Lucas Mendes: Generais da banda larga

Atualizado em  15 de novembro, 2012 - 14:37 (Brasília) 16:37 GMT

Dois generais quatro estrelas, uma amante, uma socialite, um agente do FBI e mais de 30 mil páginas de e-mails. Ingredientes explosivos para tramas de filme na telona, TV, minisséries, seriado e livros.

Quando um dos generais é o Capitão América David Petraeus, herói de duas guerras e chefe da CIA, e o outro, John Allen, o comandante das forças americanas no Afeganistão e candidato a comandante da OTAN, a explosão é imensurável. Pode até gorar. Pufff.

O país está ameaçado? A grande imprensa discute se o general Petraeus devia ter ficado ou saído da CIA , se a segurança do país foi comprometida, invasão de privacidade, a gravidade e as consequências do crime.

O Times nos ensina que adultério é crime sério no código penal da Virgínia, Estado do general Petraeus, e noutros cinco Estados.

Em outros 17 Estados, é crime menor, mas, desde 2003, por uma decisão do Supremo, ninguém é indiciado por adultério. Os políticos podem acabar com as leis sobre adultério da noite para o dia, mas quem tem coragem de fazer um discurso a favor?

Pelo código militar, adultério é crime, e o general Petraeus, aposentado, recebe o benefício previdenciário, mas quais são as chances de ser julgado, condenado e perder a aposentadoria? Zero, segundo professores de direito.

Os tabloides anti-Obama já viram uma conspiração para abafar o escândalo até depois da eleição e responsabilizam os generais pela morte do embaixador americano em Benghazi, na Líbia. Estariam em ativa prevaricação na cama ou no computador, em vez de proteger os americanos mortos no consulado?

No humor noturno, os comediantes cruéis debocham e absolvem o Capitão América. Mostram a foto da mulher traída, gorda e envelhecida, e da amante, sarada e linda: quem resistiria? Mas pegam na bota do general: como o homem responsável pela proteção dos segredos da nação não consegue proteger os próprios segredos?

O caso do outro general, John Allen, com denúncias de sexo via e-mail com a socialite da Flórida, Jill Kelly, também é fonte abundante de humor. Bem como o do agente do FBI, um amigo, que a pedido dela foi investigar de onde vinham os e-mails anônimos e ameaçadores. Eram da ex-amante do Petraeus, Paula Broadwell.

O romance, terminado há quatro meses, começou quando ela foi escrever uma biografia do general. O título é "All In". Numa tradução literal, "Tudo Dentro". Piada feita.

Num momento de ciúmes, ela mandou os e-mails ameaçadores para a socialite Jill Kelley. Pois eles chegaram ao general. Foi o estopim da história. Agora, o próprio agente do FBI está na lista de suspeitos porque encontraram e-mails dele para a socialite com fotos sem camisa.

Nesta história, não podia faltar um especialista em generais. Ele é o respeitado Thomas Ricks, que acaba de lançar "The Generals: American Military Command from World War II to Today" (Os Generais: O Comando Militar Americano da 2ª Guerra até Hoje, em tradução literal). Ele cobriu as guerras do Iraque e do Afeganistão para os jornais Washington Post e Wall Street Journal e, hoje, é analista do Center For New American Security.

Já tinha publicado um livro devastador sobre a invasão do Iraque. O título, Fiasco, resume as 496 páginas implacáveis. No novo livro, ele narra a mediocridade e a genialidade dos generais americanos desde a Segunda Guerra Mundial. O pior deles foi Tommy Franks, que conseguiu perder duas guerras, a do Iraque e a do Afeganistão. Seus três sucessores foram igualmente incompetentes, mas recebidos de volta nos Estados Unidos como generais romanos bem-sucedidos em suas campanhas.

Algumas histórias são tão bizarras que dão vontade de rir. Mas quando você pensa quantas pessoas morreram vitimas da incompetência dos generais, dá vontade chorar. Podiam ser nossos filhos.

Um dos poucos que escapam da fuzilaria de Ricks é David Petraeus, que conseguiu controlar a rebelião do Iraque e deu uma sensação de estabilidade ao país, o que permitiu a retirada das tropas americanas.

Ricks escreveu que Barack Obama não deveria ter aceitado o pedido de demissão do general Petraeus, mas que o problema dos militares é justamente a falta de coragem de demitir os incompetentes. O importante, desde a Segunda Guerra, é proteger a carreira.

Sucessos não são premiados nem erros são punidos em guerras sem apoio popular como as da Coreia, Vietnã, Iraque e Afeganistão. Adultério? Pecado venial. Entre generais, inclusive Eisenhower, adultério era comum.

Poucos presidentes americanos - 4 ou 6?, os biógrafos discutem - demitiram generais. O campeão das demissões foi Lincoln, personagem de um filme excepcional de Steven Spielberg que acaba de estrear. O enfoque do filme é a luta na Câmara para aprovação da emenda 13 da Constituição, a que pôs fim à escravidão.

São os últimos quatro meses de vida do presidente que demitiu cinco generais, um deles McLlelan. Duas vezes. Gostavam mais de marchar do que de lutar e um deles, Hooker, tinha tantas prostitutas no QG que ganharam o apelido de hookers. Vale até hoje.

O general de Lincoln mais importante e mais apunhalado pelos políticos e militares da própria União era Ulysses S. Grant. Diziam que era um alcoólatra incontrolável, insubordinado. Ganhou quase todas as batalhas que comandou e jamais pedia reforços. Cansado das intrigas, Lincoln disse a um dos fofoqueiros: "Veja o que ele bebe e mande distribuir para os outros generais. Precisamos de mais Grants".

Naquela época, não havia noticiários 24 horas por dia. Nem e-mail.

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