Chávez fazia Fidel gargalhar, diz repórter da BBC

Atualizado em  6 de março, 2013 - 17:40 (Brasília) 20:40 GMT
Chávez e Fidel

Os líderes venezuelano e cubano mantinham uma relação especial

O correspondente da BBC em Havana, Fernando Ravsberg, que conheceu pessoalmente o presidente Hugo Chávez em 2002, disse que nunca viu o líder cubano, Fidel Castro, “cair na gargalhada como fazia quando Chávez o visitava”.

Segundo ele, mesmo antes dos dois terem se conhecido, surgiu entre os dois líderes uma espécie de “amor à primeira vista.”

“De um lado, Castro encontrou um substituto à altura na América Latina, e Chávez, por sua vez, descobriu uma raposa política cujos conselhos permearam seu caminho em mais de uma ocasião”, disse o repórter.

Leia abaixo o relato de Ravsberg, publicado Clique em seu blog na BBC Mundo, o site da BBC em espanhol.

"Conheci Hugo Chávez em 1994, pouco tempo depois dele ter saído da prisão (por uma tentativa de golpe de Estado na Venezuela em 1992), quando visitou Cuba e foi recebido por Fidel Castro com honras de chefe de Estado. Enquanto o ouvia em uma palestra na Universidade de Havana, tentava entender quem era aquela figura.

Chávez era um soldado que tentou um golpe contra um governo democraticamente eleito. Além disso, lembro-me de que suas palavras não tinham um tom tão socialista, mas que faziam constantes referências à justiça social e ao nacionalismo.

O custo político de receber um golpista era muito alto para que Cuba o recebesse sem um propósito, então tentei descobrir o que estava por trás dessa nova amizade com Fidel. Para começar, dei-me conta de que o ocorrido na Venezuela tinha sido muito mais do que uma intentona militar.

Soube que civis participaram deste evento, entre eles alguns velho guerrilheiros que, no passado, estiveram muito ligados a Cuba e que sem dúvida deviam ser uma fonte valiosa de informação para Havana sobre a personalidade e ideias políticas do militar venezuelano.

Mas antes de que se conhecessem pessoalmente, surgiu entre Chávez e Fidel uma espécie de amor à primeira vista. Há muito tempo moro em Cuba e nunca vi Fidel cair na gargalhada como fazia quando Chávez o visitava.

De um lado, Castro encontrou um substituto à altura na América Latina, e Chávez, por sua vez, descobriu uma raposa política cujos conselhos permearam seu caminho em mais de uma ocasião.

Além disso, havia naquela relação uma ajuda mútua, pela qual Cuba recebia petróleo e, a Venezuela, médicos e professores em missões sociais.

Na primeira vez em que visitei Caracas, uma amiga venezuelana que participava das negociações entre os dois países me contou que Fidel Castro queria enviar médicos gratuitamente à Venezuela, mas pesava contra sua decisão a dificuldade em equilibrar a balança comercial.

Tempos depois ela mesma me explicou que Chávez pressionou o presidente cubano para que este último aceitasse trocar a ajuda médica por petróleo uma vez que as leis venezuelanas não lhe permitiam enviar petróleo cru a Cuba por pura solidariedade.

Que eu saiba, o único "jogo sujo" que houve entre ambos foi protagonizado por Fidel Castro. Chávez o convidou para uma partida de beisebol entre veteranos e o líder cubano o enfrentou com jogadores da seleção nacional cubana disfarçados de velhinhos.

Entrevista

Durante a tentativa de golpe de Estado de 2002 contra Chávez na Venezuela, fiz uma entrevista para a Telemundo, rede de TV hispânica sediada nos Estados Unidos, com uma das filhas de Chávez em que ela garantiu que seu pai não havia renunciado ao cargo como alegavam os golpistas para justificar sua queda.

Como a Telemundo pode ser assistida na Venezuela, acredito que com essa reportagem contribuímos de alguma forma para revelar o que estava ocorrendo porque dias depois fomos convocados para viajar a Caracas, e Chávez nos deu a primeira entrevista à imprensa após sua libertação.

O encontro ocorreu no Palácio de Miraflores (sede do governo da Venezuela) e falamos de sua prisão, de sua intenção de formar outro governo à força, do papel da imprensa no golpe, de suas relações com os Estados Unidos e a Espanha. Chávez estava muito sereno e menos inflamado do que em seus discursos.

Lembro-me de que enfatizou bastante a mensagem que recebeu de Fidel em Miraflores, durante os primeiros momentos de seu retorno ao poder. Castro recomendava ao líder venezuelano não cometer suicídio, evitar um sacrifício inútil e conservar sua vida para continuar sua luta posteriormente.

Chávez me pareceu um homem bastante simples, nos tratou com deferência, tomamos café juntos, tiramos fotos e ele deu de presente a cada membro de nossa equipe um exemplar de sua "segunda Bíblia", a Constituição da República criada por ele mesmo.

Esperamos o dia inteiro em Miraflores até que o líder venezuelano estivesse livre para nos atender. A entrevista acabou acontecendo à meia-noite daquele dia. Saímos correndo para enviar a reportagem por satélite e para que a rede de TV anunciasse que tínhamos uma entrevista exclusiva com Chávez.

Estávamos esgotados, eu e meu cinegrafista, Víctor Buttari, quando nos demos conta que havíamos esquecido as fitas originais dentro do táxi que nos levou para casa. Incrivelmente, conseguimos recuperá-las em Caracas às 3 da manhã daquele dia, antes de pegarmos o avião rumo a Miami, às 6 da manhã."

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