Lucas Mendes: Num reino murilíssimo

Atualizado em  7 de fevereiro, 2013 - 10:13 (Brasília) 12:13 GMT

Em Juiz de Fora, "nasceram dois dos maiores escritores brasileiros do século 20: Murilo Mendes e Pedro Nava", escreve Rachel Jardim, juiz-forana, mineira da memória e do tempo.

O livro da Rachel, Num Reino à Beira do Rio, foi lançado em segunda edição, com uma nova apresentação de Pinho Neves, um murilista extraordinário. A edição tem parceria com o não menos extraordinário Museu de Arte Moderna Murilo Mendes da Universidade Federal de Juiz de Fora, cujas sementes brotaram num jantar em Lisboa na casa de Rachel Mendes, sobrinha-neta do poeta.

Estavam presentes, entre outros, o embaixador José Aparecido e outros murilistas empenhados em convencer a viúva do poeta, Maria da Saudade, a levar seus quase 3 mil livros - muitos em primeira edição - e a pinacoteca dele para Juiz de Fora. Mas isto é outra história.

Pedro Nava e Murilo Mendes não sentiram saudades de Juiz de Fora, mas a cidade aparece como pano de fundo na Idade do Serrote, um livro autobiográfico publicado em 1968.

O livro da Rachel faz parte da série "Sabor Literário", criada em 2006 e aos cuidados da editora Maria Amélia Mello, da José Olympio. Saborosíssimo.

O livro da Rachel Jardim é uma doce viagem. A mãe dela, Maria Luiza, era belíssima. Ela e Murilo Mendes eram vizinhos na rua da Imperatriz, ela tinha 17 e ele 18 anos quando Maria Luiza pediu a Murilo Mendes para transcrever algumas poesias no caderno literário dela.

Isto era comum entre amigos e namorados na época, o ano é 1919, e Murilo, com uma caligrafia preciosa, deixou no livro da irresistível vizinha, 37 poemas de 27 poetas apaixonados, como ele. Na recatada Juiz de Fora, puramente platônicos.

Ele se mudou para o Rio aos vinte anos, onde se viram algumas vezes, mas o romance murchou e ela nunca apareceu nos versos nem na prosa de Murilo. Quando morreu, aos 88 anos, deixou um envelope com seu caderno de poemas.

Esta é a plataforma do livro em que Rachel nos lança por uma surpreendente Juiz de Fora romântica e industrial, das jabuticabas, dos biscoitos de polvilho, onde gente fina e empregadas negras viviam em per feita harmonia: "A cidade que conheci tinha o tom vermelho, como a Albi de Toulouse-Lautrec, como a Nova York do começo do século 20, com suas casas de brownstones (influência da velha New Amsterdam), da própria Manchester com suas casas e fábricas de tijolos vermelhos reelaborados e ornamentados (ver colégio Santa Catarina) pela firma Pantaleone Arcuri. As manhãs eram uma festa..."

Rachel Jardim saiu de Juiz de Fora ainda jovem e quando voltou no reconheceu a cidade. Eu nunca conheci esta Juiz de Fora por onde passei tantas vezes com a família para ir ao Rio e raramente parávamos para visitar outros Mendes. Não ter conhecido melhor a cidade não é um pecado grave, mas não me perdoo por não ter conhecido melhor meu tio Murilo.

Ele vivia no Rio e era endeusado pelos parentes. Minha mãe falava sempre nele, mas nunca nos levou para visitá-lo quando estávamos no Rio. Não era um tio fácil. Eu o descobri na adolescência, no poema Por Causa de Jandira: "O mundo começava nos seios de Jandira/Depois surgiram outras peças da criação". Para um jovem obcecado com sexo, aquele Mendes era dos meus.

Só uma vez minha conexão com ele não foi pelos livros. Ele tinha acabado de chegar ao Rio, vindo de Roma, onde morava, e eu, de Nova York. O tio escritor e guru, José Guilherme Mendes, promoveu o encontro, num almoço no hotel Paissandu, único hotel onde se hospedava. Era maniado.

No almoço surgiu um quarto convidado, um editor da revista Veja que fazia uma entrevista com ele para as "páginas amarelas". As considerações literárias e artísticas do poeta, colecionador e crítico de arte, dominaram a refeição. Nunca chegamos no prato pessoal. Como era o dia a dia dele em Roma, como tinha sido a vida no Rio e em Juiz de Fora...

As muriladas: era verdade que bateu na porta de um casarão e disse ao dono que morava na casa mais feia do Rio? Que abria o guarda-chuva no meio de concertos quando maltratavam Mozart? Quem era a Jandira dos seios onde começou o mundo?

Eu me lembro que fiz um comentário debochado sobre Minas levei um olhar indagativo repreensivo e fechei meu bico.

Combinamos que iria visitá-lo em Roma e ele disse que viria a Nova York, mas o bestalhão aqui nunca foi adiante no combinado e naquele dia ele foi para Belo Horizonte, onde se hospedou na casa de meus pais. Minha mãe estava feliz com a visita, o irmão Onofre se tornou assistente e motorista.

No começo da noite, perguntou se o tio queria tomar um uísque. Ele consultou o relógio de bolso: "São sete e cinco. Se fossem 7 horas eu aceitaria". Mais tarde, ele ficou assombrado com a rapidez que foi levado pelo irmão, num Fusca, até a casa de um amigo. Os aloprados motoristas romanos eram menos assustadores do que o sobrinho-neto mineiro.

Pedro Nava e Murilo Mendes tinham quase a mesma idade e cresceram numa cidade pequena. Na infância não se cruzaram. Pedro Nava mudou para o Rio na adolescência, se encontraram no Rio. Cobrei, por escrito, uma resposta de Pedro Nava: "Cadê o Murilo nas suas memórias?". Me deu uma resposta fina, mas frouxa. Rachel conta a história: não se amavam.

Tio Murilo economizava palavras, mas tio José Guilherme me contou que ele adorava superlativos e costumava usá-los em bilhetes e situações extremas. Sempre com precisão.

Sobre Num Reino à Beira do Rio, Murilo Mendes, inventor dos murilogramas, hoje teria tuitado: "Murilíssimo".

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