Banqueiro cria guia universal de pronúncia para melhorar entendimento entre povos

Atualizado em  21 de fevereiro, 2013 - 07:21 (Brasília) 10:21 GMT
Placa em Belgrado (Sérvia) em alfabeto cirílico e tradução ao inglês (MZaplotnik/WikiCommons)

Placa em Belgrado (Sérvia) em alfabeto cirílico e tradução ao inglês; para criador de alfabeto fonético, mal-entendidos linguísticos distanciam as pessoas

Você está no Vietnã e quer um prato de sopa. Pergunta a um local onde pode conseguir uma "pho". Após uma confusão momentânea, em vez de receber a sopa que queria, você recebe um livro.

É a maldição da fonética. "Pho" é a palavra certa para designar sopa em vietnamita. Mas, como faltou você enfatizar a vogal, acabou dizendo "cópia" (de livro).

O inglês tem mais armadilhas ainda. Há palavras de grafia igual - "desert", por exemplo - que com diferentes pronúncias tem diferentes significados (desertar ou deserto).

A ideia de buscar um entendimento fonético existe há mais de um século, sendo advogada por escritores como Charles Dickens e George Bernard Shaw (este último deixou muito de sua herança para um projeto de criação de um novo alfabético fonético).

Hoje, a causa foi encampada pelo sírio Jaber George Jabbour, um banqueiro que mora no Reino Unido. Ele criou o SaypU (Projeto Universal Soletre como Você Pronuncia, www.saypu.com), um guia colaborativo de pronúncia de palavras estrangeiras (chicken - frango, em inglês -, por exemplo, vira tshikɘn; o site anuncia para breve uma tradução para palavras em português).

O SaypU contém 23 letras do alfabeto romano, bem como um "e" invertido, que equivale a um "a" mais suave. Não há c, q ou x.

Viajante frustrado

As traduções fonéticas do SaypU

Veja como ficam algumas palavras do idioma inglês:

Agree (concordar) vira ɘgrii

Exit (saída ou sair) vira egzit

Like (gostar) vira layk

Same (mesmo) vira seym

Father (pai) vira faathɘr

New (novo) vira nyuu

Vision (visão) vira vijɘn

Jabbour é um viajante frustrado, por nunca poder pronunciar as palavras que via em cartazes, cardápios ou sinais de rua nos países que visitava.

Em sua primeira passagem por Londres, se frustrou ao pedir informações sobre a famosa praça Leicester, já que os britânicos não pronunciam todas as sílabas da palavra - dizem "Lester".

Para Jabbour, esse tipo de mal-entendido cria uma barreira. Em países como Índia e China, o alfabeto diferente cria uma barreira entre locais e visitantes.

Esses mal-entendidos já inflamaram tensões entre países. Durante a Guerra Fria, causou furor uma frase do líder soviético Nikita Kruschev dirigida aos EUA, traduzida como "vamos enterrá-los". Na verdade, a frase de Kruschev tinha um significado muito mais sutil do que a destruição dos EUA.

Hoje, com programas de tradução cada vez mais precisos, a barreira fica sendo a fonética, defende Jabbour.

"Se as pessoas falam e pronunciam da mesma forma, se aproximam entre si. Acho que um mundo com um único alfabeto seria mais pacífico."

Trata-se de uma variação quixotesca do Esperanto, a língua internacional que nunca conseguiu se popularizar.

O site do SaypU tem atualmente 10 mil palavras que podem ser traduzidas ao novo alfabeto. Assim como a Wikipédia, usuários podem sugerir pronúncias e novas palavras.

Ceticismo

SaypU (Foto: Reprodução)

Página do SaypU, que promete para breve traduções do português

Mas como lidar, por exemplo, com as diferentes pronúncias do inglês entre americanos e britânicos?

Sotaques diferentes não devem ser padronizados, defende Nicholas Ostler, presidente da Fundação de Línguas Ameaçadas, que se diz cético com novas empreitadas fonéticas, que já foram tentadas antes.

Ele explica que o SaypU terá dificuldades com idiomas do Cáucaso, que têm cinco ou seis formas de pronunciar o "k", ou com línguas sul-africanas em que sons guturais têm um papel importante.

Há também quem cite dificuldades práticas. "A ideia de começar algo (que abranja) todas as línguas parece exagerada", opina Masha Bell, autora de Understanding English Spelling, para quem seria mais apropriado concentrar as forças em reformar a pronúncia do inglês.

Jabbour, por sua vez, diz que não está tentando reformar o fluxo dos idiomas, apenas "redirecioná-lo". Quer que seu alfabeto complemente as línguas, como se fosse legendas, tornando-se talvez daqui a alguns séculos, uma espécie de alfabeto internacional.

Mas Henry Hitchings, autor de Language Wars, vê "utopia" na ideia.

"Projetos linguísticos utópicos, em que um sistema artificial é apresentado como uma alternativa ao que é desenvolvido naturalmente (pelos falantes) tende a falhar. As pessoas estão fortemente ligadas às distinções e às idiossincrasias das línguas que usam."

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