Abismo fiscal nos EUA: O melhor e o pior cenário possível

Atualizado em  28 de dezembro, 2012 - 17:26 (Brasília) 19:26 GMT
John Boehner e Barack Obama

John Boehner e Barack Obama estão novamente negociando impasse conhecido como abismo fiscal

Depois de quase dois anos, o jogo de xadrez fiscal entre o presidente americano, Barack Obama, e o Partido Republicano está chegando no seu momento final.

Em 2011, Obama tentou aumentar o "teto da dívida americana" – um limite estabelecido por lei de quanto o governo pode tomar emprestado.

O governo não conseguiu tudo que queria, mas firmou um pacto com os republicanos. Obama prometeu que aumentaria impostos e cortaria gastos públicos automaticamente a partir do dia 31 de dezembro de 2012, caso um novo acordo não fosse firmado.

Agora essa data está se aproximando, e os Estados Unidos estão perto de chegar em um "abismo fiscal", já que até agora nenhum novo acordo foi alcançado, a poucos dias do prazo final.

O que pode acontecer? Confira três possíveis cenários.

Cenário 1: Nenhum acordo é firmado

No dia 1º de janeiro, uma série de reduções de impostos estabelecidas na gestão de George W. Bush vai expirar. Com isso, o governo será obrigado a cortar gastos públicos em diversas áreas.

Ao todo, o governo terá de fazer cerca de US$ 607 bilhões em cortes de gastos e aumentos de impostos. Entre as mudanças previstas estão:

  • Reduções no orçamento de defesa
  • O fim de um desconto de 2% na alíquota sobre salários
  • Mudanças nos benefícios pagos pelo Medicare (sistema de saúde)
  • Reduções no crédito para famílias pobres
  • O fim de benefícios de desemprego de longo prazo – cerca de US$ 300 pagos semanalmente a 2 milhões de pessoas

O impacto destas mudanças pode ser doloroso na economia americana, que se recupera lentamente das últimas crises. Alguns analistas acreditam que elas poderão reduzir entre 4% e 5% da produção americana de uma só vez.

O desemprego nos Estados Unidos está abaixo dos 8%, mas pode voltar a subir, se as empresas reduzirem as contratações devido ao aumento de impostos.

O diretor do Fed (o banco central americano), Ben Bernanke, disse que, caso os Estados Unidos "caiam no abismo fiscal", a economia vai voltar à recessão. A visão é compartilhada por Obama.

A agência orçamentária do Congresso americano prevê que o desemprego possa ultrapassar 9% com uma nova recessão provocada pelo abismo fiscal, caso um acordo não seja firmado antes da chegada no Ano Novo.

O economista Michael Feroli, do JP Morgan, estima que mais de US$ 550 bilhões serão retirados da economia americana por conta dos cortes e aumento de impostos. Segundo a entidade Tax Policy Center, cada americano pagará US$ 3,5 mil impostos a mais por ano.

O impacto é diferente de acordo com o nível de renda. Alguns dos cidadãos mais ricos terão que pagar até US$ 120 mil a mais por ano. Já as pessoas mais pobres pagarão em média US$ 412 a mais.

A volta da recessão na maior economia do planeta teria fortes repercussões no resto do mundo.

Mas o abismo fiscal significa que o governo ficará sem dinheiro? Ainda não. O governo americano atingirá o teto de endividamento – de US$ 16 trilhões – no dia 31 de dezembro.

Mas o secretário do Tesouro, Tim Geithner, disse que é possível "achar" US$ 200 bilhões no orçamento, o que pode dar uma sobrevida de dois meses.

Na última vez que houve um impasse semelhante, as agências de classificação de risco rebaixaram os títulos da dívida americana de AAA para AA+. Foi a primeira vez na história que isso aconteceu, e agora isso pode voltar a ocorrer.

Cenário 2: Uma solução provisória é firmada

Obama ofereceu diversas alternativas aos republicanos – sob a condição de que os ricos pagassem mais impostos.

Ele defende que os impostos precisam aumentar para aqueles que ganham mais de US$ 250 mil por ano, mas ofereceu aumentar esse limite para US$ 400 mil.

O presidente também aceitou mudar os cálculos de custo de vida para pessoas que recebem benefícios sociais, cortes ao programa de saúde do governo e prorrogação de dois anos do teto da dívida. Mas tudo foi rejeitado.

O líder republicano na Câmara dos Representantes (deputados), John Boehner, também ofereceu o término do desconto de impostos para pessoas com renda superior a US$ 1 milhão como parte de um "plano B" para resolver o impasse, mas foi desautorizado por seu próprio partido.

Os republicanos já estão aceitando a ideia de impostos maiores, e Obama acaba de ser reeleito com uma votação expressiva, então existe a possibilidade de se chegar a um acordo de curto prazo.

Neste caso, é importante definir por quanto tempo o acordo vale. Se durar dois anos, a medida acalmará os mercados financeiros, adiando o impasse para depois das eleições parlamentares americanas.

Outros aspectos ainda são nebulosos. É pouco provável que um eventual aumento de impostos teria grandes efeitos na economia, mas os cortes nos gastos governamentais teriam um forte impacto dependendo do que for negociado.

Cenário 3: Um grande acordo é firmado

Um grande acordo para solução de longo prazo da dívida americana – que traga união entre Obama e o Congresso – é algo tão inesperado neste momento, que teria repercussões muito positivas ao mercado financeiro.

A negociação envolveria um plano para cortar até US$ 5 trilhões de dívida americana em um prazo de dez anos, evitando que esse tipo de batalha seja travada a cada dois anos.

Mas o que os políticos e a população estariam dispostos a aceitar?

De acordo com uma pesquisa da YouGov encomendada pelo site Slate com mil americanos, os cidadãos estão dispostos a aceitar mais impostos, cortes em gastos governamentais e redução das Forças Armadas, desde que sejam preservados o Medicare e os benefícios sociais.

Mas isso está claramente fora das mesas de negociação.

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