No Carnaval, Rio ganha em simpatia, mas perde pontos com sujeira e inglês

Atualizado em  15 de fevereiro, 2013 - 06:19 (Brasília) 08:19 GMT
O casal Javier e Eugênia Cerimedo (foto: BBC Brasil)

O casal Javier e Eugênia Cerimedo aguardam para embarcar em voo no aeroporto Galeão

Cariocas e turistas gostam de dizer que o Carnaval do Rio é o maior espetáculo da Terra. De fato, os números da festa são superlativos: a expectativa da Riotur (empresa de turismo ligada à Prefeitura) era de que pelo menos 900 mil turistas, entre brasileiros e estrangeiros, desembarcassem na cidade para os festejos - previstos para movimentar cerca de US$ 655 milhões (R$1,2 bilhão).

Mas se a grandiosidade dos desfiles na Marquês de Sapucaí, o bom humor dos blocos de rua e a beleza das praias atraem pessoas de todo o mundo, outros quesitos fazem com que o Rio perca alguns pontos na disputa pela preferência dos visitantes, especialmente aqueles que vêm de outros países.

Para tentar avaliar a qualidade do turismo no Rio, a BBC Brasil fez uma enquete com visitantes de diversas nacionalidades que aguardavam voos de volta para casa no Aeroporto Internacional do Galeão após o Carnaval.

Sambista da escola Vila Isabel na Marquês de Sapucaí (foto(Reuters)

Sambista da escola Vila Isabel na Marquês de Sapucaí; desfile agrada estrangeiros

O resultado mostra que embora continue conquistando os estrangeiros pela simpatia e outros atributos, o Rio ainda precisa ganhar pontos principalmente no que diz respeito à limpeza de ruas e praias, à atuação de taxistas e à comunicação com os estrangeiros, especialmente em hotéis e aeroportos.

Alguns dos entrevistados, como o argentino Javier Cerimedo, se mostravam entusiasmados com a visita, apesar de uma ou outra dificuldade. "Não vi nenhuma parte feia, para mim foi tudo lindo. As pessoas são muito cordiais e muito boas com os estrangeiros. Os brasileiros atendem muito bem", disse o argentino.

Outros, no entanto, pareciam bastante decepcionados. O americano nascido na China Min Li, por exemplo, criticou a sujeira e o serviço de táxis e chegou a colocar em dúvida a capacidade do Rio de sediar a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Matthew French

O australiano Matthew French visitou pontos turísticos do Rio de Janeiro: "ingressos caros"

"O Carnaval (na Sapucaí) foi excelente, o resto não gostei. No ano que vem vocês receberão a Copa do Mundo, em 2016 terão Jogos Olímpicos. Muitas pessoas virão para cá, os taxistas irão cobrar a mais, as ruas ficarão muito sujas, eu não acho que será bom", disse.

Em meio a críticas e elogios, uma boa notícia. Entre os turistas ouvidos, nenhum relatou ter sofrido ou presenciado roubos ou outros crimes durante suas estadias.

Veja abaixo alguns dos quesitos avaliados pela enquete da BBC Brasil e confira as impressões de um grupo de jurados formado por visitantes vindos de Argentina, Austrália, Canadá, China e EUA.

Diversão

Apesar de relatarem dificuldade e problemas durante sua estadia, os turistas entrevistados pela BBC Brasil foram unânimes ao apontar a simpatia e a disposição em ajudar dos cariocas como um dos pontos fortes do Rio.

Além disso, a beleza da cidade também ganhou elogios dos visitantes.

"Nós nos divertimos muito. Acho que as praias são muito boas, gostei muito de Copacabana", dizia a americana Cathy, que aguardava seu voo de volta para Nova York com o marido Franklin. Ambos preferiram não divulgar seus sobrenomes.

Franklin ainda elogiou a alegria dos blocos de rua e outras belezas cariocas. "A melhor coisa são as mulheres, elas são lindas".

Pontos turísticos tradicionais, como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar também foram elogiados por

alguns dos entrevistados, como o australiano Matthew French.

Visitando o país pela primeira vez, French, no entanto, fez algumas ressalvas. "Achei os preços (dos ingressos) nas atrações turísticas um pouco altos. Além disso, para subir no Pão de Açúcar tiver que aguardar em uma fila de uma hora e meia", disse.

Transportes

Entre os turistas entrevistados pela BBC Brasil, pelo menos dois afirmaram terem sido lesados por taxistas e citaram a questão como um dos principais problemas da cidade.

O mais incomodado era Min Li, nascido na China e que atualmente mora na cidade de San Jose, no Estado americano da Califórnia.

"Os motoristas de táxi me cobraram de maneira indevida. Todos os táxis. Eles cobraram muito. Teve um que ficou andando em círculos. Fizemos um percurso que tinham me dito que custaria entre R$ 60 e R$ 70, mas ele cobrou R$ 195 reais", disse Min.

Segundo a Secretaria Municipal de Transportes, que fiscaliza o serviço de táxis, este tipo de atitude é irregular e deve ser denunciada. A secretaria afirmou ainda ter intensificado a operação Táxi Legal durante o Carnaval para coibir essa e outras irregularidades.

Mas se alguns táxis foram motivos de decepção, o serviço de metrô recebeu elogios dos entrevistados. "Achei o metrô muito bom. Eu andei de metrô em vários países da Europa e achei o do Rio muito bom, comparável com os da Europa", disse o australiano Matthew French.

"Os ônibus também eram bons, mas era difícil saber para onde estavam indo", completou o australiano, que criticou a falta de informações mais claras em inglês.

Limpeza

Outra unanimidade citada pelos turistas ouvidos pela BBC Brasil foi a questão da limpeza. "Achei a cidade suja, muitos lugares tinham cheiro de urina", disse o canadense Joseph P., de 21 anos, que não quis divulgar seu sobrenome.

Os americanos Franklin e Cathy, que se hospedaram em um hotel no centro da cidade, também ficaram incomodados com a sujeira de algumas regiões.

"A pior parte foi a sujeira. Vi alguns ratos. A sujeira era mais na cidade, no centro", disse Cathy.

Outros turistas relataram terem se deparado com praias sujas, mas a maioria atribuiu isso à superlotação da faixa de areia.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) afirmou que 1.070 garis trabalharam na cidade todos os dias do Carnaval, mas que uma "mudança de comportamento dos foliões causou um impacto para o qual não foi possível uma resposta imediata".

Ainda segundo a Comlurb,a companhia traçará um novo planejamento para futuros eventos de grande porte "buscando corrigir possíveis falhas nos serviços prestados neste Carnaval".

Idioma

Quase todos os visitantes ouvidos pela BBC Brasil relataram uma grande dificuldade em entender e se fazer entender durante a sua estadia no Rio de Janeiro. O problema deve-se ao baixo nível de conhecimento por parte da população em geral daquela que é a língua franca no mundo dos negócios e do turismo, o inglês.

"As pessoas são simpáticas, mas ninguém fala inglês", reclamava a sino-americana Li Hong, que visitava o Brasil com o marido Min Li. De fato, segundo com uma pesquisa realizada em 2012 pelo British Council, apenas 5% dos brasileiros dominam a língua.

De acordo com o relato dos turistas, a falta de domínio do inglês de modo geral não dificulta apenas atos corriqueiros como pedir informações nas ruas ou descobrir para qual lugar vai determinado ônibus, mas também impede a comunicação com funcionários de hotéis e até de aeroportos.

"Sei que esse é seu país, mas acho que as pessoas poderiam aprender inglês para se comunicar melhor. Sei que é uma língua difícil de aprender, mas fica difícil pedir uma informação, perguntar onde é o metrô, uma rua", diz a americana Cathy, que afirmou ter tido dificuldades em se comunicar inclusive com funcionários do hotel onde estava hospedada.

Para Min Li e Li Hong, a dificuldade de conseguir encontrar pessoas que falavam inglês, aliada com a baixa qualidade dos mapas da cidade a que tinham acesso, fez com que a movimentação pelo Rio se tornasse uma tarefa árdua.

"As poucas vezes que eu conseguia entender em que rua estava, não conseguia encontrar no mapa. Pedíamos informações na rua, mas se tivéssemos um mapa bom, poderíamos nos localizar. Demorava muito para chegar ao lugar certo", disse Min Li.

Aeroporto internacional

Ponto de encontro da imensa maioria dos visitantes que visitam o Rio de Janeiro, o Aeroporto Internacional do Galeão - Antonio Carlos Jobim - dividiu as opiniões dos turistas entrevistados pela BBC Brasil.

"O aeroporto é bom, eu gostei dele", disse a americana Cathy, enquanto explicava que teria que esperar quase cinco horas para que pudesse embarcar em seu voo de volta para Nova York.

Já o casal de argentinos Javier Cerimedo e Eugenia de Cerimedo não parecia tão feliz com a espera. "O aeroporto é muito feio. É um monte de cimento e não há nada para fazer dizia", disse Eugenia.

"Queríamos dar uma olhada em lojas para ver se comprávamos algo, mas os lugares são muito pequenos. Além disso, a sinalização não é muito clara, não entendi muito. Demoramos um pouco até que encontrássemos o lugar do embarque", disse Cerimedo.

O canadense Joseph P., por sua vez, estava irritado com o fato de não ter encontrado funcionários que falassem inglês no Galeão. Enquanto aguardava em uma cadeira do saguão, um cabo de seu computador que ele havia deixado em uma tomada sumiu.

"Não sei se alguém roubou ou um funcionário tirou dali, mas ninguém me ajuda. Fui ao setor de Achados e Perdidos, à polícia, ao centro de informações, mas tudo está em português, então eu fiquei indo e voltando e ninguém conseguiu me ajudar", disse.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Infraero – empresa que administra o Galeão – afirmou estar investindo na capacitação de empregados em inglês e espanhol e que, no caso de funcionários que não falem essas línguas, a orientação é acompanhar os passageiros até equipes capacitadas.

Sobre a sinalização do aeroporto, a Infraero afirmou que o sistema existente está de acordo com "as normas internacionais" e "indica todos os serviços disponíveis". Ainda de acordo com a empresa, "as obras em andamento no aeroporto incluem a sinalização da nova área do Terminal 2 (serviço já licitado) e a troca da sinalização existente no terminal 1".

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