Iraque enfrenta crise com geração de órfãos de guerra

Atualizado em  1 de dezembro, 2012 - 21:36 (Brasília) 23:36 GMT
Irmãos Mustafa e Mortada perderam os pais durante a guerra (Foto: BBC)

Irmãos Mustafa e Mortada perderam os pais durante a guerra (Foto: BBC)

Uma pesquisa recente revelou que os anos de guerra no Iraque deixaram entre 800 mil e 1 milhão de crianças órfãs, sem um ou os dois pais.

De acordo com agentes humanitários, o número é uma estimativa conservadora que não corresponde às milhares de crianças crescendo à sombra da violência no país.

Saif, de 12 anos, perdeu o pai e a mãe em um ataque a bomba – no qual ele também ficou ferido – na província de Diyala, em 2005.

"Eu não lembro o que aconteceu", ele diz, em voz baixa. "Eu era pequeno. Um homem chegou e me levou para outro lugar, e depois me disse o que tinha acontecido com meus pais. Não há vida quando você perde seu pai e sua mãe", conta o menino.

Saif está sendo criado em um orfanato particular onde, apesar do trauma que enfrenta, joga videogame e canta, além de sonhar em se tornar um ator quando crescer.

A verdade é que ninguém sabe ao certo o número exato de crianças iraquianas que, como Saif, foram deixadas órfãs graças à violência no país.

Crise social

Embora os Estados Unidos tenham retirado suas tropas de combate do país, encerrando oficialmente o confronto, as explosões de bombas e assassinatos ainda são uma ocorrência diária, fazendo com que o número de órfãos continue crescendo.

Além das tragédias individuais, o total de crianças órfãs tem criado uma grande crise em um país que tem menos de 200 assistentes sociais e psiquiatras juntos para uma população de 30 milhões. E não há leis de proteção à criança no Iraque.

Autoridades do setor dizem que as disputas sectárias no Parlamento deixaram a criação de leis relacionadas ao bem-estar social em segundo plano.

Children in Iraq | Foto: BBC

Orfanato mantém 32 crianças no Iraque; doadores financiam as instituições

O orfanato no centro de Bagdá onde Saif vive foi criado pelo iraquiano Hisham Hassan e tem sido financiado por doações particulares.

Hassan disse à BBC que não podia mais aguentar o sofrimento de uma geração inteira.

"O governo ainda não entendeu o tamanho do problema", diz.

Aulas no orfanato

Entre os 32 garotos que vivem no orfanato estão Mustafa e Mortada, de dez e 11 anos, respectivamente.

Eles perderam a mãe em um tiroteio e o pai desapareceu durante o auge da guerra sectária. Os dois se recordam de uma "mãe muito boa" e um pai que costumava jogar futebol com eles.

O orfanato se esforça para criar um ambiente agradável que diminua o sofrimento dos garotos, com salas de computação e artes. Eles aprendem diversas habilidades, entre elas costurar até cortar cabelo.

"Se não cuidarmos bem deles, eles vão crescer e ser explorados por terroristas. Serão como bombas –uma ameaça à segurança e ao futuro do país", diz Hassan.

Abandono

No outro lado da cidade, em um orfanato dirigido pelo governo para adolescentes entre 12 e 18 anos, o garoto Mustafa, de 17 anos, teme pelo seu futuro.

"Eu preciso que alguém me dê cuidados psicológicos. Talvez nós estaremos envolvidos em crimes, porque não há nada bom no nosso futuro", conta.

Ele foi trazido ao orfanato de Dar al-Waziriya após perder seu pai e sua mãe em um atentado a bomba quando tinha 12 anos.

"Me sinto como um pássaro enjaulado aqui. Gostaria que alguém pudesse nos ouvir", diz.

Abrigando 52 garotos, o orfanato é um local dilapidado e abandonado.

Dara Yara, vice-ministro de Questões Sociais iraquiano, disse à BBC que ele e sua equipe estão fazendo o melhor possível, mesmo em circunstâncias políticas muito difíceis.

"Nós estamos trabalhando dia e noite para melhorar os serviços que prestamos aos órfãos. Mas as verbas que eu tenho para isto são muito limitadas. E o sistema de bem-estar social como um todo precisa ser reformado", diz.

"Trata-se de um assunto humanitário, que não está sendo priorizado pelo Parlamento. Nós precisamos de leis e nós precisamos de verbas do Ministério das Finanças para lidar com o problema", acrescenta o ministro, que também se preocupa com aspectos de segurança.

"Eles são alvos muito fáceis para recrutamento de terroristas".

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