Um ano depois, Occupy London 'se profissionaliza' e tenta dialogar com maioria

Atualizado em  28 de novembro, 2012 - 07:05 (Brasília) 09:05 GMT
Occupy London

Occupy London chegou a St. Paul's em 15 de outubro de 2011, mas precisou deixar o local em fevereiro

Um ano depois de ter sido criado de forma espontânea por pessoas insatisfeitas com os rumos da economia global, o Occupy London – movimento social inspirado nas ações de ativistas americanos em Wall Street – mudou sua forma de atuação desde que perdeu seu local de concentração, e tenta hoje achar formas de dialogar com a maioria das pessoas, e não só com outros movimentos anticapitalistas.

Com ajuda de pessoas que já trabalharam em grandes empresas, e até mesmo no setor financeiro, o Occupy London parou de chamar atenção pelas ocupações físicas de espaços, e passou a atuar na organização de eventos, protestos pacíficos e até mesmo na publicação de um livro.

O movimento surgiu no dia 15 de outubro de 2011, quando cerca de mil pessoas se reuniram diante da Catedral de St. Paul, na city londrina, o mercado financeiro de Londres.

Os manifestantes atenderam a um chamado feito via redes sociais para prestar solidariedade ao americano Occupy Wall Street, criado no mês anterior, que inspirou movimentos semelhantes em todo mundo.

Na mesma noite, cerca de cem barracas foram montadas no local. O Occupy London, que nasceu naquele dia, passou os próximos quatro meses em uma batalha ideológica contra a ganância do setor financeiro de Londres – a quem culpam pela crise econômica global – e também em um conflito legal que envolveu a prefeitura, o judiciário e até a Igreja Anglicana – que administra a Catedral de St. Paul.

Derrotados na Justiça, eles foram obrigados a levantar o acampamento quatro meses depois. Muitos acreditaram que, sem sede e disperso, o movimento terminaria ali.

Profissionais do mercado

No entanto, um ano depois, muitas das pessoas envolvidas com o Occupy continuam engajadas no seu ativismo anticapitalismo e o movimento – agora organizado pela internet – está buscando novas formas de continuar pregando sua mensagem.

Occupy London

  • Movimento formado em outubro de 2011, inspirado pelo Occupy Wall Street, nos EUA, que prega mudanças no sistema econômico, com mais democracia e menos desigualdade
  • Ficou acampado em frente à Catedral de St. Paul's em Londres até fevereiro
  • Acampamento mudou-se para a região de Islington, no norte de Londres, mas acabou expulso de lá também. Desde então, houve ocupações esporádicas de diferentes espaços
  • Atraiu palestrantes como o sociólogo de esquerda Manuel Castells e Andrew Haldane, do Banco Central britânico
  • Hoje promove eventos, protestos e grupos de discussão; não há estimativa de quantas pessoas participam do movimento atualmente

"Hoje eu acho que temos menos pessoas no Occupy London do que tínhamos há um ano, mas por outro lado temos pessoas mais profissionais, mais técnicas e mais engajadas", afirma o ativista Cyril, de 34 anos. Ele conversou com a BBC Brasil durante um dos diversos protestos organizados online pelo Occupy London.

O site do movimento traz uma agenda de protestos e encontros de grupos de trabalho. Por semana, há cerca de dez eventos diferentes acontecendo em Londres. Esta foi a forma que o Occupy achou de continuar agregando os ativistas.

Sem líderes ou porta-vozes formais, o Occupy London tem contado com a ajuda de algumas pessoas que já fizeram parte do sistema capitalista que hoje criticam.

Um deles é Tom Moriarty, formado na prestigiosa London School of Economics (a mesma instituição que educou diversos banqueiros de Londres) e que trabalhou por 14 anos no mercado financeiro ajudando empresas de tecnologia a captar recursos e encontrar investidores.

Desiludido com o capitalismo em geral, ele abandonou o setor em 2009 e hoje contribui com o grupo de trabalho de economia do Occupy London, que, segundo ele, discute propostas para melhorar a economia mundial – e não apenas críticas ao sistema.

No mês passado, liderados por Moriarty e outros ex-empregados do setor financeiro que se aliaram ao movimento, o Occupy London publicou um livro chamado Pequeno Livro das Ideias – uma espécie de glossário de alternativas aos problemas econômicos atuais (confira o quadro ao lado).

Propostas dos economistas do Occupy London

  • "Jubileu da dívida": uma proposta para perdoar determinadas dívidas consideradas obstáculos para o crescimento das economias.
  • "Modelo John Lewis": o controle acionário da loja de departamento britânica John Lewis pertence aos seus funcionários; os lucros da loja são incorporados ao salário, o que - segundo o Occupy - promove uma distribuição mais justa da renda.
  • "Imposto Robin Hood": o Occupy propõe um imposto sobre transações financeiras (FTT, em inglês) - ou Imposto Robin Hood - que segundo o movimento poderia gerar o equivalente a R$ 60 bilhões por ano na Grã-Bretanha, caso a tarifa fosse de 0,05% sobre operações no mercado.

Fonte: Little Book of Ideas/Occupy London

"Nossa missão é trazer uma mudança ao sistema atual através da proposta de nossas próprias ideias, mas também incentivar as demais pessoas na sociedade a pressionar por mudanças", disse Moriarty à BBC Brasil.

Palestra polêmica

O grupo de trabalho de economia também foi responsável por um dos momentos de maior destaque – e polêmica – do Occupy London desde o surgimento do grupo.

No final de outubro, em eventos comemorativos de um ano do movimento, foi realizada uma série de palestras chamada Putney Debates. O principal orador da série foi Andrew Haldane, diretor de Estabilidade Financeira do Banco da Inglaterra (o banco central britânico).

Apesar de tido como um dos representantes do "establishment" financeiro, com salário anual equivalente a R$ 620 mil, Haldane fez elogios ao Occupy London – o que provocou surpresa dentro e fora do movimento.

"O Occupy foi bem-sucedido nos seus esforços de popularizar os problemas do sistema financeiro global e por um motivo simples: eles estão certos", disse Haldane, na palestra, que teve presença de mais de mil pessoas em Londres.

"Vocês colocaram os argumentos. Vocês ajudaram a ganhar o debate. E pessoas que determinam as políticas, como eu, vão precisar do apoio contínuo de vocês para continuar promovendo mudanças radicais."

O discurso de Haldane deu ao Occupy London a sua maior exposição na mídia britânica desde a desocupação de St. Paul's. Mas também dividiu internamente o grupo.

Divisão

A BBC Brasil participou na semana passada de um dos encontros do grupo de economia do Occupy London em que o tema foi discutido.

"Você deveria ver as centenas de e-mails que trocamos na nossa lista interna de discussão de economia depois da palestra", disse Steve Burak, integrante do grupo e professor.

Cyril

Para ativista Cyril, Occupy tem menos gente hoje, mas pessoas são mais profissionais

"Muitos acham que Haldane está só pregando uma 'enrolação' reformista e se aproveitando do nosso movimento. Outros acham que é um sinal de que nossas vozes estão sendo finalmente ouvidas."

Para Ellena, aposentada que se juntou ao grupo no ano passado, a palestra de Haldane foi um marco "fundamental e incrível" na história do movimento.

"Foi incrível ter alguém do Banco da Inglaterra sentado lado a lado discutindo com um representante do TUC [a maior central sindical dos trabalhadores] diante de uma plateia do Occupy."

Mas Burak discorda: "O que me importa o que um sujeito como Haldane pensa a respeito das nossas ideias?"

Moriarty, que não participou deste encontro, disse à BBC Brasil que o Occupy London já teve um "número espantoso de conquistas" em apenas um ano de funcionamento. Para ele, ideias defendidas pelo grupo, como o cerco contra paraísos fiscais, já estão entrando no pensamento corrente da sociedade.

No começo do mês, executivos de três multinacionais – Google, Starbucks e Amazon – foram convocados pelo Parlamento britânico para prestar explicações sobre brechas na lei usadas supostamente para pagar menos imposto no país.

Moriarty não atribui a convocatória exclusivamente ao Occupy, que chegou a fazer campanha em frente a lojas da rede Starbucks, mas diz que ela é um exemplo de como o "establishment" da sociedade está, por vezes, em sintonia com as reivindicações do movimento social.

"O pensamento corrente da sociedade se move em diferentes direções conforme todas pressões que são aplicadas, seja pela direita e pela esquerda. Se nós formos uma das influências no movimento desse pensamento corrente e isso nos levar a uma sociedade mais equânime e justa – onde todos são beneficiados, e não apenas 1% das pessoas – acho que isso é algo bom."

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