Repórter da BBC relata impacto de batalha crucial na Síria

Atualizado em  14 de fevereiro, 2013 - 14:51 (Brasília) 16:51 GMT

Imagem de arquivo mostra bombardeio a bairro de Baba Amr, destruído após 25 dias de ataques

Um ano atrás, neste mesmo mês, o Exército da Síria lançava uma de suas ofensivas mais intensas desde o início da guerra civil no país. O alvo era o bairro de Baba Amr, na cidade de Homs, e embora o objetivo fosse aniquilar os rebeldes baseados no local, milhares de civis amargaram as consequências dos ataques constantes que duraram mais de três semanas.

O correspodente da BBC Paul Wood, que era um dos poucos jornalistas estrangeiros em Baba Amr na época, conversou com pessoas que abandonaram a cidade durante a ofensiva e que agora são refugiados de guerra.

Ao narrar alguns dos depoimentos, ele acrescenta suas impressões sobre o que acabou se tornando um dos pontos-chave do conflito entre as tropas do presidente Bashar al-Assad e os rebeldes que exigem sua renúncia e que já dura quase dois anos:

Eu presenciei a ofensiva, como parte de uma pequena equipe da BBC. Na época, lembro-me que todos em Baba Amr nos disseram estar convencidos de que os bombardeios do governo acabariam trazendo ajuda externa.

Omar Shakir, um ativista no centro de mídia de Baba Amr e agora refugiado na cidade libanesa de Trípoli, relembra o clima de otimismo, mesmo enquanto artilharia pesada era lançada contra o bairro.

"Após alguns dias da operação [do Exército do regime], nós fizemos um plano. Escrevemos no nosso quadro. Escrevemos que no fim das contas Baba Amr seria o fim de Assad. Achávamos que a mídia faria transmissões ao vivo e que a Otan [aliança militar ocidental] viria imediatamente e destruiria os lançadores de mísseis do regime. Todas as pessoas pensavam assim", diz.

"É óbvio que o Exército Livre da Síria não está recebendo quase nada do exterior. É como se a comunidade internacional quisesse prolongar o conflito, para enfraquecer e destruir o país. Nosso povo está pronto para tudo e para qualquer coisa. Já são dois anos e eles estão prontos para mais dois anos. Até mais"

Ahmed Idriss, primo de um dos líderes rebeldes

Mas essa crença se evaporou quando o Exército tomou o controle do distrito.

"O mundo inteiro assistiu enquanto éramos estraçalhados", afirma Ahmed Idriss, ativista humanitário e também refugiado.

"É claro que culpamos a comunidade internacional por isso. Mas agora não importa mais, não esperamos mais a ajuda deles. Agora colocamos nossa fé em Deus e no Exército Livre da Síria [denominação das tropas rebeldes]", acrescenta.

Críticas aos rebeldes

O bairro de Baba Amr, que até então era símbolo de resistência, caiu após 25 dias de intensos bombardeios aéreos e finalmente a entrada de tanques de guerra das tropas de Assad.

Os rebeldes acabaram colocando em prática o que chamaram de "retirada tática", sob críticas de parte da população, que acusou os opositores de terem escolhido uma batalha impossível de ser vencida, e defendeu que muitas vidas poderiam ter sido poupadas caso eles tivessem abandonado a luta logo no início.

Hospital em Baba Amr | Foto: Reuters

Hospital improvisado foi uma das cenas mais chocantes da batalha em Baba Amr, diz repórter

Por outro lado, parte da população criticou os rebeldes por terem fugido.

Para eles, mesmo sem ajuda estrangeira, ao manter os confrontos a todo custo o Exército Livre da Síria poderia ter, eventualmente, obtido a queda do regime de Assad.

'Batalha de um lado só'

Mas, na verdade, o confronto em Baba Amr foi uma "batalha de um lado só".

Os bombardeios aéreos começavam às 6h da manhã e continuavam até o anoitecer, sem interrupções. A situação era tão terrível que os rebeldes precisavam sair de seus esconderijos durante a noite para enterrar seus mortos.

"O mundo inteiro assistiu enquanto éramos estraçalhados"

Ahmed Idriss, primo de um dos líderes rebeldes

Se as pessoas tentassem deixar a região, eram baleadas por atiradores de elite do governo. Ficamos horas e horas em um hospital improvisado que estava sendo administrado por voluntários sem treinamento cirúrgico.

Víamos morteiros caindo na rua do lado de fora enquanto mulheres corriam pelos corredores gritando.

Um menino de 11 anos foi trazido às pressas, seu queixo havia sido quebrado durante uma explosão. Tudo abaixo do seu nariz estava despeçado e ensanguentado. Ele ainda estava consciente e olhou para nós, apavorado. Morreu no dia seguinte.

Resistência

Ahmed Idriss, refugiado que é primo do capitão Mohammed Idriss, um dos líderes dos rebeldes na batalha em Baba Amr, critica a comunidade internacional e reafirma a resistência da revolução.

"É óbvio que o Exército Livre da Síria não está recebendo quase nada do exterior. É como se a comunidade internacional quisesse prolongar o conflito, para enfraquecer e destruir o país. Nosso povo está pronto para tudo e para qualquer coisa. Já são dois anos e eles estão prontos para mais dois anos. Até mais", diz.

"Um menino de 11 anos foi trazido às pressas, seu queixo havia sido quebrado durante uma explosão. Tudo abaixo do seu nariz estava despeçado e ensanguentado. Ele ainda estava consciente e olhou para nós, apavorado. O garoto morreu no dia seguinte"

Paul Wood, repórter da BBC

Nesses dois anos de guerra civil aos quais o ativista se refere, ao menos 60 mil pessoas já foram mortas na Síria e cerca de 2,5 milhões abandonaram suas casas.

E embora não tenha ficado tão claro na época, a queda de Baba Amr foi um divisor de águas no conflito.

Milhares juntaram-se aos rebeldes, e mais e mais grupos opositores foram surgindo. Um deles, na cidade de Idlib, se auto-intitulou "Vingança pela Brigada de Baba Amr".

E com o fim da batalha a Síria se afundou na guerra civil que perdura até hoje e que, para os ativistas, terminará com apenas um desfecho: a queda do regime.

Para o refugiado Omar Shakir, as atrocidades no bairro de Homs representaram um alerta de que as mudanças no país custariam caro à população, e que muitos acabariam pagando com a própria vida.

"Quando Baba Amr caiu, houve manifestações por toda a Síria. Finalmente, as pessoas entenderam que o regime jamais cairá de forma pacífica, sem lutar. Nós mudamos o curso da revolução", diz.

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