Com 'união' em crise, britânicos discutem relação com Europa

Atualizado em  23 de janeiro, 2013 - 08:02 (Brasília) 10:02 GMT
Bandeiras da União Europeia e da Grã-Bretanha. PA

Cerca de 51% dos britânicos poderiam apoiar o divórcio com a União Europeia em um referendo

Os 30 km de mar que separam a Grã-Bretanha do continente mais uma vez vem à tona como um símbolo de diferenças sociais e políticas entre os dois lados e da resistência de muitos britânicos à integração com a Europa.

As diferenças são constantemente sublinhadas pelo chamado "euroceticismo" de britânicos que defendem a saída do país da União Europeia (UE) - e com a disposição do governo em convocar um referendo sobre o tema.

Em discurso nesta quinta-feira, o primeiro-ministro David Cameron anunciou que seu partido, o Conservador, irá propor uma nova relação com o bloco. Ele quer um foco sobre o mercado comum e maior flexibilidade em assuntos como a legislação trabalhista, hoje sob comando de Bruxelas.

Cameron quer renegociar os termos de adesão à UE, e, em seguida, submetê-los à apreciação dos britânicos através de um referendo - que poderá decidir sobre uma eventual saída do país do bloco.

"Eu digo ao povo britânico. Esta é a sua decisão", disse Cameron. "E quando a hora da escolha chegar, vocês terão uma importante escolha sobre o destino de nosso país", disse Cameron.

'Viagem à Europa'

Em rodas de conversa pela Grã-Bretanha, não é raro escutar alguém se referir a uma viagem "à Europa", como se o país não fizesse parte do continente.

Segundo pesquisa do instituto ICM publicada há um mês pelo jornal The Guardian, 51% dos britânicos não estão muito dispostos a uma relação estreita (com os vizinhos continentais). Cerca de 36% querem definitivamente o país fora da União Europeia e outros 15% disseram que poderiam votar pela saída (da UE) em um eventual referendo sobre o tema.

Um ano antes, os eurocéticos já eram 49%. Quadro muito distinto de 2001, quando todo o bloco europeu esbanjava crescimento e tinha a simpatia de 68% dos súditos de Sua Majestade, de acordo com o mesmo instituto.

Com a crise que assola a Europa e a perspectiva de reformas que impliquem na transferência de mais poderes nacionais para o comando da União Europeia em Bruxelas, o assunto virou um tema central do debate político no Reino Unido.

Sob pressão, o primeiro-ministro, David Cameron, veio a público defender uma redefinir na relação com a União Europeia.

A pressão maior vem do Ukip (Partido da Independência), da direita nacionalista, ainda nanico, mas em ascensão, ameaçando roubar votos e parlamentares do Partido Conservador de Cameron.

Mas a pressão não é só da direita. Cerca de 44% dos Trabalhistas consideram deixar o bloco. Em vários setores da sociedade britânica o desejo é de divórcio.

Império decadente

Propaganda do Ukip em 2009. Getty

O Ukip, de extrema-direita, ameaça roubar votos dos Conservadores com discurso anti-Europa

"Os britânicos sempre pensaram na integração europeia como parte de um processo de declínio do Império Britânico", disse à BBC Brasil Anne Deighton, professora de Relações Internacionais da Universidade de Oxford.

Antigos regentes do "Império onde o sol nunca se punha", os britânicos não foram, em um primeiro momento, os maiores entusiastas da integração europeia, que ganhou corpo com a reunião de seis países (França, Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo) após o Tratado de Roma, em 1957.

"Quando se percebeu que o tratado estava funcionado, os britânicos tentaram se juntar ao bloco", explica a professora. Foram vetados pelo líder francês General De Gaulle. Só embarcaram na integração em 1973, após a morte do presidente francês, com algumas restrições.

Embora tenham adotado boa parte da legislação comum europeia, sempre resistiram a detalhes simbólicos. Diferentemente do Palácio do Eliseu em Paris, ou da Chancelaria alemã em Berlim, a bandeira da União Europeia não é hasteada ao lado da bandeira britânica em Downing Street.

Até hoje, não é raro ter os legumes pesados em libras ou medir as distâncias em milhas no Reino Unido. Embora tenham padronizado seu sistema de medição apenas em 1995, depois dos vizinhos europeus, muitos ainda seguem fieis ao Sistema Métrico Imperial.

Euro

"Os britânicos sempre pensaram na integração europeia como parte de um processo do declínio do Império Britânico"

Anne Deighton, da Universidade de Oxford

Grande parte do euroceticismo atual deriva da crise que assola a Europa e põe em perigo o futuro da moeda única.

A integração fiscal sob o comando de Bruxelas (que já comanda a política monetária dos 17 países da chamada eurozona) é apontada por especialistas como o remédio amargo, mas necessário para resolver o caos econômico.

Para muitos, e para os "eurocéticos" em particular, transferir o controle sobre os gastos dos países para Bruxelas é abrir caminho para algo próximo a um Estado federal europeu.

E é justamente isso o que muitos britânicos não querem. Embora não adotem o euro, a reforma que se avizinha no bloco não é do agrado de Downing Street, que tenta negociar em outros termos.

"A União (Europeia) está mudando para resolver seu (problema de) câmbio. E isso tem importante implicações para todos". "A Grã-Bretanha não está na zona da moeda única, e não estará", disse Cameron nesta quarta-feira.

A moeda única sempre encontrou grande resistência em Westminister, desde o fim dos anos 1980, quando a então primeira-ministra, Margaret Thatcher, também conservadora, liderou o grupo dos que se opunham à adoção do euro.

"A moeda única tem a ver com os poderes da Europa, implica em uma Europa federal", anteviu Thatcher, que se tornaria célebre ao negar o euro em um discurso: "Não, não e não!".

Sem voz

David Cameron. AFP

Cameron fala em "repatriar poderes" de Bruxelas para Londres, sob pressão dos conservadores

Cameron diz que não quer a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, mas fala em "repatriar poderes".

Para o analista Fabian Zuleeg, do European Policy Centre de Bruxelas, "não está claro o que isso significa". "Há um jogo político em curso", diz.

Alguns parlamentares britânicos querem ter poder sobre a legislação trabalhista a fim de flexibilizar e aumentar o número de horas de trabalho – o que a legislação comum europeia proíbe.

Zuleeg não está convencido de que os britânicos podem vir a deixar o bloco. Mas a consequência já está posta, diz.

"O Reino Unido se desengajou do debate político na Europa. Eles foram importantes para o desenvolvimento do mercado comum. Mas, por ora, simplesmente deixaram de ser ouvidos, numa atitude de autoisolamento", diz.

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