Lucas Mendes: Homem de palavras

Atualizado em  7 de março, 2013 - 12:05 (Brasília) 15:05 GMT

Ele pede 4 mil. Às vezes, deixa por 3,5 mil.

Na guerra das 140 letras contra 4 mil palavras, o jovem tuíte é o favorito, mas o velho editor de 82 anos resiste e não perde terreno.

Neste nosso mundo apressado, high-tech e sem tempo para leitura, a New York Review of Books é um fenômeno de longevidade, resiliência, inteligência e, pasmem, de lucro.

A revistona americana acaba de fazer 50 anos e promete mais 50. Passei uma tarde com seu criador e editor, Robert Silvers, a encarnação da revista que ele chama de paper. A conversa começou pelo nascimento da NYRB, filha de uma greve e de um jantar entre amigos.

Silvers relembra que o piquete acontecia em março de 1962, reunia os gráficos do jornal The New York Times e já chegava ao quarto mês.

No jantar, estavam os editores Jason Epstein e Elizabeth Hardwick. Na manhã seguinte, Silvers conta que recebeu um telefonema com o plano da concepção: As editoras de livros de Nova York estavam em pânico porque não tinham onde anunciar seus livros. O veículo deles era o New York Times Book Review, que havia sido silenciado pela greve.

"Era uma oportunidade única de lançar uma revista literária sem gastar um centavo", recorda Silvers.

A parceira dele na aventura seria a também editora de livros Barbara Epstein.

Ambos tinham conexões no meio literário e entre os ricos nova-iorquinos. Poetas, críticos e escritores do primeiro time responderam à convocação.

Entre os que escreveram de graça estavam Norman Mailer, Willliam Styron , Mary McCarthy, Elisabeth Hardwick, Susan Sontag, Alfred Kazin, Dwight MacDonald, Irwin Howe, Philip Rahv, os poetas Auden, Warren, Lowell e Berryman.

"Nunca uma revista americana tinha nascido tão pronta", escreveu David Remick, na New Yorker. Silvers explicou que a edição era um teste e nela havia uma carta que pedia aos leitores que respondessem "se era hora de criar uma revista literária." Resultado: vendeu 100 mil exemplares.

Com 2 mil cartas na mão, ele bateu na porta dos ricos que compraram ações tipo A e financiaram a publicação. Ele e outros empregados receberam pequenos salários e ações do tipo B.

Ficou acordado, contudo, que os acionistas A não podiam dar nenhum palpite editorial, nem no conteúdo, nem sobre os empregados.

Essa inspirada criação capitalista, a journal of ideas, com proteções trabalhistas, mexeu com as cabeças na década de 60. Já nascia furiosamente contra a guerra do Vietnã e contra Nixon, ensinava como fazer coquetéis molotov, mas também abria espaço para críticos conservadores e autores anticomunistas.

Cinco anos depois de lançada, a revista saiu do vermelho e desde então nunca mais teve prejuízo. Em 1984, foi comprada por um sulista do Mississippi, Rea Hederman, com a promessa de não interferir no conteúdo.

Ele tem uma ala na ampla, branca e espaçosa sede da revista no Village, jamais interfere no conteúdo e é responsável pela crescente ala virtual da NYRB.

Cerca de 10% dos 130 mil assinantes da revista são virtuais, assim como eu. Depois de acumular pilhas de revistas em casa sem espaço e com medo de incêndio, decidi me separar delas. O prazer não é o mesmo, mas não me sinto culpado com aquela barricada de papel me olhando à espera de atenção. A tela do computador não intimida. Nem pega fogo.

A atual New York Review of Books não ensina a fazer coquetéis molotov, mas nas 20 edições anuais publica mais ensaios e críticas de livros sobre revoluções, política e uma diversidade de assuntos que você não espera encontrar em uma revista literária.

Na edição deste mês, por exemplo, há um ensaio sobre tecnologia para o reconhecimento de voz, a Jihad no Mali, o partido republicano e, mais previsíveis, críticas de um livro sobre Jack Kerouac e sobre o filme de Walter Salles.

São, em média, 15 críticas por edição que somam mais ou menos 55 páginas. Pelas contas dele, anualmente, isso dá algo em torno de 16 mil críticas assinadas por 8 mil críticos, escritores e ensaístas.

O outro gênio da revista, o caricaturista David Levine, que morreu em 2007, fez 3,8 mil caricaturas em bico de pena de escritores, gurus intelectuais e políticos. São preciosas e custam caro.

Aos 82 anos, Silvers trabalha mais horas por dia do que sua pequena redação de meia dúzia de editores, pesquisadores que conferem nomes, datas e fatos.

Ele lê pessoalmente todos manuscritos e sugere alterações. É também conhecido pelo rigor com que trata seus interlocutores, independentemente de quem sejam.

Quando recebeu, por exemplo, um ensaio do escritor Italo Calvino, Silvers respondeu com uma carta de 12 páginas com sugestões de alterações e esclarecimentos sobre os comunistas italianos. Os dois continuaram amigos, mas o italiano não retornou à indagação. O texto acabou não sendo publicado.

Outra meticulosidade de Silvers que se tornou lendária foi convocar um autor que estava num cruzeiro no Mediterrâneo para esclarecer uma dúvida sobre uma palavra. Naquela época, este tipo de convocação ao comando do navio era exclusivo para notícias urgentíssimas.

Apesar da idade avançada, Robert Silvers tem uma memória extraordinária. Teve poucos encontros com Elizabeth Bishop, poeta que viveu 15 anos no Brasil.

Um deles foi num almoço, há mais de 40 anos, cuja conversa ele relembrou em detalhes, boa parte sobre Carlos Lacerda.

"É possível fazer uma crítica sobre um tuíte?", pergunto, no final.

"Big problem", responde Silvers. "São bilhões de tuítes, trilhões. São palavras, ao fim e ao cabo".

"A grande maioria não tem a menor importância, mas há os que importam. Vão chegar e desaparecer? Não sabemos o que fazer com eles".

Essa dúvida aflige o homem de trilhões de palavras: como lidar com 140 dígitos.

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