Tensão ofusca Natal na Síria pelo segundo ano consecutivo

Atualizado em  25 de dezembro, 2012 - 01:32 (Brasília) 03:32 GMT
Mulher pendura pequeno enfeite de Natal em porta de casa em Damasco (AFP/Getty)

Mulher pendura pequeno enfeite de Natal em porta de casa em Damasco

Pelo segundo ano consecutivo, a Síria passa o Natal sem comemorações devido aos confrontos que assolam o país há 21 meses.

Nesta época do ano, em tempos de paz, as ruas de Damasco costumavam ficar cheias de árvores de Natal e decorações, não apenas nos bairros cristãos. Mas desta vez, de novo, as ruas estão vazias.

Em 2012, apenas uma loja da capital síria colocou à venda enfeites de Natal, mas poucos apareceram para comprar.

"Ninguém está com ânimo para comemorar. Eles não tem dinheiro para gastar com luxo como este e não querem comemorar enquanto as pessoas estão sendo mortas não muito longe daqui", afirmou o dono da loja.

Ele aponta para os arredores de Damasco, onde os bombardeios do governo podem ser ouvidos dia e noite.

E um último episódio de violência ocorrido no domingo aumentou ainda mais o desânimo dos sírios.

Um ataque aéreo na cidade rebelde de Halfiya atingiu uma fila em uma padaria e, segundo ativistas de oposição, teria matado mais de 90 pessoas.

Pedido da igreja

As igrejas do país pediram que a comunidade respeite as mortes que estão ocorrendo e não coloquem enfeites do lado de fora das casas.

O bispo Ishak Barakat, da Igreja Grega Ortodoxa da Cruz em Damasco, afirmou que, com o país em guerra, este Natal será mais discreto.

"Como toda a sociedade síria, estamos muito tristes com o que está acontecendo e pelos ataques brutais contra pessoas inocentes", afirmou.

"Como Igreja, decidimos que, como na Páscoa e no Natal passado, os serviços serão limitados a orações nas igrejas. Não vai haver comemorações", acrescentou.

Coral em igreja da Síria (AFP)

Cerca de 10% da população síria é cristã

O bispo afirmou que não há um risco em particular para os cristãos, mas acrescentou que os fiéis da igreja também não estão excluídos do conflito.

"Somos parte deste país, parte da sociedade síria. Não significa que, como cristãos, estamos fora do que está acontecendo no país."

"Hoje, quando um foguete cai, ele não tem olhos para ver se é um cristão ou um muçulmano. Está matando humanos. Como Igreja, acreditamos que nós todos somos feitos à imagem de Deus."

No entanto, alguns cristãos se sentem mais ameaçados. Muitos fugiram da Síria e foram para os países vizinhos.

Alguns dos que fugiram simplesmente se viram em meio aos confrontos, outros temem se transformar em alvos de ataques dos combatentes de oposição. A comunidade está tensa.

Cerca de 10% da população do país é cristã.

Fitas e cartazes

A cidade de Jaramana, ao sul de Damasco, é habitada por minorias, incluindo cristãos.

Nos últimos meses, o lugar tem sido alvo de ataques com carros-bomba que deixaram muitos civis mortos.

Em uma rua perto da praça Al Raees, onde ocorreram explosões, fitas brancas foram colocadas em varandas e balcões, um sinal tradicional de luto entre os cristãos locais. Pelo menos 16 pessoas foram mortas na rua depois de uma explosão.

Sírios decoram árvore de Natal em café na parte antiga de Damasco (AFP)

Orientação é para que cristãos mantenham enfeites de Natal dentro de casas e estabelecimentos

Cartazes com anúncios de mortes estão colados nas paredes. As famílias das vítimas se recusam a falar, temendo a exposição.

No entanto, uma mãe recebeu a reportagem da BBC em casa, sob a condição de não divulgar seu nome. Ela perdeu dois filhos: um morreu em um ataque em um posto de fiscalização.

O outro correu para ajudar os feridos depois da explosão de um carro-bomba e foi morto em uma explosão que ocorreu em seguida. Apenas um dos filhos ainda está vivo e ela quer paz, para que ele não morra.

Outros cristãos não temem o envolvimento com o conflito. Fares é de Jaramana e afirma que tem participado de protestos e levado ajuda humanitária para os refugiados de outras partes do país.

"Não me sinto ameaçado por ser cristão. Este é um jogo do regime para que as minorias temam a revolução", disse.

"Eu culpo o regime pelos ataques em Jaramana e em outros lugares do país, mas o Exército Livre da Síria também está lançando ataques e os civis estão pagando o preço."

Mesmo entre as minorias, existe divisão entre os que apoiam e os que fazem oposição ao governo sírio.

Mas, em ambos os lados, há o temor de que será necessário muito tempo para acabar com as divisões causadas pela violência.

Leia mais sobre esse assunto

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.