Saiba mais: A escolha do novo papa

Atualizado em  28 de fevereiro, 2013 - 13:13 (Brasília) 16:13 GMT

Quantos católicos há no mundo?

Há estimados 1,2 bilhão de católicos romanos no mundo, segundo dados do Vaticano. Mais de 40% dos católicos do mundo estão na América Latina, mas é a África que registrou o maior aumento no número de seguidores do catolicismo nos últimos anos.

A América Latina abriga 483 milhões de católicos e quatro dos dez países com a maior população católica.

O Brasil é o país com maior número de católicos, com mais de 150 milhões de católicos, ou 12,5% de todos os fiéis da religião, segundo a Enciclopédia Cristã Mundial (há, no entanto, estimativas de que essa quantidade seja menor: o Censo do IBGE calcula o número de católicos do Brasil em 123 milhões; e o centro americano Pew, em 134 milhões).

Na Europa, a Itália é que tem a maior quantidade de católicos: 57 milhões. Na África, esse posto fica com a República Democrática do Congo, com quase 36 milhões de seguidores do catolicismo.

Rumo ao sul

Desde 1970, o catolicismo avançou rumo ao sul: a proporção de católicos vivendo na Europa declinou, enquanto a África vivenciou um aumento de católicos: de 45 milhões, em 1970, para 176 milhões, em 2012.

Na Ásia o catolicismo também aumentou, e o continente abriga hoje cerca de 12% da população católica do mundo, o que equivale a 137 milhões de pessoas.

Cardeais eleitores

A eleição que vai definir o novo papa contará com a participação de 115 cardeais eleitores.Sessenta e sete deles foram nomeados por Bento 16, e 60 deles são europeus - 21 deles, italianos.

Há também 19 latino-americanos, 14 americanos, 11 africanos, dez asiáticos e um cardeal da Oceania entre os eleitores.

Dez deles foram identificados por analistas como favoritos - incluindo três europeus -, mas especula-se que o novo pontífice possa vir da América Latina ou da África.

A eleição do novo papa

Com a renúncia do papa Bento 16, cardeais de todo o mundo participarão de um encontro no Vaticano que será seguido pela escolha do novo pontífice, processo conhecido como conclave.

Os cardeais, como são conhecidos os membros do mais alto círculo na hierarquia da Igreja Católica, são usualmente bispos elevados à tal condição pelo próprio papa.

Há atualmente 203 cardeais em 69 países do mundo. As regras para a convocação do conclave mudaram em 1975 e excluíram da votação todos os cardeais acima de 80 anos.

O número máximo de cardeais votantes é 120.

Durante o conclave, haverá, entretanto, apenas 115 cardeais eleitores: eles ainda não completaram 80 anos e, portanto, estão aptos a votar.

Havia 118 cardeais aptos a votar na época da renúncia do papa, mas o cardeal Lubomyr Husar, arcebispo emérito de Kiev (Ucrânia), fez 80 anos antes de a renúncia ser efetivada, nesta quinta-feira, e por isso será excluído da votação.

Em 21 de fevereiro, o cardeal Julius Riyadi Darmaatmadja, 78, arcebispo de Jacarta (Indonésia), avisou que não viajaria a Roma para votar, por conta da "progressiva deterioração" de sua visão.

E a renúncia do mais alto clérigo católico britânico, o cardeal Keith O'Brien, em 25 de fevereiro - após alegações, que ele nega, de comportamento impróprio -, também o exclui do conclave.

Normalmente, o decano do Colégio dos Cardeais ficaria responsável por convocar o conclave. No entanto, como o atual cardeal-decano, o italiano Angelo Sodano, tem 85 anos e está muito velho para votar, o cardeal-eleitor mais velho, Giovanni Battista Re, assume tal responsabilidade.

A lei canônica prevê que qualquer pessoa batizada seja elegível ao cargo de papa, mas nos últimos 600 anos os pontífices têm sido sempre escolhidos entre os cardeais.

Isolamento

Durante a ausência entre a renúncia do papa e a eleição de seu sucessor, o Colégio dos Cardeais governará a Igreja, encabeçado pelo cardeal Tarcisio Bertone, conhecido pelo título de "camerlengo", responsável pela administração da Santa Sé.

Bertone ficará encarregado de supervisionar todo o processo eleitoral, com votos secretos sendo registrados quatro vezes diariamente dentro da Capela Sistina, no Vaticano.

Durante o conclave, os cardeais morarão no Vaticano e não será permitido qualquer contato deles com o mundo exterior.

Na reunião, todos eles, incluindo os aposentados, discutirão em segredo os méritos dos prováveis candidatos.

Segundo o Vaticano, os cardeais são guiados pelo Espírito Santo. Mas embora uma campanha pública seja proibida, a eleição papal ainda é um processo altamente político.

Os encarregados pela coalizão têm duas semanas para forjar alianças, e acredita-se que os cardeais mais velhos, apesar de terem menos chances de se tornarem pontífices, reúnem maior poder de influência.

CLICKABLE

Angelo Scola, Itália

O cardeal Angelo Scola, 71, é o mais proeminente candidato italiano. É um conservador, que foi próximo tanto de João Paulo 2º quanto de Bento 16.

Christopher Schoenborn, Áustria

O cardeal Schoenborn, arcebispo de Viena, é provavelmente o mais forte dos candidatos não-italianos na Europa. É visto como um conservador, oriundo de uma família de ocupantes de altos postos na Igreja.

Gianfranco Ravasi, Itália

O cardeal Ravasi, 70, preside há 5 anos o Pontifício Conselho de Cultura - ou Ministério da Cultura do Vaticano. É visto como moderado, mas não tem experiência global.

Odilo Scherer, Brasil

O arcebispo de São Paulo, de 63 anos, é o mais proeminente candidato latino-americano. Seu nome é visto como uma escolha que agradaria tanto congregações europeias como latino-americanas.

Leonardo Sandri, Argentina

O cardeal Sandri, 63, nasceu em Buenos Aires de pais italianos. Entre 2000 e 2007, foi o terceiro no comando do Vaticano, servindo de chefe de gabinete.

João Braz de Aviz, Brasil

Educado no Brasil, ele concluiu seus estudos eclesiásticos na Itália. Hoje tem 65 anos. Como jovem padre, foi ferido à bala em um assalto e ainda tem fragmentos alojados em seu corpo.

Timothy Dolan, EUA

O cardeal Dolan, 62, é arcebispo da influente Arquidiocese de Nova York. No entanto, cardeais são tradicionalmente resistentes a promover nomes saídos de um Estado superpotência.

Marc Ouellet, Canadá

O cardeal Ouellet, 68, lidera desde 2010 a Congregação de Bispos. Suas ideias são consideradas próximas das de Bento 16.

Peter Turkson, Gana

Nascido no oeste de Gana em 1948, Turkson se tornou em 2003 o primeiro cardeal de seu país, ao ser nomeado por João Paulo 2º. Ele é relator, ou secretário-geral, do Sínodo para a África - os dois papas mais recentes foram relatores.

Luis Tagle, Filipinas

Aos 55 anos, Luis Tagle é um dos candidatos mais jovens. É arcebispo de Manila, uma arquidiocese de 2,8 milhões de seguidores, e se tornou cardeal há poucos meses, em novembro de 2012.

Conclave secreto

A eleição de um papa é conduzida em condições de confidencialidade singular no mundo moderno.

Os cardeais permanecem fechados no Vaticano até chegarem a um consenso - o próprio significado da palavra conclave indica que eles literalmente estão trancados "com uma chave".

O processo de eleição pode levar dias. Em séculos anteriores, a escolha levava semanas ou meses e alguns cardeais até morriam durante os conclaves.

O sistema é designado para impedir que qualquer detalhe sobre a votação venha a público, durante ou depois do conclave. Quem quebrar o silêncio pode ser imediatamente excomungado.

O penúltimo papa, João Paulo 2º, mudou as regras do conclave para que seu sucessor pudesse ser eleito com maioria simples (50% dos votos mais um) após cerca de 12 dias de votação inconclusiva.

Mas Bento 16 mexeu novamente no arcabouço regulatório e determinou que o pontífice seja eleito com pelo menos dois terços da maioria.

Antes de que a votação comece na Capela Sistina, a área inteira é inspecionada por especialistas em segurança para garantir que não há microfones ou câmeras escondidas.

Assim que o conclave começa, os cardeais comem, votam e dormem até que o novo pontífice seja escolhido.

Eles são proibidos de ter qualquer contato com o mundo exterior, o que impede, por exemplo, o resgate em caso de uma emergência médica. Todos os aparelhos de rádio e TV são removidos, os jornais e revistas, banidos, e os celulares, proibidos.

Dois médicos acompanham o conclave, assim como padres que podem ouvir confissões em várias línguas e funcionários da limpeza.

Todo esse efetivo tem de jurar manter o processo sob segredo e não usar nenhum equipamento de gravação de som ou vídeo.

Rituais de votação

No dia em que o conclave começa, os cardeais celebram uma missa matinal antes de caminhar em procissão rumo à Capela Sistina.

Ao entrar na área do conclave, os cardeais têm de jurar segredo. Daí, em latim, o comando em latim extra omnes ("todos para fora") instrui a todos os que não estão envolvidos na eleição a sair do local e fechar as portas.

Os cardeais têm a opção de fazer uma única votação na tarde do primeiro dia. A partir do segundo, duas votações acontecem durante a manhã e duas, durante a tarde.

O papel do voto é retangular. Impressas na metade superior estão as palavras Eligio in Summum Pontificem ("eu elejo como sumo pontífice"); na metade inferior está o espaço para o nome da pessoa escolhida pelo votante. Os cardeais são instruídos a escrever de forma a não serem identificados, e o papel é dobrado duas vezes.

Com a votação concluída, os papéis são misturados, contados e abertos.

Na contagem, um dos examinadores diz em voz alta os nomes dos cardeais que recebem votos. Cada papel é perfurado com uma agulha, que une-os em um único fio.

Esses papéis são então queimados, emitindo a fumaça visível a quem está fora e que tradicionalmente muda de negra a branca assim que o novo papa é escolhido.

Palha úmida já foi usada no processo para dar coloração à fumaça, mas como as cores começaram a causar confusão, passou-se a usar corante.

Se for necessário realizar uma segunda votação imediatamente, os votos prévios são colocados de lado e queimados juntos com os da segunda votação. O processo continua até que um candidato alcance a maioria exigida.

A decisão

Se, após três dias, ninguém alcançar a maioria de dois terços determinada por Bento 16, a votação é suspendida por no máximo um dia, para permitir uma pausa para oração, debates informais e o que é chamado de "breve exortação espiritual" pelo cardeal sênior na Ordem dos Diáconos.

No fim da eleição, é elaborado um documento com os resultados de cada sessão de votação, que é entregue ao novo papa. O documento é arquivado em um envelope selado, que pode ser aberto apenas sob as ordens do papa.

A única pista sobre os desdobramentos dentro da Capela Sistina é a fumaça emitida duas vezes por dia da chaminé, vinda dos papéis de votação queimados. A tradicional fumaça branca significa que um novo papa foi escolhido.

Novo papa anunciado

Após a eleição ser anunciada pela fumaça, segue-se uma breve pausa até que a identidade do novo sumo pontífice seja divulgada ao mundo.

Quando um dos candidatos obtém a maioria necessária para se tornar papa, ele ouve a pergunta: "Você aceita sua eleição canônica como sumo pontífice?"

Ao dar seu consentimento, o escolhido tem que responder também a: "Por qual nome deseja ser chamado?". O novo papa tem liberdade para escolhê-lo.

Nome escolhido, os demais cardeais então se aproximam do novo papa em um ato de homenagem e obediência.

O novo papa também receberá roupas novas. O alfaiate papal terá preparado vestimentas para vestir um papa de qualquer tamanho - pequeno, médio ou grande -, mas alguns pequenos ajustes de última hora podem se fazer necessários.

Então, da varanda da basílica de São Pedro, o tradicional anúncio ecoará pela praça: Annuntio vobis gaudium magnum... habemus papam! ("Anuncio-lhes com grande júbilo... temos um novo papa!").

Seu nome é revelado, e o recém-eleito pontífice faz sua primeira aparição pública.

Após um pronunciamento, o novo papa dá a tradicional bênção de Urbi et Orbi (a cidade e o mundo), e um novo pontificado terá começado.

O legado de Bento 16

Analistas indicam que primeira renúncia papal em quase 600 anos dever marcar legado de Bento 16

O papado de Bento 16 pode não ter sido glorioso. Mas sua renúncia significa que ele será lembrado por muitos anos.

À medida que os últimos dias, horas e minutos do breve pontificado de quase oito anos de Bento 16 chegam ao fim, até que ele se aposente, no fim de fevereiro, minha mente se volta para a figura de outro dos poucos papas na história que abandonaram voluntariamente o posto.

O papa Celestino 5º foi castigado por aquele que talvez tenha sido o maior dos grandes poetas da Itália, Dante Alighieri, por sua "covardia" em abandonar o trono de São Pedro, no fim do século 13.

Ao deixar o pontificado, ele ocupava o posto havia apenas cinco meses e oito dias.

Em seu poema épico A Divina Comédia, Dante colocou Celestino no inferno por ter sido um notório mau administrador e ter feito "a grande recusa" – basicamente por ter sido um fracasso como papa e ter retornado à vida que gostaria de viver, como eremita.

No entanto, apenas alguns anos depois, Celestino foi canonizado por um de seus sucessores.

Mais recentemente, Celestino foi venerado tanto pelo papa Paulo 6º – que visitou seu túmulo perto de Áquila, na Itália, em 1966, o que gerou especulações de que ele próprio estaria considerando a aposentadoria – quanto, em 2009, pelo papa Bento 16.

Decisão solitária

Tendo testemunhado o lento e doloroso declínio do antecessor imediato de Bento 16, o papa João Paulo 2, rumo à mudez e à semiparalisia, enquanto lutava com bravura contra o mal de Parkinson, eu só posso simpatizar com a decisão corajosa de Joseph Ratzinger de evitar similar morte lenta enquanto ainda no posto.

Há relatos não confirmados de que ele sofreria do mesmo mal.

É pouco provável que o papa Bento 16 entre para a história como um administrador bom e eficaz da Igreja.

O Vaticano testemunhou uma série de conflitos internos e traições durante seu reinado, e suas tentativas de reformar a Cúria Romana, o governo central da Igreja, não foram bem sucedidas.

Ele foi obrigado a se desculpar para vítimas do abusos sexuais de crianças por membros do clero em diversos países, entre eles os EUA, a Grã-Bretanha, Malta e Irlanda.

Ele fracassou em seus esforços de conter o contínuo abandono de fiéis em muitos países ocidentais, apesar de a Igreja Católica continuar a crescer em partes da África e da Ásia.

Também foi durante o pontificado de Bento 16 que se levantou a suspeita de que o Banco do Vaticano praticava lavagem de dinheiro e não respeitava normas financeiras internacionais, e seu diretor foi forçado a renunciar no ano passado após uma conturbada reunião de diretoria.

Mas Bento 16 poderá finalmente ser melhor lembrado pela sua decisão solitária de abandonar voluntariamente a liderança dos 1,3 bilhão de católicos e o comando do minúsculo Estado da Cidade do Vaticano – uma decisão tomada porque ele simplesmente sentiu que não estava mais apto para o trabalho.

De certa maneira ele separou a quase mística função de representante de Deus na Terra do trabalho bem mundano de administrar a organização internacional mais antiga do mundo – que sobreviveu a dois milênios de cismas, supostos reformistas e guerras, assim como a ambições territoriais, familiares e políticas.

A descrição do cargo para o sucessor de Bento 16, quem quer que seja, deve refletir estas enormes mudanças nos requisitos para a liderança da Igreja Católica Romana que ocorreram durante este que foi o primeiro papado completo do século 21


Os desafios que aguardam o novo papa

Vazamento promovido por mordomo do papa Bento 16 no Vaticano (acima) revelou problemas na Igreja

A renúncia de Bento 16 ocorre num momento difícil para a Igreja Católica. No Ocidente, a instituição enfrenta a estagnação no número de católicos, bem como a queda no número de padres.

Enquanto isso, o avanço das igrejas evangélicas, sobretudo na América Latina e na África, limita o crescimento de congregações católicas, as quais também sofrem ameaças em regiões onde a intolerância religiosa é comum.

Bento 16 rejeitou pedidos por um debate a respeito do celibato de clérigos católicos e confirmou o veto à comunhão de católicos divorciados que voltam a se casar.

Leis liberais sendo votadas em diversos países ocidentais também desafiam a igreja. Bento 16 disse que as rígidas posições da Igreja Católica em temas como aborto, eutanásia e homossexualidade "não são negociáveis" - ortodoxia que alienou muitos católicos de orientação mais liberal.

Além disso, o próximo papa terá, entre as suas tarefas, a de reconstruir a confiança sobre uma instituição que tem sido, nos últimos anos, alvo de centenas de denúncias de abusos sexuais perpetrados por padres contra menores.

O próximo papa terá, enfim, de lidar com vários temas. Confira abaixo alguns dos principais desafios que ele deve enfrentar:

Gerenciar o Vaticano

O recente vazamento de documentos do Vaticano, pelo mordomo do papa, revelou que a Cúria - o governo central da igreja - é uma instituição com graves problemas.

Para o analista de Vaticano Clifford Longley, a instituição parece repleta de disputas entre "fações rivais". "E há acusações de corrupção em altas esferas", diz ele.

"A reforma do Vaticano, que só começou nas beiradas, ainda tem um longo caminho a percorrer. A descentralização é imperativa. Seu sucessor tem uma tarefa enorme e pouco invejável."

Serão necessários sistemas de supervisão para garantir que casos de corrupção sejam detectados e punidos e para dar transparência às transações financeiras do Vaticano.

Leis igualitárias

"A questão que se sobrepõe às demais é a crescente pressão sobre católicos por conta de leis de igualdade sendo debatidas no Ocidente", diz o analista de catolicismo Austen Ivereigh.

Leis de casamento homossexual estão em pauta na França e no Reino Unido; agências católicas de adoção foram fechadas no Reino Unido; nos EUA, estão em curso batalhas legais entre instituições católicas e Estados, por conta de igualdade sexual. Tudo isso afeta profundamente a igreja no Ocidente, diz Ivereigh.

Protesto pró-casamento gay; leis igualitárias ainda são um grande desafio à cúpula da Igreja Católica

"Leis de igualdade, como as que permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tornam cristãos e organizações religiosas vulneráveis a processos judiciais e acusações de preconceito."

Para o analista, essas leis podem ter o efeito de marginalizar católicos e a presença da igreja na vida pública.

Casos de abuso sexual

Bento 16 chegou a comentar sobre a vergonha da igreja por conta dos "crimes inenarráveis" cometidos por sacerdotes pedófilos e pediu desculpas às vítimas que conheceu durante suas viagens.

Mas muitos críticos opinam que o Vaticano foi (e ainda é) muito lento, muito relutante e muito tímido na admissão e na investigação das acusações de abusos sexuais.

O novo papa terá como tarefa dar sequência à punição dos criminosos e garantir que as mudanças introduzidas por Bento 16 sejam implementadas - em especial as orientações de proteção à infância, que devem ser cumpridas pelos bispos católicos.

"O próximo papa terá que fazer mais no que diz respeito à proteção das crianças", opina à BBC David Clohessy, diretor-executivo da Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres.

"Ele deve parar de pedir desculpas e, em vez disso, rebaixar bispos que continuam a encobrir crimes horrendos. E ele deve insistir em que sacerdotes atuem em conjunto com autoridades seculares para elaborar e aprovar leis mais fortes contra o abuso de crianças pelo mundo."

O papel das mulheres

Bento 16 admitiu a lentidão da igreja em promover mulheres dentro da instituição, sobretudo em cargos administrativos.

Em 2007, ele declarou que, enquanto Jesus escolheu 12 homens como apóstolos, "entre os discípulos muitas mulheres também foram escolhidas. Elas tiveram um papel proativo no contexto da missão de Jesus".

Apesar disso, porém, ele rejeitou a ordenação de mulheres e fez, no ano passado, um duro discurso criticando a "desobediência" de reformistas.

Ainda que algumas mulheres tenham ascendido na hierarquia do Vaticano, outras consideradas "difíceis" foram expulsas da instituição, diz Gemma Simmonds, diretora do instituto britânico Religious Life.

Também causou polêmica o cerco, em 2012, a um grupo de freiras americanas que, na interpretação do Vaticano, desafiou a doutrina da igreja em temas como homossexualismo e celibato. Para o padre jesuíta Drew Christiansen, acadêmico visitante no Boston College, essa foi uma das falhas do pontificado.

"O contraste entre o tratamento (dado às freiras) e dado a padres pedófilos causa escândalo", opina.

É amplamente aceita a ideia de que é necessária uma mudança cultural dentro do Vaticano, e espera-se que o novo papa promova mulheres em cargos gerenciais altos na Cúria.

Tensões interreligiosas

A proteção a cristãos perseguidos ao redor do mundo, em especial em áreas conturbadas do Oriente Médio, da Ásia e da África, deve ser um grande tema de preocupação para o novo papa.

O atual êxodo de cristãos da Terra Santa vão dar mais relevância à abordagem do próximo papa em suas relações com judeus e muçulmanos.

Bento 16 foi apenas o segundo papa a entrar em um local sagrado islâmico, quando visitou a Mesquita Azul de Istambul, em 2006, e rezou com muçulmanos.

Essa tentativa de aproximação não foi bem vista em alguns círculos muçulmanos, especialmente por ter ocorrido pouco tempo depois de o papa ter citado um imperador bizantino do século 14 que chamara o profeta Maomé de "diabólico e desumano".

O sucessor de Bento 16 terá o desafio de dialogar com o islã, que avança na Ásia e na África, em locais onde o catolicismo tem uma grande base de fiéis.

Bento 16 irritou os judeus ao dar andamento ao processo de canonização do papa Pio 12, apesar de críticas de que este teria feito vista grossa diante do Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial.

O atual papa também causou ira em alguns representantes da Igreja Anglicana, por ter estimulado os insatisfeitos com o anglicanismo a se converter ao catolicismo.

Em geral, as relações com anglicanos e judeus parecem estar apaziguadas. Mas o novo papa terá que ter cuidado ao estender a mão ao mundo muçulmano, sob o perigo de alienar judeus e parecer condescendente com o extremismo islâmico.

Congregações menores e menos padres

Há 1,2 bilhão de católicos no mundo, uma grande parcela deles (42%) na América Latina. A Europa, coração histórico do catolicismo, é atualmente casa de apenas um quarto dos católicos.

Entretanto, Bento 16 pareceu não se incomodar com o declínio numérico, mirando uma igreja menor, porém mais fiel.

Para seu sucessor, será essencial consolidar essa mudança de posição da igreja dentro da sociedade. À medida que a igreja se afasta das instituições oficiais, ela terá que dar apoio aos seus seguidores e lideranças, diz Austen Ivereigh.

Ao mesmo tempo, a igreja deve continuar a garantir que tirará proveito das tecnologias modernas para espalhar sua mensagem.

A nomeação de Greg Burke, correspondente em Roma da Fox News, para o cargo de conselheiro, em 2012, sinalizou a adoção de uma estratégia de comunicação mais moderna no Vaticano. Além disso, o papa abriu uma conta no Twitter.

É esperada de seu sucessor uma abordagem igualmente entusiasmada à tecnologia.



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