Apesar de nova lei, viajar ainda é sonho distante para muitos em Cuba

Atualizado em  15 de janeiro, 2013 - 16:24 (Brasília) 18:24 GMT
Mulher com passaporte cubano (Foto: AP)

Cubanos agora não precisam mais pedir permissão de saída e podem viajar apenas com passaporte

As filas em frente aos escritórios de imigração de Havana estão maiores do que nunca nas últimas semanas, à medida que os cubanos correm para tentar fazer seu primeiro passaporte.

É o único documento cubano necessário para viajar agora, já que, desde segunda-feira, quando entrou em vigor uma nova lei que flexibiliza os trâmites de saída e entrada do país, finalmente não é mais preciso pedir uma permissão de saída para deixar a ilha.

"Estou morrendo de vontade de ver minha filha nos Estados Unidos", disse Navidad, enquanto se abrigava do sol embaixo de uma árvore. "Não a vejo há três anos e quero lhe dar um grande abraço."

Outra mulher observou que as longas filas das últimas semanas se deviam em parte ao fato de que o preço do passaporte dobraria de US$ 50 para US$ 100 a partir da segunda-feira.

"Se eles não podem tirar o seu dinheiro com as permissões de saída, vão tirá-lo com passaportes", disse a mulher, ironicamente.

Restrições

Até então, o custo total de todas as permissões oficiais necessárias ficava em torno de US$ 300 – 15 vezes o salário médio mensal de um funcionário estadual, o que impedia que muitos cubanos viajassem.

Cuba impôs as restrições logo após a revolução de 1959, para acabar com o êxodo em massa de talentos cubanos para os Estados Unidos. As restrições foram amplamente criticadas fora da ilha, e provocaram muitas reclamações dentro do país.

O presidente Raúl Castro prometeu mudanças há muito tempo, mas elas foram atrasadas por terem sido aparentemente contestadas por alguns dentro do Partido Comunista.

Agora em vigor, a medida segue outros passos antes impensáveis para afrouxar o controle do governo sobre as vidas dos cidadãos.

Os cubanos agora podem comprar e vender suas casas e carros, por exemplo, ter telefones celulares e se hospedar em hotéis antes reservados a estrangeiros.

'Sonho americano'

Mas apesar das mudanças, os Estados Unidos – a apenas 145 km de distância – continuam atraindo muitos cubanos.

"Eu quero o sonho americano", diz Daniel Reno, 23, na fila para seu primeiro passaporte na antiga mansão que abriga o escritório de imigração. "Quero ter uma boa casa, uma boa esposa e um bom carro, e eu acho que é mais fácil conseguir isso lá."

"Sei que a vida não é cor-de-rosa, mas com trabalho duro você pode conquistar coisas", acrescenta Reno, explicando que seu salário anterior em um banco do governo era suficiente para sobreviver, mas não mais do que isso.

Esse sonho é comum na geração de Daniel. Esse dilema é capturado em um filme da diretora britânica Lucy Mulloy que foi exibido para grandes multidões em Cuba em dezembro.

Una Noche (Uma Noite) descreve a crise pessoal de um jovem frustrado em Havana que decide ir para Miami em uma jangada feita de canos e paus.

Na vida real, milhares de cubanos se aventuraram pelo mesmo perigoso caminho. Vinte anos atrás, o pai de Daniel Reno foi um deles, e apenas no ano passado a guarda costeira americana resgatou mais de 1,1 mil cubanos no mar.

Aqueles que conseguem chegar à costa recebem residência nos Estados Unidos. O governo de Havana argumenta que essas regras, que se aplicam unicamente aos cubanos, atraem as pessoas para o perigo.

Em um exemplo em que a vida imita a arte, os atores principais do filme deixaram Cuba. Eles foram convidados para participar de um festival de cinema nos Estados Unidos em abril de 2012 e permaneceram por lá.

"É por causa do jeito que as coisas são neste país; as necessidades materiais dos jovens, as coisas que queremos e não conseguimos aqui. É o sonho americano", afirma a irmã da atriz principal do filme. "É por isso que tantas famílias são separadas."

Mudanças

As novas leis migratórias de Cuba parecem reconhecer essa realidade.

Os viajantes agora poderão ficar fora do país por dois anos, em vez dos 11 meses anteriores, e terão a oportunidade de estender esse prazo.

Aqueles que deixaram Cuba ilegalmente há mais de oito anos não terão mais de enfrentar dificuldades para voltar à ilha.

O governo, que costumava chamar aqueles que deixavam Cuba de "vermes" e traidores, agora se refere a eles simplesmente como migrantes econômicos.

As autoridades estão apostando que, ao facilitar as viagens, mais cubanos irão trabalhar e estudar fora e trazer dinheiro e conhecimentos de volta à ilha. Mas algumas restrições permanecem em vigor.

A lei se refere a "preservar a força de trabalho qualificada" e, na TV estatal, um alto funcionário do setor de imigração, Lamberto Fraga, esclareceu que isso significa atletas e profissionais "vitais", assim como líderes do Partido Comunista.

"Eles saberão por que são vitais, o que deverá evitar que tirem seus passaportes, a não ser que tenham autorização", acrescentou Fraga.

Aparentemente, porém, a maioria dos médicos ficarão agora mais livres para viajar.

A nova lei também especifica que qualquer um pode ter o passaporte recusado por "motivos de interesse público", e dissidentes suspeitam que a lei se refere a eles. Alguns, como a blogueira Yoani Sánchez, foram impedidos de viajar muitas vezes no passado.

Dificuldades

Mesmo com passaportes, os cubanos precisam de vistos para visitar a maioria dos países e, como uma economia em desenvolvimento, os requisitos para entrada são rígidos.

Os Estados Unidos emitem atualmente cerca de 20 mil vistos de imigração por ano para cubanos - conseguir um visto de turista é bem mais difícil.

O Departamento de Estado americano diz estar "trabalhando ara garantir que os mecanismos estejam no lugar" caso haja um grande aumento nos pedidos de visto ou nas tentativas de cruzar a fronteira pelo mar em jangadas, mas pediu que as pessoas "não arrisquem suas vidas".

Na beira-mar em Havana, a maioria dos cubanos duvida que haverá um aumento nas tentativas de deixar a ilha.

"As pessoas estão felizes com essa mudança", diz Norberto, acrescentando que adoraria visitar Paris para ver a Torre Eiffel, mas ele é realista.

"Se você tem amigos ou familiares no exterior, que podem lhe enviar dinheiro, você pode viajar. Mas pessoas como eu, que não têm, terão de continuar sonhando."

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