Congelamento de preços e disputa salarial acirram incerteza na Argentina

Atualizado em  6 de fevereiro, 2013 - 19:30 (Brasília) 21:30 GMT
Homem procura moedas para comprar mantimentos na Argentina (Foto: AP)

Após acordo com governo, preços em diversos setores estão congelados até 1º de abril

O congelamento temporário dos preços em lojas da Argentina intensificou a sensação de incerteza e desconfiança em relação aos rumos da economia do país.

Nesta quarta-feira, dez das principais redes de eletrodomésticos e de eletrônicos da Argentina veicularam anúncios nos jornais informando que seus preços estão congelados, após terem fechado um acordo com a Secretaria de Comércio Interior do país. Eles se seguiram aos supermercados, que na terça-feira haviam adotado o congelamento até 1º de abril.

Autoridades da área econômica não deram explicações sobre a medida, mas, segundo a sub-secretária de Defesa do Consumidor, María Lucila Colombo, o congelamento foi adotado para “servir à economia familiar”. “Não é uma política de preços máximos e mínimos. É um acordo de preços para cuidar da economia da família”, disse.

O congelamento foi anunciado em um momento em que as centrais sindicais se preparam para negociar com o governo reajustes salariais, que são baseados no índice de inflação do ano.

Mas muitos no país, incluindo sindicalistas, acreditam que o índice de inflação oficial, divulgado pelo Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) é manipulado pelas autoridades, e o congelamento é uma estratégia do governo para criar a percepção de inflação mais baixa e frear as ambições de reajuste salarial.

Inflação 'meio descontrolada'

A inflação oficial é questionada desde 2007. A partir deste ano, o governo trocou o comando do Indec e desde então oposicionistas e funcionários do instituto dizem que os números vêm sendo manipulados. O governo, porém, nega as acusações.

Os principais sindicatos já informaram que pedirão ajustes salariais muito acima da inflação calculada pelo governo, que foi de 10,8% em 2012.

"Concordamos com a sugestão do governo de negociarmos o aumento salarial pelo prazo de um ano, mas levando em conta a inflação do carrinho de supermercado e nosso próprio índice de preços", afirmou o sindicalista Antonio Caló, da União Operaria Metalúrgica (UOM).

A UOM, definida como simpática ao governo, estima que a inflação de 2012 foi de 25%.

Caló declarou ainda que "somente o congelamento de preços por pelo menos um ano" poderia servir para "conter as demandas salariais".

Na segunda-feira, o secretário-geral da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), Hugo Moyano, que adota uma linha de oposição ao governo, afirmou que os sindicatos desta agremiação pedirão ajustes de "30% porque a inflação está meio descontrolada".

Para Moyano, o governo decidiu lançar o congelamento de preços "como manobra" para "colocar um teto nas reivindicações salariais".

Câmbio

O economista Matias Carugati, da consultoria Management&Fit, disse à BBC Brasil que a "estratégia de congelamento de preços e salários" precisa, primeiro, ter base na "confiança".

"O congelamento para frear a inflação só serve se é acompanhado por uma mudança confiável na política econômica para torná-la consistente. E acho que este não é o caso argentino hoje. Neste sentido, até o momento, os sindicalistas não moderaram seus pedidos salariais depois do anúncio dos congelamentos", afirmou.

"A crise no setor de construção, no setor de compra e venda de imóveis e a inflação, palavra tabu para o governo, fazem parte dos motivos da desconfiança dos argentinos, o que reflete na alta do dólar no paralelo"

Nestor Scibona, 'La Nación'

O colunista do jornal La Nación, Nestor Scibona, escreveu esta semana que as recentes medidas econômicas do governo e a "inflação já existente de dois dígitos" contribuem para "gerar desconfianças" na economia argentina.

Ele cita as oscilações no comportamento do dólar no câmbio paralelo, que nos últimos dias chegou perto de oito pesos – diferença de cerca de 63% para a cotação da moeda oficial, em torno de 4,9 pesos.

"A crise no setor de construção, no setor de compra e venda de imóveis e a inflação, palavra tabu para o governo, fazem parte dos motivos da desconfiança dos argentinos, o que reflete na alta do dólar no paralelo", disse Scibona.

FMI

O acordo do governo com os supermercados foi feito logo após o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter feito uma advertência ao país devido a suas estatísticas econômicas oficiais.

O organismo pediu que a Argentina "adote medidas de correção diante da falta de precisão de seu Índice de Preços e dados do Produto Interno Bruto (PIB) até o dia 29 de setembro de 2013".

Caso não siga a recomendação do órgão, a Argentina pode eventualmente ser até mesmo expulsa do FMI.

O ministro da Economia, Hernán Lorenzino, criticou as "receitas" do FMI e informou que um novo índice de inflação deverá ser lançado este ano.

A postura do Fundo também foi rejeitada pela presidente Cristina Kirchner, que em uma série de comentários em sua conta de Twitter, reprovou o organismo internacional.

No fim de janeiro, a presidente criticou empresários que ajustaram preços nos balneários argentinos nesta temporada de verão, o que foi interpretado pelos analistas locais como uma "forma de reconhecer" que a inflação também "preocupa" o governo.

"É preciso começar a usar o poder de usuários e de consumidores. Ah, querem me cobrar este preço? Não compro. É o consumidor, o usuário que tem que defender seus direitos", disse a presidente há dez dias.

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