Com fama de bom gestor, dom Odilo teve ascensão rápida na Igreja

  • 12 março 2013
Dom Odilo Scherer (foto: Associated Press)
Image caption Odilo Scherer pode ser a ligação entre o mundo em desenvolvimento e o Velho Mundo

Quando foi nomeado arcebispo de São Paulo pelo papa Bento 16, em março de 2007, dom Odilo Pedro Scherer diz ter sentido o peso da responsabilidade que estava assumindo.

Ordenado bispo apenas cinco anos antes, dom Odilo conta que chegou a pensar se daria conta do desafio de comandar a maior arquidiocese do maior país católico do mundo.

Seis anos depois, o cardeal brasileiro pode estar prestes a enfrentar um desafio ainda maior: nos últimos dias, seu nome vem despontando nas listas de possíveis sucessores de Bento 16, que deixou o cargo no mês passado.

Nascido em 1949 em uma família de imigrantes alemães em Cerro Largo, no noroeste do Rio Grande do Sul, dom Odilo tem um perfil apontado por alguns especialistas como ideal para comandar a Igreja Católica em um momento em que cresce a pressão pela escolha de um papa de fora da Europa.

Aos 63 anos, o cardeal brasileiro já foi descrito pela imprensa italiana como "um homem de estilo moderado e menos latino, que fala bem o italiano".

"No nível simbólico, ele seria o primeiro papa do mundo em desenvolvimento. Suas raízes germânicas, porém, dão a ele uma ligação cultural e linguística com o Velho Mundo", escreveu o vaticanista americano John Allen no site do jornal National Catholic Reporter.

"Então, de certa maneira, ele poderia ser percebido por muitos cardeais como uma ponte 'segura' entre o passado e o futuro da Igreja."

Experiência

Fluente em português, italiano e alemão – que era o primeiro idioma em sua casa, na infância –, Scherer fala também inglês, francês e espanhol.

A atuação à frente da Arquidiocese de São Paulo – terceira maior do mundo – e, antes, como secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), de 2003 a 2007, garantiram a dom Odilo a fama de bom administrador, importante em um momento em que a Igreja tenta se recuperar de escândalos e divergências internas.

"Ele gosta das tarefas bem feitas e, quando algo não fica do seu agrado, não pensa duas vezes em chamar a atenção dos envolvidos. Alguns até se assustam", disse à BBC Brasil o padre Aparecido Pereira, vigário episcopal para as Comunicações da Arquidiocese de São Paulo, que conhece o cardeal há uma década.

Dom Odilo também tem a seu favor a experiência adquirida durante os anos passados na Cúria Romana, onde trabalhou na Congregação para os Bispos, considerada um dos mais importantes departamentos do Vaticano, como ressalta Allen.

"Isso poderia sugerir a alguns cardeais que ele pode executar uma tão desejada reforma na burocracia do Vaticano", escreveu o vaticanista.

A proximidade com o Vaticano, porém, é apontada por alguns como motivo para as duas derrotas subsequentes sofridas por dom Odilo nas últimas eleições para a CNBB.

Carreira

A escolha do nome de dom Odilo no conclave que se reúne em Roma seria a coroação de uma carreira já descrita como meteórica, iniciada no seminário em Toledo, no oeste do Paraná, para onde a família Scherer se mudou quando ele era criança.

Ele é o sétimo entre 13 irmãos. Duas meninas morreram na infância, e, dos outros 11 irmãos, dez estudaram em instituições religiosas, mas dom Odilo foi o único que seguiu a carreira eclesiástica.

Foi ordenado sacerdote aos 27 anos, bispo aos 52 e elevado a arcebispo aos 57, pouco antes da visita do papa Bento 16 ao Brasil. Poucos meses depois, em novembro de 2007, aos 58 anos, tornava-se cardeal.

Com mestrado em filosofia e doutorado em teologia cursados em Roma, dom Odilo não é considerado um religioso conservador linha-dura e já se pronunciou sobre temas da política.

Por exemplo: apesar de criticar a inclinação marxista da Teologia da Libertação, ele já elogiou os avanços que o movimento trouxe ao pobres.

Também já manifestou preocupações ambientais, e chegou a pedir ao governo maior controle da expansão agropecuária na Amazônia.

Por outro lado, muitas de suas declarações ecoam posições tradicionais da igreja. Ele é contra o fim do celibato para padres, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto, opiniões próximas às do papa Bento 16.

Em 2012, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) julgava a descriminalização do aborto em caso de anencefalia, dom Odilo ressaltou que a decisão não mudava a posição da Igreja, “de respeito pleno à vida daquele ser humano, ainda que seja muito breve”.

"Se isso foi tornado legal, não significa que se tornou moral", disse, na época.

Em 2009, em meio à polêmica gerada por declarações do arcebispo de Recife e Olinda, dom José Cardoso Sobrinho, sobre o caso de uma menina de nove anos grávida de gêmeos após ter sido violentada pelo padrasto, dom Odilo falou à BBC em termos mais amplos sobre a posição da Igreja em relação ao aborto em casos de estupro.

"Eu entendo como uma mulher que carrega um bebê após ter sido violentada se sente, mas sempre há a possibilidade de ajudar essa mulher a lidar com a situação", disse na época.

No ano passado, dom Odilo foi alvo de protestos na eleição para a reitoria da PUC-SP quando, usando seu poder como grão-chanceler da universidade, nomeou para o cargo a terceira colocada na votação, Anna Cintra.

Ele também provocou polêmica durante as eleições para a prefeitura de São Paulo, ao criticar a campanha do candidato Celso Russomanno, do PRB, partido liderado por integrantes da Igreja Universal do Reino de Deus.

Renovação

Muitas das opiniões do cardeal são expressadas em sua conta no Twitter, @DomOdiloScherer, uma das ferramentas usadas por dom Odilo para se comunicar com os jovens.

O cardeal que gosta de fotografia, cinema e viagens e trabalha ouvindo música erudita e MPB é considerado um religioso moderno, uma aposta para os que acreditam que a Igreja Católica precisa de renovação.

Apesar da movimentação em torno de seu nome, dom Odilo evita falar sobre a possibilidade de se tornar papa.

"Toda vez que falam de candidatura em Roma ele mesmo desvia", disse à BBC o advogado Ives Gandra Martins, um dos sete conselheiros da Arquidiocese de São Paulo.

"Ele instruiu a família a dizer que as chances são remotíssimas, exatamente para tirar essa perspectiva de que ele está disputando um cargo."

Caso seja escolhido no conclave, sua habilidade de se aproximar dos jovens será colocada à prova já no início do pontificado: um dos primeiros compromissos do novo papa será a Jornada Mundial da Juventude, marcada para julho, no Rio.

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