.

Chadwick - Isso levanta a questão de o que constitui corrupção. Em geral usamos uma definição bem restrita, de algo ilegal ou antiético. Claramente há estádios sendo construídos sem uma justificativa ou por razões erradas, em casos de mau gerenciamento, e isso foi decidido se não por motivos financeiros, por motivos políticos. Acho que isso também é corrupção, mesmo que ninguém se beneficie economicamente.

O governo brasileiro e suas federações esportivas precisam estabelecer padrões claros que determinem os princípios que vão reger os jogos, bem como sanções para atividades corruptas.

BBC Brasil - Historicamente, grandes eventos envolvem mau uso de dinheiro?

Chadwick - Grandes eventos esportivos têm um péssimo histórico, e há muito ceticismo em torno de grandes arenas, que muitas vezes não deixam um legado. Londres-2012 foi interessante, porque muitas arenas serão desmontadas.

"É preciso haver um consenso global sobre (a corrupção no esporte). Mas acho que todos somos cúmplices – organizações esportivas que não mudam com a rapidez necessária, patrocinadores que deveriam agir, grupos de mídia e até torcedores. Mesmo quando suspeitamos da corrupção, vamos às partidas e compramos as camisetas dos times."

Simon Chadwick, da Universidade de Coventry

O mais importante é a extensão da corrupção relacionada à escolha de locais e construção de arenas. Vejamos o que aconteceu neste ano na Ucrânia, que gastou 10 bilhões de libras para sediar a Eurocopa, o mesmo que Londres gastou nos Jogos Olímpicos, que são tradicionalmente mais caros. A Ucrânia construiu quatro estádios para 10 ou 15 partidas, despertando pedidos de investigação – acredita-se que, se custaram tanto, só pode ter havido corrupção.

Em Manaus, vocês terão um estádio enorme que não ficará cheio. Em termos de prestígio, pode ser algo bom. Mas em termos econômicos, é uma péssima decisão.

O que tende a acontecer é que os países se candidatam (a grandes eventos) e só depois pensam nos problemas que isso vai causar. Mas muito antes você tem que saber por que está se candidatando e quais as consequências de ganhar.

BBC Brasil - Tivemos escândalos recentes em grandes federações, mas estas parecem ter mudado pouco. É verdadeira essa percepção?

Chadwick - Isso ilustra um problema maior no esporte global. Basta olhar a Fifa para entender a amplitude disso. Obviamente (o presidente Joseph) Blatter fez alguns movimentos de mudança (após denúncias de propina). Só que a vasta maioria dos observadores segue preocupada com a governança e a corrupção nesse tipo de organização.

Membro do governo russo e Joseph Blatter (dir), da Fifa, em foto de setembro

Fifa não fez o suficiente contra denúncias de corrupção, diz analista

Mas precisa haver um esforço de pressão global contra a corrupção. Porque se (organizações esportivas) podem pressionar governos para favorecer patrocinadores (por exemplo, pedindo mudanças de lei no Brasil), podem fazer o mesmo para promover transparência e governança. No caso específico da Fifa, eles falharam.

A não ser que se lide com isso globalmente de forma séria, em organizações grandes como a Fifa e a Federação Internacional de Automobilismo, será difícil mudar a cultura em organizações domésticas.

BBC Brasil - Mas há incentivos para isso? Essas organizações têm grande acesso a dinheiro e poder, e os torcedores não vão deixar de amar o esporte por causa disso...

Chadwick - Minha opinião é que é preciso haver um consenso global sobre essas questões, e a conferência (anticorrupção no Brasil) pode ser parte desse processo. Mas acho que todos somos cúmplices – organizações esportivas que não mudam com a rapidez necessária, patrocinadores que deveriam agir, grupos de mídia e até torcedores. Mesmo quando suspeitamos da corrupção, vamos às partidas e compramos as camisetas dos times.

BBC Brasil - Para o torcedor, a alternativa é boicotar?

Chadwick - O que mais eles podem fazer? Podem protestar, usar as mídias sociais. Mas no final das contas isso não vai impactar a organização do esporte – só a ação econômica fará isso. O que é mais importante: sua torcida ou o esporte limpo?

Lance Armstrong, em foto de arquivo

Caso Lance Armstrong ensina que, se há muitas provas, condenação pode ocorrer mesmo sem confissão

BBC Brasil - Quais os principais focos de corrupção no esporte?

Chadwick - Há dois elementos principais: 1) na competição, com manipulações de resultados, forçadas por apostadores online, e 2) no gerenciamento, como alegações de potenciais atividades corruptas em candidaturas para eventos, como as Copas de 2018 e 2020, e evidências de corrupção na Fifa.

Também há alegações de lavagem de dinheiro por clubes de futebol.

BBC Brasil - Que esportes considera mais corruptos?

Chadwick - Depende. Alguns são mais abertos ou têm entidades são mais abertas; outros tomaram a iniciativa de combater a corrupção. Novamente, voltamos à questão de o que é corrupção – no ciclismo, por exemplo, o doping tem sido uma forma de corromper o processo esportivo.

Esportes individuais são mais fáceis de se manipular resultados, porque é mais fácil influenciar indivíduos - por exemplo, tênis e corrida de cavalos têm mais alegações de manipulações do que esportes coletivos.

Esportes com grandes disparidades de renda também estão mais sujeitos à corrupção, e o futebol é um exemplo: tem pouquíssimos jogadores incrivelmente bem pagos e muitos com baixos salários. Esses outros vão querer receber também, e nisso podem ficar mais suscetíveis à corrupção.

Lazio, um dos clubes acusados de manipulação de resultados na Itália

Campeonato italiano teve denúncias de manipulação de resultados

BBC Brasil - O senhor falou do ciclismo. O que o caso Lance Armstrong tem a nos ensinar?

Chadwick - Duas coisas: 1) mesmo sem ele ter testado positivo em exames de doping e sem ter confessado, foi considerado culpado. Ou seja: se há uma grande quantidade de provas de envolvimento em doping ou corrupção, você pode ser culpado.

2) Aparentemente, houve doping em escala quase industrial. E isso teve implicações não apenas nos títulos (de Armstrong), mas em sua atividade comercial. Todos na equipe dele confessaram, mas ele não. E uma das razões é que ele recebeu muito dinheiro de patrocinadores. Uma eventual confissão o deixaria mais vulnerável a processos para devolver esse dinheiro.

BBC Brasil - Haverá mudanças no uso de doping?

Chadwick - Minha opinião é que o doping sempre estará presente. Há tanto dinheiro envolvido no esporte que sempre haverá gente disposta a praticar corrupção. O que as autoridades esportivas precisam fazer é reconhecer isso publicamente e se comprometer a combater.

Estamos entrando em uma nova era, em que não apenas organizações, mas também parceiros e nós observadores temos que responder melhor a isso, ou não poderemos mitigar o problema.

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