O que o continente espera das eleições no Equador?

Atualizado em  17 de fevereiro, 2013 - 10:58 (Brasília) 13:58 GMT
Votação no Equador (AFP)

Eleitores vão escolher legisladores e presidente; Rafael Correa é favorito à reeleição

O Equador vai às urnas neste domingo para eleger seu presidente e os parlamentares da Assembleia Nacional, em um pleito que tem Rafael Correa como favorito à reeleição.

Com uma oposição desarticulada e altos índices de popularidade, Correa poderá garantir sua vitória já no primeiro turno.

Veja o que outros países do continente - inclusive o Brasil - esperam do pleito e quais setores empresariais estão de olho nos resultados eleitorais:

Brasil

O governo brasileiro aposta na reeleição de Correa para avançar em projetos regionais nos quais o Brasil mantenha sua liderança - como a Unasul e a ampliação do Mercosul -, apontam analistas.

"O Brasil acompanha as eleições acreditando que haverá uma continuidade, importante para as relações (bilaterais), para o projeto da Unasul e para a possibilidade de o Equador seguir os passos da Venezuela e da Bolívia e aderir ao Mercosul", diz à BBC Mundo Paulo Velasco, especialista em relações internacionais da Universidade Cândido Mendes (RJ).

Correa manifestou interesse em avaliar a adesão ao bloco regional, mas disse que seu país deve estudar bem o impacto disso em sua economia, dolarizada desde 2000.

Apesar de rusgas nas relações bilaterais, como a polêmica envolvendo a Odebrecht na construção de uma hidrelétrica equatoriana, Velasco avalia que os laços entre Brasília e Quto foram "bastante positivos" nos últimos anos.

Gerardo Lissardy, BBC Mundo, Rio de Janeiro



Venezuela

Num momento de polarização da sociedade venezuelana, as eleições equatorianas são vistas de maneiras divergentes entre a população, opina o ex-diplomata Julio Pinedo.

"O que ocorre na Bolívia, no Equador e na Nicarágua (países com governos esquerdistas alinhados com Hugo Chávez) também divide a opinião pública venezuelana", afirma Pineda.

"Simpatizantes da oposição querem que Correa perca porque, no fundo, ele está copiando o modelo venezuelano. (Chavistas) certamente estão alinhados com Correa, por causa dos pactos e acordos (bilaterais), sobretudo no âmbito da Alba (Aliança Bolivariana)."

Abraham Zamorano, BBC Mundo, Caracas

Argentina

No caso da Argentina, o interesse nas eleições passa pela possibilidade de manter um aliado político no chamado bloco de países progressistas da região, noção que inclui Bolívia, Venezuela, Nicarágua, Uruguai e até o Brasil.

Cristina Kirchner, presidente da Argentina, e Correa mantêm há anos uma relação amistosa. Foi Correa quem impulsinou o falecido ex-presidente Néstor Kirchner como primeiro presidente da Unasul, a União das Nações Sul-Americanas, em 2008.

As trocas comerciais bilaterais não são expressivas em âmbito regional (são inferiores a US$ 500 milhões, com superávit amplamente favorável à Argentina).

Mas um tema de fundo que afeta ambos é o processo judicial que um grupo de indígenas da Amazônia equatoriana levou a tribunais argentinos, pedindo a expropriação dos ativos da petroleira Chevron na Argentina, em decorrência de acusações de contaminação ambiental.

Como a Chevron recentemente assinou um acordo com a estatal argentina YPF para aumentar a produção de hidrocarburos, a demanda dos índios equatorianos se tornou um tema incômodo para a Casa Rosada.

Vladimir Hernández, BBC Mundo, Buenos Aires



Colômbia

Apesar de os dois países compartilharem uma extensa fronteira e de cerca de 55 mil colombianos estarem refugiados no Equador, as eleições equatorianas são acompanhadas na Colômbia com interesse menor do que o recente pleito na Venezuela.

"Sempre houve uma espécie de arrogância histórica (por parte dos colombianos), que muitas vezes subestimam os impactos do que ocorre no Equador, tanto em (âmbito) político como econômico", opina Eduardo Pastrana, professor de relações internacionais da Universidade Javeriana de Bogotá.

Esse desinteresse, diz o acadêmico, também resulta da sensação de estabilidade projetada pelo Equador e das boas relações entre os dois países desde que eles reataram seus laços diplomáticos em novembro de 2010.

As relações entre Bogotá e Quito estavam rompidas desde 2008, depois que as Forças Armadas colombianas bombardearam um acampamento das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano.

E a porosidade da fronteira é uma das razões pelas quais Bogotá se interessa em manter bons laços com Quito. A atual agenda bilateral inclui também temas de infraestrutura, segurança (o que vale para a guerra ao narcotráfico), meio ambiente, turismo e comércio.

"Atualmente há confiança pragmática entre os dois lados, sem que desapareçam as dúvidas e os rancores do passado", opina Pastrana.

Arturo Wallace, BBC Mundo, Bogotá



EUA

O desinteresse de Washington perante a América Latina explica o desinteresse pelo pleito equatoriano.

Ainda assim, o governo Barack Obama já fez críticas em voz baixa ao trato dado à imprensa pelo governo equatoriano e à retórica anti-EUA de Rafael Correa.

Mas, apesar das asperezas na relação bilateral, o contato entre EUA e Equador nunca foi rompido. O vizinho do norte segue sendo um importante mercado para o Equador, que também precisa de especialistas e de tecnologia estrangeiros para explorar seus recursos naturais.

Ainda que analistas coincidam que os minutos (ou segundos) dedicados por Obama ao Equador sejam mínimos, a impressão é de que as relações podem e tendem a melhorar.

William Márquez, BBC Mundo, Washington



Petroleiras e mineradoras

As petroleiras e mineradoras estrangeiras que lidaram com o governo Correa nos últimos seis anos devem acompanhar de perto as eleições deste domingo, por conta das duras condições de negociação impostas pelo presidente.

"As empresas estrangeiras certamente esperam uma negociação mais equilibrada. Caso ganhe Correa, isso ocorrerá parcialmente, pela necessidade do governo em ampliar a fronteira petrolífera e mineradora do país para gerar mais recursos ao Estado", opina Pablo Lucio Paredes, diretor do Instituto de Economia de la Universidade San Francisco, de Quito.

"Atualmente, (o Estado) ganha maior porcentagem da renda do petróleo, mas tem menos produção e necessita usar recursos próprios para investir, em vez de dinheiro privado", continua Paredes.

"Na mineração, ainda que o governo tenha mostrado interesse em impulsar o setor, os avanços são pobres pelas mesmas razões: condições muito duras de negociação."

O presidente da Câmara de Indústria e Produção de Quito, Pablo Dávila, afirma que "o atual governo baseou sua política na maior presença do setor público na atividade econômica e no maior controle sobre o planejamento produtivo".

Para ele, apesar de o governo ter como meta a transição do atual modelo para um de exportações de produtos com valor agregado (em vez de apenas commodities), "essa mudança de matriz e do modelo exportador não ocorreu por causa dos baixos níveis de investimento tanto nacional quanto estrangeiro, por conta principalmente da instabilidade jurídica (no Equador)".

"Esperamos que o governante eleito construa um entorno favorável, em que a atividade privada se desenvolva de forma competitiva", agrega.

Matías Zibell, BBC Mundo, Cuenca



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