Cessar-fogo em Gaza terá de romper ciclo de 'soluções provisórias'

Atualizado em  21 de novembro, 2012 - 19:53 (Brasília) 21:53 GMT
Gaza e Israel / BBC

Se esforços não forem feitos, cessar-fogo entre Israel e Hamas pode ser 'solução esparadrapo'

Em meio ao acordo de cessar-fogo entre o governo de Israel e o do Hamas, que controla a Faixa de Gaza, anunciado nesta quarta-feira, ainda pairam dúvidas sobre se a trégua será mais uma solução provisória para o duradouro conflito que, de tempos em tempos, ganha contornos cada vez mais dramáticos e sangrentos.

A trégua foi mediada pelo Egito e contou com o apoio dos Estados Unidos. Em entrevista coletiva nesta tarde, o ministro de Relações Exteriores do Egito, Kamel Amr, e a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, anunciaram o cessar-fogo na capital egípcia, Cairo.

O pacto entrou em vigor às 21h hora local (17h de Brasília), mas uma proposta similar chegou a ser anunciada pelo Hamas na última terça-feira e não se concretizou.

Ainda que o cessar-fogo tenha sido anunciado, correspondentes da BBC em Gaza e em Israel relataram que o fogo cruzado permanece.

Mais cedo, uma bomba explodiu em um ônibus na cidade de Tel Aviv, em Israel, deixando três pessoas feridas. O governo israelense classificou a explosão como um "atentado terrorista".

Do lado de Gaza, pelo menos 13 morreram. O Hamas celebrou o ataque, mas não confirmou a autoria por trás do atentado.

Como de praxe, as conversações começaram enquanto a matança continuava. Tal situação não é inédita. Desde que o Hamas tomou o controle da Faixa de Gaza de seus rivais palestinos, o Fatah, em 2007, houve inúmeros novos focos de violência na fronteira.

Hillary Clinton e Mohammed Amr / AFP

Estados Unidos elogiou mediação do conflito pelo Egito

O que chama atenção, entretanto, é que todos os conflitos foram acompanhados de um cessar-fogo. No entanto, tais tréguas caíram por terra, não raro, com uma troca mútua de acusações entre Israel e o Hamas acerca da culpa de quem violou o armistício.

A razão para isso é que o cessar-fogo, parafraseando um porta-voz do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, não passa de uma "solução esparadrapo".

Em outras palavras, a trégua encobre o problema fundamental entre as duas forças. Hamas e Israel estão em estado de guerra constante. Há momentos em que essa situação indica uma calmaria que, entretanto, pode se reverter de uma hora para outra.

Existe, portanto, uma grande chance de que o novo cessar-fogo não dê certo, a menos que leve a uma grande mudança na equação política entre Israel e os palestinos, especialmente em Gaza.

O temor de um novo conflito aumenta à medida que os dois lados tentam mudar as regras do jogo ao impor condições para a trégua.

De um lado, o governo israelense quer impedir o rearmamento do Hamas e não ataque mais o país.

Já o Hamas exige que Israel interrompa os assassinatos e o bloqueio à Gaza.

Para dar certo, a única "luz no fim do túnel" parece ser que ambos os lados aceitem fazer concessões.

Cessar fogo

Israel concordou em "interromper as hostilidades na Faixa de Gaza, por terra, mar e ar, incluindo incursões e o alvo de indíviduos", indica o cessar-fogo.

"As facções palestinas devem parar com os ataques da Faixa de Gaza contra Israel, incluindo lançamentos de foguetes, e ataques ao longo da fronteira", estipula o acordo.

Um comunicado do gabinete do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu disse que o líder israelense concordava com a recomendação dos Estados Unidos de "dar uma chance à proposta do Egito (de trégua) e à oportunidade de estabilizar a situação e acalmá-la antes de que uma força maior seja empregada".

Para que a trégua seja alcançada, disse Clinton, "os ataques de foguete de Gaza devem terminar".

"Agora temos que focar em alcançar um resultado duradouro que promova a estabilidade regional e avance na segurança, dignidade e legitime as aspirações dos palestinos e dos israelenses", acrescentou.

Khaled Meshaal / AFP

Líder político do Hamas, Khaled Meshaal defendeu fim do conflito, mas não 'a qualquer preço'

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, elogiou Israel por ter aceitado o acordo e disse que buscaria maior financiamento para o Domo de Ferro, o sistema de defesa anti-mísseis do país, que destruiu dezenas de foguetes lançados de Gaza na última semana.

Obama também agradeceu a mediação do presidente do Egito, Mohammed Mursi.

Já o líder do Hamas, Khaled Meshaal, em entrevista transmitida do Cairo, disse que o Egito "agiu com respeito" ao mediar o cessar-fogo e que o povo palestino queria "colocar um ponto final no conflito, mas não a qualquer preço".

As ligações entre o Hamas e o Egito se fortaleceram desde que Mursi foi eleito no início deste ano.

O grupo palestino foi formado a partir de um braço da Irmandade Muçulmana, à qual Mursi pertence.

Desde a escalada do conflito, na última quarta-feira, pelo menos 160 morreram.

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