Adoração 'religiosa' marca cortejo de Chávez nas ruas de Caracas

Atualizado em  6 de março, 2013 - 19:23 (Brasília) 22:23 GMT
Velório de Hugo Chávez

Corpo do líder venezuelano será velado durante três dias na Academia Militar

As milhares de pessoas que tomaram as ruas de Caracas nesta quarta-feira durante o cortejo com o corpo do presidente Hugo Chávez deram sinais de uma adoração “religiosa” ao líder venezuelano, que morreu na terça-feira.

A tristeza e as lágrimas dos simpatizantes de Chávez se misturaram a menções a elementos místicos que foram associados à morte do líder da revolução bolivariana, cujo corpo foi levado do hospital em que morreu até a Academia Militar de Caracas, onde será velado.

"Até o céu chorou, uma chuva forte, curta, um choro de despedida", recordou aos prantos Rogélio Colmenares, gerente de recursos humanos, enquanto aguardava o cortejo que acompanharia o corpo do presidente venezuelano até a sede da Academia Militar, onde será velado.

Colmenares é um homem corpulento, com semblante fechado. Ele contou ter viajado mais de 12 horas para se despedir do "comandante". Ao mencioná-lo, se emocionou, como se relatasse a morte de um familiar que ganhara características divinas.

"O que nos conforta é que ele não morreu. Ele está sendo plantado pelo vento para que todos tenhamos um pouco dele com a gente. Essa foi a solução que a divina providência encontrou para que ele permaneça em todos nós", afirmou.

Despedida

O tom mítico atribuído à figura presidencial vinha ganhando força desde que foi descoberto o câncer, em 2011. A partir daquele momento, diferentes manifestações ecumênicas passaram a ser transmitidas pelos meios de comunicação estatais. O materialismo e pragmatismo dos revolucionários passava a ser combinado com o sincretismo religioso que caracteriza os venezuelanos.

Em muitas casas, a fotografia do presidente passou a ser acompanhada de uma vela e de uma oração que pedia por sua recuperação.

Quando o carro que levava o caixão com o corpo do presidente deixou o Hospital Militar, onde ele esteve internado desde que regressou de Havana, havia pouco mais de duas semanas, houve comoção generalizada.

"Estamos doloridos, vai ser muito difícil sem ele, mas já sabemos o caminho. Não vamos deixar que ninguém nos roube essa revolução."

Érica Mendonza, vendedora ambulante

Algumas mulheres tiveram que ser amparadas, tamanho o desespero. Uma senhora idosa chorava de maneira desconsolada. "Não nos deixe, meu filho, não pode ser", dizia.

"Estamos doloridos, vai ser muito difícil sem ele, mas já sabemos o caminho. Não vamos deixar que ninguém nos roube essa revolução", afirmou a vendedora ambulante Érica Mendonza, que passou a noite na rua, do lado de fora do Hospital Militar, à espera da saída do corpo do presidente.

O cortejo foi antecipado por uma passeata semelhante a uma procissão. Vestidos de vermelho, a cor da revolução, muitos carregavam cartazes com fotografias do presidente, bandeiras e rosas vermelhas, embalados pela palavra de ordem "Chávez não morreu, se multiplicou".

Abatidos, o vice-presidente Nicolás Maduro, o chanceler Elias Jaua, o presidente da Assembléia Nacional Diosdado Cabello e outros membros do núcleo do governo caminhavam ao lado do caixão de Chávez, que foi coberto com a bandeira venezuelana.

O corpo será velado durante três dias na Academia Militar, onde Chávez começou seu movimento político que o projetou à Presidência. Seus seguidores já fazem fila desde a terça-feira do lado de fora da sala para participar do velório.

Ainda não foi revelado o local do enterro, mas os seguidores do presidente pedem que a urna seja depositada no Panteão Nacional, ao lado de Simón Bolívar, fonte de inspiração de Chávez e de sua revolução bolivariana.

Silêncio opositor

Do outro lado da cidade, no leste, reduto opositor, a polarização que marcou a trajetória de Hugo Chávez também é evidente. O clima é de feriado.

Poucas pessoas e carros circulam pelas ruas e um silêncio incomum marca o ambiente. Não houve reações públicas de festejos pela morte do mandatário como ocorreu em Miami, onde a diáspora anti-chavista comemorou o falecimento do líder venezuelano.

Dirigentes opositores têm tratado com respeito e cautela a situação, de olho nas eleições presidenciais que devem ocorrer em 30 dias, e não voltaram a se pronunciar em relação à morte do presidente.

Qualquer reação contrária ao sentimento de tristeza de boa parte da população poderia minar parcialmente o apoio à candidatura anti-chavista, na opinião de analistas.

Na terça-feira, Henrique Capriles, um dos principais líderes oposicionistas e possível candidato à presidência, havia lido um comunicado de condolências e pediu o momento seja de “paz e não da diferença”.

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Espera-se agora uma disputa nas urnas entre Capriles, derrotado por Chávez na eleição presidencial de novembro, e o vice-presidente Nicolás Maduro, apontado como herdeiro político da revolução pelo próprio Chávez. Pesquisas apontam que Maduro venceria o pleito com mais de 50% dos votos.

A comoção gerada pela morte do presidente tende a catapultar a eleição de Maduro. O pleito marcará a primeira prova de fogo para o chavismo como movimento político, sem Chávez, cuja liderança havia sido imbatível nas urnas.

O engenheiro Gustavo Marquez tomava um sorvete na Praça Altamira, ponto de encontro da oposição no passado recente, alheio ao funeral do presidente.

"Estamos um pouco tensos, sim, mas não vai acontecer nada", disse o jovem opositor. "Vamos outra vez à eleição. Espero mudanças, mas sei que vai ser difícil vencer, ainda mais agora que Chávez virou Deus".

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