Cardeal revela bastidores de conclave papal

Atualizado em  5 de março, 2013 - 07:09 (Brasília) 10:09 GMT
Cardeais no conclave de 2005. | Foto: AP

Os 115 cardeais eleitores irão em procissão solene até a Capela Sistina

Participar de um conclave é algo muito estranho: você fica isolado, não pode trazer seu celular e é vigiado.

Durante esses dias você tem encontros secretos com outros cardeais para discutir nomes de possíveis papas, quais os desafios para a Igreja e quem seria a melhor pessoa para lidar com eles.

Então foi dessa maneira que eu cheguei à conclusão sobre em quem eu votaria – pelo menos no começo.

Sem adiantar nada, posso dizer que certamente há preocupações sobre o Terceiro Mundo e a América Latina – não tanto em relação a candidatos, mais no que diz respeito a preocupações mesmo - em temas como pobreza e a Igreja ao lado dos pobres.

Passa muita coisa na mente de um cardeal.

Alguém diz "Extra omnes" – que significa que todos devem sair -, deixando apenas os cardeais eleitores antes que a porta da sala se feche.

Eu me lembro de olhar para os 114 cardeais e pensar: "um de nós sairá daqui com uma batina branca".

'Você aceita?'

Três cardeais são eleitos para serem os monitores e um a um nós subimos com nossos votos e os colocamos em uma urna dourada.

Cardeal Cormac Murphy-O'Connor | Foto: Reuters

O cardeal britânico não votará no novo conclave

E esse é um momento solene, já que acima de nós está o Juízo Final, de Michelangelo. É muito emocionante, algo que você se lembrará para sempre.

Os votos são lidos e depois checados. Quando se alcança uma maioria, após 77 ou 78 votos, todos aplaudem.

O cardeal Ratzinger estava com a cabeça abaixada. Acho que estava rezando. E então um cardeal sênior foi até ele e perguntou: "Você aceita?"

Então nós todos esperamos com a respiração suspensa.

Eu me lembro daquele momento muito bem e do silêncio que reinava. Ele parecia muito solene e não somente lúcido, mas também calmo.

E quando ele disse "sim, eu aceito se é a vontade de Deus" - foi isso. Ele era papa.

Jantar e música

Quando ele foi perguntado como se chamaria, ele disse Bento - deve ter pensado nisso antes. Acho que cada um dos cardeais tinha um nome na manga.

Foto: AP

Bento 16 convidou cardeais para um jantar após votação

(Eu tinha dois ou três em mente, como Adriano, o único papa inglês, ou Gregório, que mandou Santo Agostinho de Cantuária para o Reino Unido, ou Bento)

Então ele saiu e havia um alfaiate papal fora da sala com três batinas brancas - grande, média ou pequena.

Depois de cerca de 10 minutos, Bento 16 voltou e todos nos levantamos e beijamos seu anel.

E não importa como você votou - ele é o papa.

Depois do conclave, Bento disse: "Eu gostaria que vocês ficassem para que nós tenhamos um jantar de confraternização".

Nós ficamos e ele veio, já vestido como papa. Eu sempre me perguntei como ele estava se sentindo, na verdade.

De qualquer modo, nós o aplaudimos e tivemos um jantar muito agradável com um pouco de champanhe para brindar.

Então nós tentamos cantar algumas músicas. Era muito difícil com cerca de 100 línguas diferentes para uma música...depois fomos descansar.

No último conclave, a votação acabou rapidamente. Esse pode demorar um pouco mais.

O cardeal Cormac Murphy-O'Connor é o arcebispo emérito de Westminster. Ele votou no conclave que elegeu Joseph Ratzinger como papa em 2005, mas, como completou 80 anos no último mês de agosto, passou da idade para votar no sucessor de Bento 16.

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