Para sair de boate, sobrevivente passou por baixo da perna de segurança

Atualizado em  28 de janeiro, 2013 - 11:33 (Brasília) 13:33 GMT
Thaíse Brenner (foto. arquivo pessoal)

Thaíse diz ter sido uma das primeiras pessoas a sair da boate, logo após o início do incêndio

Uma das primeiras pessoas a deixar a boate Kiss, em Santa Maria, logo após o início do incêndio que matou 231 pessoas, na madrugada de domingo, a estudante de administração Thaíse Brenner, de 27 anos, disse à BBC Brasil que teve que se jogar ao chão e passar por baixo das pernas de um segurança que tentava, de braços abertos na porta, forçar os frequentadores do local a pagarem suas contas antes de sair.

"Eu vi as chamas no palco, já altas, mas o segurança dizia para a gente ficar calma, que o fogo já estava sendo controlado, e que era para a gente entrar na fila e pagar a comanda", relatou ela.

"Ele estava na nossa frente, com os braços abertos, pedindo para que a gente fosse para o outro lado", disse. "Como estávamos bem na frente, olhei para o chão, vi um vão entre as pernas dele e passei. Me atirei no chão e consegui sair", afirmou.

Ela contou que cerca de 50 pessoas deixaram a boate numa primeira leva, mas que percebeu um longo espaço de tempo até que mais gente começasse a sair do local, já após a chegada das ambulâncias.

"Nos falaram que eles fecharam a porta logo depois que saímos, para forçar o pessoal a pagar a comanda. Mas não vi eles fecharem", disse.

'Fogo, fogo!"

Bombeiros tentam conter fogo na boate

Estudante diz que levou tempo para conseguir ter noção da dimensão da tragédia

Thaíse, que mora na cidade de São Sepé, a 57 quilômetros de Santa Maria, foi à boate acompanhada de uma amiga. As duas decidiram ir à Kiss após receberem uma ligação de um casal de amigos que já estava lá dentro.

"Entramos na boate por volta de 1h45, mas decidimos ir embora depois de meia hora, porque havia uma banda de rock se apresentando, e não é o tipo de música que nós gostamos", contou. Segundo ela, o local estava também bastante lotado e abafado.

"Quando já estávamos quase na saída, esperando para pagar a conta, começou um empurra-empurra e uma menina passou gritando: 'Fogo, fogo!'", disse.

"Não vi muita coisa, porque o fogo estava bem no início. Só vi um pessoal se empurrando, uma confusão. No começo, achamos que era alguma briga", contou. "Estava todo mundo bem, se empurrando, mas saindo com calma. Só depois que começamos a perceber o que estava acontecendo. Acredito que os seguranças também não tinham noção de que ia ser uma coisa tão grande."

Ela disse que levou algum tempo, após deixar a boate, para ter a dimensão da tragédia.

"No começo achei que todo mundo conseguiria sair. Depois que saímos, ficamos na esquina esperando para ter notícias sobre nosso casal de amigos e começamos a ver gente saindo queimada, ambulâncias chegando, pais chegando para buscar os filhos. Tinha gente queimada, desmaiada, alguns até mortos. Ali é que começamos a ter noção da dimensão da coisa", disse.

"Mas só fui tomar noção mesmo do tamanho da tragédia depois de voltar para casa. Saímos e o pânico continuou. Não imaginávamos que havia morrido tanta gente", contou.

Os amigos mais próximos de Thaíse conseguiram se salvar, mas ela perdeu outros três conhecidos de sua cidade e outro da faculdade, em Santa Maria, que morreram no incêndio.

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