Contratação de jogadores islâmicos por clube israelense revolta torcedores

Atualizado em  7 de fevereiro, 2013 - 08:38 (Brasília) 10:38 GMT
Jogadores do Beitar Jerusalém | Foto: Beitar Jerusalém

Contratação de Gabriel Kadiev (esq.) e Zaur Sadayev causou fúria de torcedores israelenses

Um dos principais times de futebol de Israel pediu ajuda à Justiça e à polícia para conter manifestações racistas de sua torcida, após a contratação de dois jogadores muçulmanos provenientes da Chechênia, república russa de maioria muçulmana que foi palco de duas guerras no passado.

Os jogadores, Gabriel Kadiev e Zaur Sadayev, foram contratados a pedido do proprietário do Beitar Jerusalem, o magnata russo Arcadi Gaydamak.

De acordo com a imprensa israelense, a contratação seria ligada a interesses econômicos de Gaydamak, que faz negócios com a Chechênia.

A admissão dos jogadores despertou a fúria de um grupo organizado de torcedores, denominado "La Familia", cuja principal bandeira é o ódio a árabes e a muçulmanos.

Protestos e ameaças

Na semana passada, membros do grupo ergueram um cartaz com os dizeres "Beitar permanecerá puro para sempre", durante uma partida em protesto contra a contratação dos jogadores muçulmanos.

Em vista das manifestações racistas e de ameaças de morte contra o diretor e o técnico do time, os jogadores chechenos passaram a ser acompanhados por seguranças 24 horas por dia.

"Pedimos que a procuradoria e a polícia agilizem a detenção e punição dos torcedores que se comportam de maneira racista e violenta durante os jogos e os treinamentos do Beitar", disse o porta-voz do time, Assaf Shaked, à BBC Brasil.

De acordo com Shaked, "depois do que Kadiev e Sadayev passaram pela guerra na Chechênia durante a infância, não será um punhado de gritalhões que conseguirá intimidá-los".

Desde a chegada dos jogadores chechenos, membros do grupo "La Familia" têm comparecido aos treinamentos gritando slogans racistas como "morte aos árabes".

'Muçulmanos da Europa'

O técnico do grupo, Eli Cohen, causou polêmica ao tentar acalmar os torcedores afirmando que os novos jogadores do time são "muçulmanos da Europa, diferentes dos muçulmanos árabes do Oriente Médio, com os quais temos problemas".

Cohen não conseguiu acalmar a fúria dos membros do "La Familia" e também recebeu uma carta do advogado da Associação de Futebol o advertindo de que poderia ser acusado de incitamento contra árabes.

Essa não é a primeira vez em que a torcida do Beitar Jerusalem é acusada de racismo.

O fenômeno se repete a cada vez que o time, que foi campeão nacional duas vezes desde 1999 e está em sexto lugar na atual temporada, joga contra um time árabe ou contra qualquer equipe que tenha jogadores árabes.

Perseguição

O comportamento do grupo também vai além dos estádios de futebol.

Em março de 2012, cercas de 300 integrantes do "La Familia" invadiram um shopping center perto do estádio do clube em Jerusalém e espancaram funcionários árabes no local.

De acordo com os relatos da mídia local, houve atos de hostilidade contra qualquer pessoa identificada como árabe que estava no shopping center naquele momento, inclusive contra mulheres e crianças. A agressão só foi contida depois de cerca 40 minutos, quando a policia chegou e pôs fim à violência, prendendo alguns dos responsáveis.

Ódio

Um dos membros do "La Familia", que se identificou apenas como "M", disse ao jornal Israel Hayom que "não tenho vergonha de dizer que odeio árabes, eles são inimigos do nosso Estado e obviamente também são inimigos do Beitar. Quem pensa que concordaremos que haja um jogador árabe ou muçulmano no Beitar não entende nada, faremos tudo que for necessário para impedir que isso aconteça".

Nos últimos dias, a polícia prendeu dezenas de membros do grupo, identificados a partir de vídeos gravados durante os jogos, em que foram vistos gritando slogans ou levantando cartazes com dizeres racistas.

A polícia também proibiu 50 dos torcedores de assistirem aos jogos do Beitar até o fim do campeonato nacional.

O procurador geral da Justiça, Yehuda Weinstein, declarou que pretende tomar "medidas duras" contra as manifestações racistas no Beitar, as quais qualificou como "inaceitáveis".

De acordo com a lei, a pena máxima para casos de violência e racismo nos estádios é de dois anos de prisão.

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