Morte de agentes de saúde faz ONU recuar e evidencia crise da pólio no Paquistão

Atualizado em  19 de dezembro, 2012 - 13:30 (Brasília) 15:30 GMT
Vacinação contra a pólio no Paquistão (BBC)

País é um dos três em que a pólio ainda é endêmica no mundo

Uma onda de assassinatos de agentes de saúde no Paquistão fez com que a ONU anunciasse, nesta quarta-feira, a redução de sua campanha contra a pólio no país asiático.

Ao mesmo tempo, o caso evidencia um dos poucos lugares no mundo onde a poliomielite ainda é endêmica.

Na última terça-feira, seis agentes de saúde paquistanesas foram mortas durante uma campanha de vacinação do Unicef (braço da ONU para a infância) e da Organização Mundial da Saúde na maior cidade do país, Karachi, segundo autoridades locais. Nenhum grupo militante reivindicou a autoria dos atentados, mas o Talebã havia feito ameaças contra a campanha na cidade.

Ao menos dois novos homicídios de pessoas envolvidas na vacinação foram registrados no país nesta quarta.

Com isso, a ONU - que oferece apoio técnico e financeiro a funcionários e voluntários do departamento de saúde local - afirmou que vai tirar das ruas sua equipe de vacinação e suspender seus trabalhos.

As autoridades do Paquistão disseram que a campanha de imunização vai continuar em algumas áreas, ainda que alguns agentes de saúde, com medo, tenham se recusado a sair às ruas, informa a Reuters.

Endemia

O Paquistão é um dos três países do mundo, ao lado de Nigéria e Afeganistão, onde a poliomielite ainda é endêmica (a Índia deixou o grupo recentemente, já que não registrou nenhum caso de pólio desde janeiro de 2011).

A contaminação pelo vírus da doença - que afeta o sistema cerebral - geralmente se dá pela boca, em áreas onde há contaminação de alimentos e da água.

Os mais afetados são as crianças de até cinco anos, e horas depois da infecção as pessoas contaminadas podem desenvolver paralisia irreversível, geralmente nas pernas. Uma parcela delas pode morrer, vítima da paralisia de músculos respiratórios.

Mulher chora a morte de agente de saúde no Paquistão; militantes dizem que campanhas servem para espioná-los

A vacina de gotinha desenvolvida por Albert Sabin é administrada desde os anos 1960. Segundo a OMS, campanhas globais de vacinação fizeram com que os casos de polio caíssem de 350 mil em 1988 a 650 em 2011.

A doença já foi erradicada na maioria do planeta (nas Américas, isso ocorreu em 1994), mas permanece ativa no Paquistão: no ano passado, o país registrou o maior número de casos de pólio da década (198), informou a publicação médica The Lancet.

Neste ano, a Iniciativa Global de Erradicação da Pólio advertiu que a situação já se configurava uma "emergência", após casos de pólio terem surgido em países até então livres da doença, como China e Tadjiquistão.

Resistência a campanhas

Esta quarta-feira seria o último de três dias de uma campanha nacional de vacinação no país, com a meta de imunizar 5,2 milhões de crianças.

Mas campanhas do tipo enfrentam resistência em certas partes do Paquistão, em especial desde que uma falsa campanha da CIA (agência de inteligência americana) contra a hepatite ajudou a localizar Osama Bin Laden no país, em 2011.

Militantes islâmicos têm histórico de sequestro e morte de funcionários de ONGs estrangeiras na tentativa de suspender esforços de imunização. Sua justificativa é que as campanhas servem para espioná-los.

Nesta quarta, uma supervisora da campanha e seu motorista foram mortos a tiros quando seu carro foi atacado por homens de moto no distrito de Charsadda, a nordeste de Peshawar, segundo a polícia.

Um estudante voluntário levou um tiro na cabeça em outro ataque, em um subúrbio de Peshawar, e estava em estado grave.

O premiê Raja Pervez Ashraf afirmou, na terça, que autoridades regionais devem garantir a segurança dos agentes de saúde e condenou os ataques.

Nesta quarta, Zohra Yusuf, que lidera a Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, declarou que os assassinatos são uma "brutalidade" que visam "roubar o futuro" das crianças do país.

E funcionários da campanha paquistanesa saíram às ruas de Karachi para protestar contra a morte de seus colegas.

Leia mais sobre esse assunto

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.