Tradição dos subúrbios, bate-bola se renova no Carnaval do Rio

Atualizado em  9 de fevereiro, 2013 - 08:06 (Brasília) 10:06 GMT
André Esteves (arquivo pessoal)

O carioca André Esteves tinha medo dos foliões vestidos de bate-bola quando era criança

O carioca André Esteves, de 39 anos, ainda se lembra do medo que sentia quando homens mascarados e batendo bolas de borracha no chão chegavam à rua onde passou a infância, em Bangu, zona oeste do Rio.

"Era uma mistura de pavor e adoração", dizia o advogado, enquanto dava os últimos retoques nas sapatilhas e sombrinhas de um conjunto de cerca de 30 trajes de Carnaval guardados em um dos quartos de sua casa.

Os desfiles dos mascarados pelas ruas do bairro tanto impressionaram Esteves que, assim que virou adolescente, resolveu se juntar a eles.

Foi assim que ele se tornou um bate-bola, nome pelo qual são conhecidos os centenas de foliões que tomam os subúrbios do Rio durante o Carnaval, assustando e divertindo crianças e adultos com uma algazarra de gritos, fogos de artifício e o som de bolas se chocando contra o asfalto.

Parte de uma tradição carnavalesca que já dura décadas nas zonas norte e oeste do Rio, os bate-bolas ou clóvis (como também são conhecidos) vêm passando por uma renovação nos últimos anos, com a proliferação de "turmas" por diversos bairros e a inserção de ritmos como o funk para embalar a brincadeira.

Renovação

"Antigamente só havia uma turma por bairro. Hoje, um grupo esbarra no outro durante o Carnaval", diz Esteves, um dos fundadores da turma Enigma, grupo de bate-bolas que desde 2008 anima o Carnaval em Marechal Hermes e outros bairros e cidades da região.

O Enigma sairá às ruas neste sábado com um grupo de 37 pessoas, incluindo sete crianças. A brincadeira começa às 21h30 e se repete todos os dias, até terça-feira, ao som de sambas e funk. Os foliões usam ainda um ônibus fretado para levar a festa para outros bairros, como Padre Miguel e Rocha Miranda.

Assim como acontece com as escolas de samba, a preparação para o Carnaval dos grupos de bate-bola começa cedo, logo na quarta-feira de cinzas, com os chamados “cabeças de turma” se reunindo para escolher o tema e as fantasias do próximo ano.

Mas, ao contrário do que acontece com as profissionais agremiações da Sapucaí, o trabalho de confecção dos adereços é feito majoritariamente na casa dos membros do grupo. "Desde novembro eu não durmo direito, não descanso. Chego do trabalho umas 20h e fico trabalhando nas fantasias até 3h, 4h da manhã", diz Esteves, que também atua como advogado em um escritório no centro do Rio.

Tanto trabalho se reflete no preço das elaboradas fantasias. Para brincar o Carnaval com o Enigma é preciso desembolsar R$ 1,2 mil, preço que, além do traje, inclui o aluguel do ônibus e churrasco.

Bolas

Integrante do grupo Enigma de bate-bolas

Integrante do grupo Enigma de bate-bolas se prepara para desfilar no Rio de Janeiro

Embora mantenham as máscaras e fantasias características dos grupos de clóvis, os membros do Enigma resolveram substituir as barulhentas bolas de borracha por sombrinhas. "As bolas eram meio agressivas, assustadoras", opina Esteves.

Outros grupos, no entanto, mantêm a tradição e se orgulham do “barulho” causado por suas performances. É o caso da turma Descontrole, que há onze anos brinca o Carnaval nas ruas do Irajá, na zona norte.

"A gente usa a bola e bandeiras ainda. A bola é para fazer o barulho, bater no chão", diz Marcos Aurélio da Silva, o Marquinhos, cabeça da turma.

"O negócio é fazer o máximo de barulho. Tem a queima de fogos na saída, tem a equipe de som, tem essas coisas todas", diz Marquinhos, que diz que a festa costuma ser animada por samba e funks compostos em homenagem à turma.

A Descontrole sai às ruas às 18h de domingo com cerca de 180 membros.

Três ônibus foram alugados para levar os foliões para festas no bairro de Realengo e para as cidades de Nilópolis e Queimados, na Baixada Fluminense.

Tradição

Embora tenha se tornado uma marca registrada dos Carnavais nos subúrbios, a tradição dos bate-bolas mascarados tem sua origem bem longe das zonas norte e oeste do Rio de Janeiro, trazida em parte pelos colonizadores portugueses e influenciada por outras festas, como a Folia de Reis.

"Eu trabalho com a hipótese de a nossa fantasia do Rio de Janeiro ser uma espécie de variação de fantasias europeias com origem em mitos celtas", diz Aline Gualda Pereira, pesquisadora do Instituto de Artes da Uerj e que há sete anos se dedica a estudar os bate-bolas.

"Até hoje essas fantasias existem em localidades mais ermas, por exemplo em Bragança, Portugal, e nas Astúrias (Espanha). Elas são derivadas dessas máscaras mais antigas, que teriam origem na mitologia celta" diz.

O outro nome pelo qual os bate-bolas são conhecidos, clóvis, também tem origem estrangeira, segunda a pesquisadora. A palavra seria uma corruptela de clown (palhaço, em inglês) e seria uma interpretação popular ao modo como técnicos estrangeiros teriam chamado os foliões no início do século 20.

"O bate-bola é produto de grupos de rapazes que se organizam para disputar o espaço das ruas. Esse tipo de diversão está mais ligado a uma atividade mais rural. Nós vemos personagens similares ao bate-bola em outros Carnavais, sempre ligados a um Carnaval menos urbano e mais rural", explica Luiz Felipe Ferreira, professor do Instituto de Artes da Uerj e coordenador do Centro de Referência do Carnaval.

Segundo Ferreira, a tradição encontrou terreno fértil no subúrbio do Rio, onde no início do século 20 matadouros forneciam as bexigas de bois e porcos para produzir as primeiras bolas para a brincadeira.

Multimídia

Mas se há tempos o universo dos bate-bolas deixou o mundo rural, ele agora serve de inspiração para um projeto multimídia que envolve uma série infanto-juvenil para TV e internet e a produção de uma graphic novel, ainda sem data para serem lançados.

Encabeçado pelo cineasta Felipe Bragança, a série Claun (Os Dias Aventurosos de Ayana) conta as aventuras de uma menina envolvida com um grupo de bate-bolas.

O filme piloto do projeto foi selecionado para o Festival Internacional de Roterdã, na Holanda, realizado no mês passado, e deve ser lançado na internet no final de fevereiro.

"Eu resolvi que ia trabalhar com esse universo porque eles representam uma conexão desta farra do Carnaval, da brincadeira, com um ponto de vista mitológico, religioso, que a cidade está perdendo. De alguma forma eles representam uma certa desobediência e liberdade", diz Bragança, que trabalhou com sete turmas de bate-bola em seu filme.

"O imaginário do bate-bola está ligado a uma rebeldia juvenil. Não é o Carnaval adulto da Sapucaí, onde você tem que fazer coisas corretas para ganhar notas", diz Bragança.

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